Dia a Dia

Ady Addor: o legado de uma mestra

Foto: Graziela Gilioli
Ady Addor em foto de 2018.

Ady Addor, grande mestra da dança brasileira, pioneira entre os bailarinos que fizeram sucesso fora do Brasil, morreu no último dia 2 de agosto, aos 82 anos. Com seu conhecimento exponencial sobre dança clássica, manteve-se aberta para adaptar seu vasto instrumental artístico às demandas dos bailarinos e autores contemporâneos. O legado de Ady pode ser melhor compreendido por meio de seu trajeto artístico, ressaltado em texto de Maria Claudia Alves Guimarães, e da maneira como transmitiu seus ensinamentos. Também são esclarecedores os depoimentos de quatro importantes artistas brasileiras – Iracity Cardoso, Mônica Mion, Lumena Macedo e Esmeralda Gazal – que conviveram com Ady em diferentes momentos.

 

Por Maria Claudia Alves Guimarães (*)

Na manhã fria e chuvosa do dia 2 de agosto, o dia parecia sentir a lacuna que a morte da grande bailarina e mestra de balé, Ady Addor, deixava para a dança brasileira. Vítima de um enfarte fulminante durante a madrugada, Ady Addor partiu subitamente, surprendendo a todos que conviveram com ela. Aos 82 anos, ainda era bastante ativa, dando aulas de balé para profissonais da dança. Apesar de ter tido uma carreira curta como bailarina, nos dez anos em que dançou, Ady Addor esteve à frente das principais companhias de nosso país nos anos 1950 e de importantes companhias internacionais. Ao longo dos 50 anos em que se dedicou ao ensino do balé, tornou-se uma das mestras mais respeitadas do país.

Nascida em 1º de dezembro de 1935, na cidade do Rio de Janeiro, Ady Addor revelou desde cedo seu talento, iniciando sua formação na Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com Yuco Lindberg e, depois, com Gertrude Wolff. Em 1949 ingressou no Ballet da Juventude e, em 1951, com apenas seis anos de estudo, já se formava, como bailarina profissional e professora de balé pela Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Ady Addor em 1957. Foto de Maurice Seymann, arquivo pessoal de Maria Claudia Alves Guimarães

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Com isso,  aos 16 anos, iniciou sua carreira profissional na companhia do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob a direção de Tatiana Leskowa,  tornando-se solista no ano seguinte.  Em 1953, com a criação do Balé do IV Centenário, Ady Addor transferiu-se para São Paulo, sendo aprovada nos testes para a companhia como solista, tornando-se, um ano depois, primeira bailarina da companhia, juntamente com Edith Pudelko, Lia Dell’Ara e Lia Marques. Sob a direção de Aurel von Millos, Ady Addor teve a oportunidade de dançar diversas obras coreográficas, como, por exemplo, A Ilha Eterna, Deliciae Populi, Fantasia Brasileira, Indiscrições, No Vale da Inocência, Bolero, Passacaglia e As Quatro Estações, amadurecendo artisticamente  durante estes dois anos. Após a dissolução do Balé do IV Centenário, no final de 1955, Ady Addor voltou ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, assumindo o cargo de primeira bailarina, tendo a oportunidade de trabalhar com coreógrafos internacionais como Leonide Massine e Igor Schwezoff.

Em 1957 decidiu viajar para Nova York, para estudar com Igor Schwezoff, sendo logo contratada para dançar como solista no American Ballet Theatre, sob a direção de Lucia Chase. Durante um ano, Ady Addor dançou diversas obras de importantes coreógrafos como, por exemplo, Agnes de Mille, Antony Tudor, Frederick Ashton, Jerome Robbins e Balanchine, excursionando com a companhia pelos Estados Unidos, Canadá, Europa e África. Em meio a uma carreira de sucesso, meses depois de seu casamento, com o arquiteto Ubirajara Gilioli, Ady Addor decidiu deixar o American Ballet Theatre, mudando-se para Caracas, na Venezuela, onde ainda chegou a dançar como convidada especial no Ballet Nacional da Venezuela. Em 1959 foi contratada como primeira bailarina pelo Ballet Nacional de Cuba, com direção de Fernando Alonso, apresentando-se juntamente com Alicia Alonso pela América do Sul. Em 1960, foi convidada a participar das comemorações dos 20 anos do American Ballet Theatre, apresentando-se nos Estados Unidos, na Europa e na União Soviética. Contudo, em 1961, Ady Addor, como muitas colegas de sua geração,  encerrava sua carreira como bailarina para se dedicar à maternidade, voltando a residir no Brasil.

