Além do Palco

Livre de rótulos e em busca de uma dança autoral

Foto: F. Barella

Sesc Ribeirão Preto. Tarde de inverno quente. A bailarina Diane Ichimaru, 44 anos, está no fundo do palco testando a luz do espetáculo Adverso junto com Marcelo Rodrigues, seu parceiro na Confraria da Dança, companhia da cidade paulista de Campinas, desde que a fundaram, em 1996.

Foto: Ricardo OliveiraFoto: Ricardo Oliveira

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Descalça, usando cami seta, calça de ensaio e óculos de grau tipo gatinho, Diane me cumprimenta com um abraço e vamos ao camarim. Sentamo-nos lado a lado nas cadeiras um pouco estreitas do espaço e Diane, bem à vontade, começa a falar sobre seu quarto solo, que já passou por Indaiatuba, Paulínia, São Paulo, Atibaia, Amparo, Águas de Lindoia, entre outras cidades. “Adverso” lida com as delimitações do espaço e como isso reflete no corpo. O espaço ideal seria um semicírculo, com a plateia no mesmo nível do palco, porém nem sempre é assim. Mas a necessidade de nos adaptarmos a diferentes palcos é enriquecedora”, ela diz.

Dona de convicções firmes e avessa a rótulos, Diane fala suavemente sobre a trajetória artística da Confraria da Dança, que acumula seis coreografias em seu repertório: Beneditas (1998), Território Interno (2001), Carta para Não Mandar ou Cantiga Interrompida (2004), Relevo (2006), Brinquedos e Inventos para Dançar (2005) e Adverso (2009). O trabalho da intérprete vem chamando a atenção por sua força e seu traço autoral. Adverso busca transgredir as fronteiras entre dança, literatura e teatro. O texto do espetáculo, cheio de pitadas ácidas sobre a existência, foi escrito pela bailarina, que apenas em dois momentos usa trechos de outros autores: no início, quando brinca de ser ventríloquo e faz uma livre adaptação de um trecho de Memorial do Convento, de José Saramago, e quando se ajoelha e empurra o carrinho (um dos objetos de cena) dizendo a oração ao Santo Anjo Custódio.

Durante a conversa, tento guiar Diane pelas perguntas que preparei. Em vão… Ela vai direcionando o bate-papo com desenvoltura e delicadeza, porém com a segurança de alguém que diz “não tente me conceituar!”. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Conectedance.

Sobre o seu trabalho… 
“Eu considero meu trabalho bastante contemporâneo, porém fujo dessa nomenclatura ‘dança contemporânea’ porque afasta as pessoas. A minha relação primordial com a dança vem de querer dizer coisas que às vezes as palavras não conseguem. Quero trazer uma paisagem nova, provocar sensações na plateia e ser provocada por ela.”

Sobre a dança…
“Não gosto muito de ver dança. Os trabalhos me parecem ausentes, muito formais, vazios. Vejo corpos vazios de significado. Minha rotina não me permite ver muitos espetáculos de dança. Atualmente não me lembro de um trabalho em dança que tenha me chamado a atenção. Gosto mesmo é de andar na rua e ver a movimentação das pessoas. Adoro ver os catadores de lixo, os pedreiros e os lixeiros se movimentando. Gente! Tem cada movimento! Observo vários trabalhadores se movimentando há anos. Tem uma catadora de lixo que eu observo há muito tempo e ela tem uma movimentação muito bonita.”

Sobre preparação corporal…
“Sinto muita necessidade de dar espaço para o esqueleto, de me alongar. A constância é muito importante. Se eu paro uma semana, fico triste, deprimida, fico mal. Eu tenho necessidade de palco, ali eu entendo o motivo da minha existência. Para mim é importante ensaiar muito, ensaiar corrido, o espetáculo de cabo a rabo várias vezes, ou seja, ritualizar o ensaio. E acho muito importante ensaiar o mais próximo da cena de fato, com luz, com figurino, tanto que tenho até um figurino só para ensaio.”

O começo de tudo…
“Quando criança eu tinha muita vontade de dançar e de ser ginasta, amava a Nadia Comaneci [ginasta romena]. Mas em Bragança [Paulista, cidade onde nasceu] não havia aulas e minha família tinha poucos recursos financeiros. Então, eu inventava minhas danças. Aos 15 anos comecei a fazer dança com o intuito mesmo de ser artista. A Olenka Motta Raia [irmã da atriz Cláudia Raia] ia uma vez por semana a Bragança dar aula e eu fazia. Mas eu não me contentava com uma aula por semana, não tinha grana, então, me movimentava sozinha. Sempre fui muito solitária. Fui para Campinas, onde estudei com Ivonice Satie (1951-2008), e fiquei dois anos na Cia. Ballet Juliana Omatti. Fiz graduação em dança na Unicamp e lá imaginei que poderia seguir carreira acadêmica. Mas, no decorrer do curso, percebi que queria me assumir como artista. Na universidade ficou forte a vontade de criar por meio da dança, não só ser intérprete, o que por si só nunca me bastou.”

