Brasileiros no Exterior

Morena Nascimento: trânsito entre Brasil e Europa vai complementar experiência na companhia de Pina

Foto: Dennis Scharlau
Morena Nascimento
Morena Nascimento

O percurso de Morena Nascimento sempre apresentou um diferencial na cena contemporânea brasileira. Criadora e intérprete que mistura técnica apurada a uma força comunicativa importante e necessária, essa mineira de Belo Horizonte ingressou em 2007, aos 27 anos, em uma das mais importantes companhias do mundo, o Tanztheater Wuppertal Pina Bausch.

O trabalho no Tanztheater não impediu, no entanto, que Morena continuasse desenvolvendo suas próprias criações. Seu último trabalho solo, Quase ela (três momentos de saudade), apresentado em novembro em Santos (SP), na Bienal SESC de Dança 2009, expressa a passagem do tempo. Dividido em três momentos, representa uma espécie de compilação dos solos desenvolvidos a partir de sua chegada na Alemanha, para onde se mudou em 2005 com o objetivo de estudar e pesquisar a técnica desenvolvida pela coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009).

Para tanto, Morena ingressou na Folkwang Hochschule (www.folkwang-hochschule.de) em Essen, escola que tinha coordenação artística de Pina Bausch e professores como Malou Airaudo, bailarina notável do Tanztheater Wuppertal. Nessa fase de novas experiências, Morena ainda teve oportunidade de trabalhar com nomes como Susanne Linke, Dominique Mercy, Anne Marie Benati, Chikako Kaido, Rodolfo Leoni, entre outros.

Agora, depois de dançar peças importantes do repertório do Tanztheater, como Sagração da Primavera, Morena pretende investir mais intensamente em seu próprio trabalho. Quer manter o trânsito entre Brasil e Europa e desenvolver parcerias com coreógrafos brasileiros. Essa nova fase reforça uma trajetória que no início incluiu uma passagem pelo grupo de dança Primeiro Ato, de Belo Horizonte, em 2001, logo após ter se graduado em dança pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A projeção como intérprete de criações de sua autoria não demorou muito. Em 2004 destacou-se em dois eventos de São Paulo, o Rumos Dança Itaú Cultural e a Bienal Sesc de Dança com 2 em super 8. Ano seguinte, o espetáculo Sexo, amor e outros acidentes rendeu-lhe o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Em entrevista ao Conectedance, Morena fala sobre sua carreira na Alemanha, sua convivência com Pina Bausch e seus novos planos. A entrevista aconteceu em São Paulo, em setembro de 2009, quando Morena esteve no Brasil para dançar a Sagração da Primavera com o Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, no teatro Alfa. Dois meses depois, a conversa foi complementada durante sua apresentação na Bienal Sesc de Dança em Santos.

Conectedance: Você saiu do Brasil em 2005, com uma carreira já bastante consolidada por aqui. Qual foi seu objetivo ao ir para a Alemanha?
Morena Nascimento: Eu tinha um objetivo bastante específico de dançar com a Pina Bausch. Foi difícil deixar o Brasil, estava tudo muito bem em São Paulo. Fui pelo sonho. Desde que vi Café Müller pela primeira vez, quando ainda na faculdade, algo mudou em mim. Achei que poderia contribuir com aquele universo com elementos que eu já tinha na minha dança. Eu quis me aproximar. Mas também foi muito difícil sair por questões pessoais e afetivas. É muito difícil ser estrangeiro, sentir saudades, ficar sozinha.

Conectedance: Podemos dizer que você sempre trabalhou com essa referência?
Morena: Sentia admiração e dentro de mim havia algo de Pina. Acho que foi importante esse tempo de fazer faculdade de dança no Brasil e me preparar para estar na Alemanha. Cheguei lá muito preparada, acredito que era preciso me preparar para estar lá e vejo que isso foi muito importante.

Conectedance: Como foi esse tempo na Alemanha? Como foi a chegada?
Morena: Foi um choque radical. Cheguei num inverno que na época foi o mais rigoroso dos últimos cinco anos. Fora essa adaptação climática que é a mais óbvia, teve a adaptação de estar sozinha, longe dos amigos, da família, do namorado. Muito difícil foi também me adaptar à escola. A Folkwang é uma escola onde o pensamento da dança é muito diferente daquele que eu estava desenvolvendo no Brasil. A escola trabalha com uma base que é balé clássico. Tem uma linha muito tradicional, onde dança moderna e dança contemporânea são praticamente a mesma coisa. É um lugar muito importante, cheio de história. Foi a escola onde Pina Bausch estudou. Mas a experiência de estar lá, em contato com gente do mundo inteiro foi bem interessante. Isso me abriu muito para as pessoas, para os contextos, para as formas de entendimento de dança. Essa foi a parte boa.