Porém, oito anos depois,  Ady Addor começou a dedicar-se ao ensino do balé, tornando-se imediatamente uma grande mestre,  transmitindo aos seus alunos, o que aprendera durante os dez anos de sua brilhante carreira. Durante os 50 anos em que atuou como professora, fundou a emblemática Escola  Balleteatro (1972-1978), com as sócias Marisa Magalhães e Yara von Lindenau, que também foram suas colegas no Balé do IV Centenário, com a proposta de promover um ensino de arte às crianças, oferecendo não apenas aulas de dança, mas também aulas de teatro e artes visuais. Em seguida abriu o Studio Addor (1978-2005), em sua casa, onde deu aulas particulares por quase 30 anos, e, que , durante os anos de 1989 a 1993 funcionou como sede da Companhia Ady Addor, a qual também dirigiu por quatro anos. Além disso, foi professora da Escola Municipal de Bailados (tendo também sido diretora desta escola, em 1980), do Balé Lina Penteado, do Ballet Renée Gumiel, do Balé Ismael Guiser, do Teatro Galpão, da Steps Academia de Dança, entre tantos outros espaços e academias, ministrando aulas por todo o país, participando de festivais de dança etc. Foi professora do elenco do Balé da Cidade de São Paulo por diversos anos, e também ministrou aulas em diversas companhias profissionais como a Cisne Negro Cia de Dança, São Paulo Companhia de Dança, Theatro Municipal do Rio de Janeiro, entre outras. Sempre muito exigente tecnicamente, mas também muito expressiva e cheia de paixão, levando seus alunos a se inspirarem com seus ports-de-bras e com o seu olhar perdido,  Ady Addor teve sem dúvida, um papel importante na formação de muitos profissionais da dança, que atuaram ou que ainda atuam artisticamente na cena brasileira e internacional, assim como, fora dos palcos, repassando à nova geração os seus ensinamentos.

 

(*) Maria Claudia Alves Guimarães é professora e pesquisadora na área de dança. Dedica-se, sobretudo, à área de história da dança no Brasil. Bacharel em artes cênicas pela Universidade de São Paulo (1989), mestre em artes corporais pela Universidade Estadual de Campinas (1998) e doutora em artes cênicas pela Universidade de São Paulo (2003). Desde novembro de 2016 é professora MS3 do Departamento de Artes Corporais da UNICAMP. Foi professora do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística/CAC/UFPE, onde foi coordenadora do curso de licenciatura em dança de 2012 a 2014 e chefe do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística de 2014 a 2016. Trabalhou como pesquisadora no programa Rumos Dança do Itaú Cultural de 2000 a 2010. Atuou na área de dança e de teatro como bailarina e atriz.

 

Depoimentos sobre Ady Addor: 

Iracity Cardoso (bailarina, ex-diretora artística do Balé da Cidade de São Paulo, do Ballet du Grand Théâtre de Genève, do Ballet Gulbenkian de Portugal, da São Paulo Companhia de Dança): “É uma personalidade internacional extremamente importante para a dança, especialmente a paulistana. Foi uma das primeiras artistas brasileiras a fazer uma carreira como a dela. Formou muita gente, tinha uma cabeça muita aberta, sempre foi muito ativa”, afirma Iracity, que ressalta a técnica clássica aprimoradíssima que Ady Addor dominava e, ao mesmo tempo, sua capacidade, como mestra, de entender as necessidades dos bailarinos contemporâneos. Iracity lembra que Ady deu aulas para o Balé da Cidade de São Paulo durante muitos anos (1977 a 1998). “Por saber acompanhar a evolução da dança e dos bailarinos, ela adaptou-se às novas demandas desta arte. Entendia profundamente as necessidades técnicas de uma companhia com repertório muito vasto, coreografias de diferentes autores e linguagens e bailarinos que não dançavam só obras clássicas. Ady sempre foi muito admirada e muito querida”.

Foto: Graziela Gilioli

Ady Addor em foto de 2018.

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Lumena Macedo (bailarina, ex-integrante do Balé da Cidade de São Paulo): “Para muitos que não a conheceram, Ady Addor pode melhor ser descrita como uma estrela! Foi a primeira bailarina brasileira a dançar no American Ballet Theatre e a alcançar o posto de Primeira Bailarina. Foi uma pioneira. Suas aulas eram muito especiais pois Ady não ensinava somente técnica clássica. Ela ensinava a arte da dança. Era extremamente expressiva, ia muito além de passos e variações, dilatava o tempo de maneira larga e generosa e ensinava a perceber e sentir cada momento. Conheci Ady com 15 anos de idade e fui estudar com ela no Balleteatro, sua escola na época. Quantos artistas que mais tarde vieram a figurar na cena de dança da cidade não passaram por lá? Quando infelizmente ela fechou a escola, me aconselhou a procurar dona Halina Biernacka, outra mestra pioneira da dança clássica de nosso país. Dizia que eu precisava dançar, ir para o palco. Tenho uma gratidão imensa pela mestra e devo a ela o início de minha carreira. Ady preparava suas alunas de uma maneira rara hoje em dia, de um modo que os passos eram apenas um pretexto para a dança, onde a arte estava na expressividade e comunicação com o público. Seguiu sempre orientando e apoiando seus pupilos. Hoje em dia a importância da dança clássica permanece, dentro de um certo universo estético. Ela proporciona uma base estrutural e física bastante complexa e sofisticada, para que bailarinos contemporâneos possam, através de seu domínio, desconstruí-la e ousar em articulação com diversas técnicas e orientações artísticas”, afirma Lumena, ainda destacando a importância da aulas clássicas ministradas com a consciência das demandas contemporâneas da dança, assim como fez Ady Addor, brilhantemente.