O diálogo com outras linguagens…
“A dança foi onde eu descobri que poderia trazer tudo o que me move junto. Por exemplo, tenho uma relação forte com artes plásticas. Para mim a dança não vive sem as artes plásticas. Para mim a criação tem muito a ver com imagem, com cores, texturas. Gosto muito de desenhar. Me preocupo muito com o figurino também. Quando estou criando uma coreografia já penso nele imediatamente. Eu não consigo criar sem pensar no figurino. Portanto, tudo vem junto, não é separado.”

Sobre o recente uso de textos em cena…
“Essa coisa de usar a palavra em cena para mim tem a ver com a relação da respiração com a movimentação. Isso tem-me feito descobrir coisas muito legais: a sonoridade, que leva a determinado movimento, que desperta determinado sentido. É um jogo muito rico. Complica porque as pessoas chegam (com aquela necessidade de classificar) e me dizem: ‘Agora você é atriz’.”

A literatura…
“Tenho o hábito de registrar meus processos de ensaio escrevendo. Primeiro me movimento bastante e depois escrevo sobre isso. Em Carta [Carta para Não Mandar ou Cantiga Interrompida] começou essa vontade de registrar em palavras o meu processo de movimento. Essa mistura de dança com texto para mim nasce junto. Gosto de ler, mas gosto mais é de reler. Por exemplo, Fernando Pessoa me diz muito, relendo-o me percebo bastante.”

Cinema…
“Gosto muito. Cinema tem me tocado muito. Acabei de ver A Partida [filme do diretor japonês Yojiro Takita] e saí repleta. Ele me fez rir, chorar, refletir… A minha vontade é que minhas obras transformem as pessoas como o cinema tem me transformado, mexido comigo.”

Método de trabalho…
“Sou completamente intuitiva para criar, não tenho um método, cada criação surge de um jeito diferente. Talvez meu método seja me disciplinar para estar aberta a criar. Em Adverso começaram a aparecer cenas bem ácidas, que me assustaram, mas resolvi assumir o risco.”

O público…
“As plateias que não têm muito o costume de ver dança vêm com um frescor para assistir e isso traz um olhar novo ao trabalho. As cenas críticas de Adverso, por exemplo, têm sido recebidas por essas pessoas de um jeito cômico. Eu acho que onde o trabalho mais cresce é no embate com o público, enfrentando plateias diferentes. Isso dá espaço para o trabalho amadurecer. O artista tem o compromisso de permitir que a obra amadureça.”

A relação com as roupas…
“Eu mesma confecciono os figurinos. Aprendi a costurar sozinha porque sempre fui muito curiosa. E minha avó, que morava ao lado da minha casa, era crocheteira de mão cheia, minha mãe sempre costurou. Eu, com 5 anos, fazia crochê muito bem. E tricô também.”

As inspirações…
“Tenho minhas inspirações, mas fujo da sombra das pessoas. É claro que me alimento de muitos trabalhos, de muitas pessoas, porém minha obra existe por si só. Senão, ela se esvazia. Não tem como dizer ‘tal pessoa me influencia’, senão isso vira um rótulo. Eu não quero isso para mim.”

Sobre ser professora…
“Eu odeio dar aulas. Gosto de ministrar oficinas, mas fico muito longe do conceito de dar aula. Fico constrangida de chegar e ‘ensinar’, e constrangida com o jeito passivo dos alunos em geral. Gosto muito de trocar com os grupos de pessoas, de passar algo e receber dos outros.”

A parceria de 13 anos com Marcelo Rodrigues na Confraria da Dança…
“Descobri desde o primeiro momento que eu e o Marcelo temos em comum uma vontade muito grande de fazer, de concretizar, de sair da acomodação do sonho. A gente tem essa loucura de tentar concretizar nossos sonhos. Conheço um monte de gente que fala: ‘Ah! Tenho uma vontade de fazer tal coisa…’ E fica na vontade. A gente é louco: vai lá e faz. E quando um esmorece, o outro levanta: ‘Não vem, não, a gente começou, agora vamos até o fim!’.”