Conectedance: Como era a rotina na escola?
Morena: Tempo integral, fazia aula o dia inteiro. Para mim, que passei pela formação da Unicamp, foi difícil por ser uma escola que trabalha muito a técnica, o corpo. Tem pouco desenvolvimento de pensamento. Mas por um lado é bom, deixa a técnica afiada, fiz muita aula de balé, de flamenco. Fui chamada de indisciplinada na escola, achava que aquilo tudo era um pouco demais. Era uma das mais velhas na escola, os alunos são mais novos porque é equivalente a uma graduação no Brasil. Para mim foi um “tempo de provação” ficar lá. Aprendi muito, mas representou para mim uma adaptação cultural ao pensamento da dança na Alemanha, da Pina Bausch. Tive que passar por isso.

Conectedance: Nesse tempo que você passou na escola, antes de entrar para a companhia da Pina Bausch, você trabalhou com outros coreógrafos? Como foi essa experiência?
Morena: Participei de trabalhos com Rodolfo Leoni, Susanne Linke, Chikako Kaido e outros ainda. Foi muito bom poder trabalhar com gente de lugares e backgrounds diferentes e com a maneira como cada um se depara com essas diferenças. Foi muito rico. Para mim era um equilíbrio poder participar de outras propostas porque eu sempre pude oferecer com meu corpo diferentes maneiras de me expressar. Se eu ficasse só na escola, com essa referência forte da Pina o tempo inteiro, me sentiria limitada, quase como se a qualidade do meu movimento tivesse uma cor só. Com a Chikako Kaido, por exemplo, eu podia soltar o meu lado bicho, meu lado grotesco e estranho que sei que também tenho.

Conectedance: Você sentiu que tinha a diferença brasileira? Existe essa diferença?
Morena: Olha, existe sim uma diferença, mas ela está coberta de estereótipos e preconceitos. A idéia do “latino” como alguém que tem bom suingue mas nenhuma disciplina é muito comum lá. Acho que o fato de ter como base o balé muda tudo e aí não importa se é brasileiro ou não. O balé é uma dança muito quadrada, simples, pouco elaborada. O balé serve como um nível para dizer se pessoas podem ou não dançar nesse lugar que eu conheci da Alemanha. Isso é diferente para mim e acho que é diferente no Brasil, que tem influência de outras formas de preparar o corpo. Formas mais arredondadas, mais fluídas, mais flexíveis.

Conectedance: E por que, então, escolher fazer parte dessa dança?
Morena: Eu fiz uma escolha consciente de entrar nessa dança mais quadrada, sempre com o olhar crítico, tentando tirar conclusões do que eu estava aprendendo ali. Nunca estive lá com uma postura passiva. Sempre me pergunto o que posso colher disso. O mais importante foi ver o que eu não quero. Essa experiência toda me deixou mais seletiva.

Conectedance: Como foi a entrada na companhia? Como foi essa passagem e como foi seu primeiro contato com a Pina Bausch?
Morena: Meu contato foi por meio da montagem da Sagração da Primavera. Como é uma peça muito física os bailarinos mais velhos não dançam, então eles pegam alunos da escola. E a escola gira um pouco em torno disso, todo mundo que está lá parece querer entrar e participar. A primeira vez que Pina Bausch falou comigo ela disse: “isso é o máximo que você pode fazer?”. A exigência que ela tinha com as mulheres era muito grande. Era algo impessoal e distante, quase inacessível. Só me aproximei quando participei de uma criação, que foi inclusive a última que ela fez, sobre o Chile. Quando eu pude dar meu material para ela e senti que ela pode trabalhar comigo. Ela já sabia o que ela queria de cada pessoa, ela parecia já saber o que queria de mim. O solo Lady Marmalade, que apresentei em 2006 na Alemanha, foi a outra maneira que me abriu as portas na companhia. A Pina Bausch foi assistir, viu o solo, que inclusive compõe uma das cenas do Quase ela [trabalho apresentado na Bienal SESC de Dança 2009]. Ela gostou muito do solo, acho que minha entrada na companhia dependeu muito desse trabalho e eu discuto essa questão no Quase ela.