 

Mônica Mion (bailarina, ex-diretora artística do Balé da Cidade de São Paulo): “Em uma época em que não era comum bailarinos brasileiros saírem do país, quando nem havia tantos bailarinos no Brasil, Ady Addor foi convidada para fazer parte do American Ballet Theatre, como solista! A partir de então, passou a ser o paradigma de todos. Na verdade já o era, antes, para sua colegas do Ballet do IV Centenário ou do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Como disse Márika Gidali: todas nós queríamos ser como Ady Addor, éramos fãs dela, admiradoras! E a lenda foi sendo passada para as gerações seguintes!

Em sua permanência na companhia americana, adquiriu uma experiência, um requinte, que poucos, aqui, possuíam. Ao tornar-se professora, continuava com suas linhas privilegiadas e técnica apurada, inspirando seus alunos a se superarem. Fazia analogias curiosas como explicar ‘arabesques’ e ‘atitudes’ como se fossem desenhos de geometria espacial: o ‘arabesque’ está em dois eixos, horizontal e vertical; por sua vez, um ‘atitude’ é espiral. Desenhem-se no espaço, dizia ela. Pirueta é fácil, pensem num ‘relevé’ com ‘vuelta’, dizia, parodiando uma antiga professora.

Formou várias gerações de bailarinos pelo Brasil afora, teve uma escola, dava aulas numa sala na garagem de sua casa, remontou clássicos com rigor, participou de festivais como jurada, tudo com dedicação e entusiasmo. Trouxe novos ares aos baixos do Viaduto do Chá, quando lá dirigiu a então Escola Municipal de Bailados. Casou-se, teve três filhas que adorava.

Nos muitos anos em que foi mestra do Balé da Cidade de São Paulo, assistia aos ensaios e organizava suas aulas com exercícios que auxiliassem os bailarinos na execução das variadas coreografias do repertório eclético da companhia que, naquela época, já não era clássica. Com sua elegância natural foi, sem ranços, com a cabeça aberta, referência da dança clássica para uma companhia com pensamento moderno.

Além de ter usufruído de seus valiosos ensinamentos como aluna, penso que, com o passar do tempo, nos tornamos também amigas. A tênue barreira professora-aluna foi se desfazendo, as idades se aproximando. Um privilégio em todos os sentidos. Me deliciei com as estórias, vivi um pouco de sua vida.

Mesmo depois de tantos bailarinos brasileiros fazerem sucesso no exterior, o mito Ady Addor no American Ballet Theatre continua vivo. Sem contar que Ady também dançou na companhia de Alicia Alonso, o consagrado Ballet Nacional de Cuba. Ady foi um fenômeno!”.

 

Foto: Graziela Gilioli

Ady Addor em foto de 2018.

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  Esmeralda Gazal (bailarina, pedagoga, ex-bailarina do Balé da Cidade de São Paulo, ex-diretora da Escola Municipal de Bailado): “Falar de Ady é ressaltar características subjetivas desta conceituada artista da dança, referentes à sua forte personalidade e à maneira segura e objetiva como conduzia seu trabalho. Nosso contato maior foi no Balé da Cidade de Paulo, Ady maître de dança e eu bailarina. Suas aulas traziam a exigência de uma artista experiente, com sequências construídas para desafiar nossos corpos nos giros e saltos, embasadas em orientações precisas mas sutis, próprias de quem conhecia a fundo as minúcias de um movimento dançante. Sua voz era firme, a fala sem atalhos e envolta em sinceridade. Suas atitudes, seu timbre de voz, seu olhar, despertavam a atenção de quem esteva próximo, muito perto ou apenas a via em fotos ou nos palcos e espaços de dança. Admiração e respeito são os adjetivos que encontro para me referir e reverenciar esta artista. Ela se foi e nós ficamos – e caminhamos, ou melhor, dançamos…”.