Conectedance: No trabalho que você apresentou em Santos, você fala desse solo Lady Marmelade, como uma transformação necessária para adaptar-se ao trabalho da Pina Bausch. Como foi isso?
Morena: Lady Marmelade discute questões de adaptação, não adaptação só do corpo, mas principalmente na cultura e no imaginário de alguém. Esse solo era a fantasia que tinha do que poderia ser “Pina” no meu corpo, a vontade de fazer parte daquele mundo e ao mesmo tempo uma pequena provocação para mim mesma, no sentido de que com esse solo eu me perguntava: até onde posso “manipular” intencionalmente minha dança ou incorporar elementos do universo “pinabauschiano” que eu julgava conhecer só pela minha fantasia? Foi intencionalmente criado para me adaptar e fazê-la ver que eu poderia fazer o que ela queria. Brinco com meus amigos que usei minha dança para me promover. Mas foi tudo intencional, honesto e consciente.

Conectedance: Como foi participar da nova criação de Pina? Como era a metodologia de trabalho que ela usava? O que fica desse trabalho para você?
Morena: Foi o melhor momento dentro da companhia. Eu me aproximei de mim mesma, pude dialogar com as pessoas e o mais importante: me reconheci como criadora. Eu me considero uma boa intérprete quando me oferecem coisas que eu posso me apropriar e não só repetir passos. Me senti mais dona daquilo tudo, mais livre. A experiência toda parece ter feito sentido. Mas, ao mesmo tempo, ela já sabia o que queria de mim. O que ela criava de verdade era essa grande composição porque todo o material vinha dos bailarinos. Depois de ter participado disso eu fico com a sensação de que eu gostaria de ter chegado antes desse momento, uns 20 anos atrás, quando ainda havia a busca por uma linguagem, quando era tudo mais fresco. Hoje tudo é muito estabelecido, muito seguro.

Conectedance: O que mudou e como foi estar tão perto no momento da morte da Pina Bausch?
Morena: Nossa relação ainda era algo fresco, começo de namoro, encantamento. Gosto de não ter tido que matar o “mito” dentro de mim. Antes de morrer, ela deixou para mim o papel de substituir a Jo Ann Endicott, que é uma das grandes figuras da companhia. A morte dela aconteceu junto com o fechamento de um ciclo. Foi e está sendo muito simbólica para mim. De alguma maneira, nesse momento me sinto mais forte para desenvolver meu próprio trabalho. Porque mesmo acreditando que não existem “mestres”, sempre que um grande mestre morre, chega a nossa hora e nossa vez de fazer nossa história, de caminhar com nossas próprias pernas. Antes de trabalhar com a Pina, meu trabalho já dialogava com ela. Tem outros trabalhos de dança e coreógrafos que eu admiro muito, mas não acho que meu trabalho dialoga. Eu sentia que podia contribuir com aquilo, sentia que tinha algo para trocar ali. A morte dela representa uma transformação no mundo da dança que deixa aberta a possibilidade para novos espaços, novos trabalhos, novos movimentos.

Conectedance: Como é a sensação de voltar para o Brasil para dançar com o Tanztheater Wuppertal Pina Bausch?
Morena: Acho que nunca fui tão feliz porque, para mim, poder trazer para as pessoas daqui, no lugar onde eu quero estar, o resultado desses anos que passei me dedicando a isso, longe, é muito importante. Dancei muito essa peça em outros lugares do mundo para pessoas que eu não conhecia. Para mim, dançar é comunicar, transmitir algo, é muito bom dançar para as pessoas que eu conheço. Eu danço para quem eu amo. Há um entendimento maior, uma troca humana acontece num nível mais intenso.

Conectedance:
 Quais são seus planos?
Morena: Aos poucos estou estabelecendo uma conexão diferente com a companhia, não quero mais estar ali todos os dias, cumprindo horário. Para mim, não funciona mais trabalhar em uma grande companhia, onde o sistema empresarial desfaz os laços artísticos entre as pessoas. Acho que ainda posso contribuir, mas a necessidade de dar continuidade ao meu próprio trabalho e as parcerias que quero tanto realizar com artistas brasileiros que eu admiro, tem crescido a cada dia. Juntando tudo isso com uma saudade quase insana de tudo que tem aqui no Brasil, não posso mais pensar em morar regularmente na Europa. A ideia é manter o trânsito entre Brasil e Alemanha. Agora vou dançar Masurca Fogo em Paris e ainda continuo na Sagração e na peça nova sobre o Chile [que será apresentada em janeiro de 2010 em Santiago]. Eu quero descobrir uma maneira de trabalhar num eixo internacional, realizando meu trabalho autoral por meio de parcerias com brasileiros. A apresentação e criação do solo Quase ela [na Bienal SESC de Dança 2009] foi o começo dessa volta. E é maravilhoso poder voltar. Senti uma conexão muito forte com as pessoas, com o público e isso me move, me dá um entusiasmo grande para continuar criando.