Dia a Dia

Dança como aproximação e entendimento entre os seres humano

Foto: Laurent Philippe
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Por Ana Francisca Ponzio

Foto: DivulgaçãFoto: Divulgação

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  Em 2013, o bailarino e coreógrafo africano Salia Sanou trabalhou em um campo de refugiados no Burundi, a convite da fundação African Artists for Development (AAD). A mesma experiência realizada neste país, um dos mais pobres da África, ele voltou a vivenciar em 2014 em sua terra natal, Burkina Faso, em Sag-Nioniogo – um dos três campos que recebeu mais de 35 mil refugiados do Mali, onde a guerra entre povos tuaregues e grupos islâmicos perdura desde 2012.

Quando voltou para a França, onde vive desde 1993, Salia Sanou decidiu criar Do Desejo de Horizontes (Du désir d’horizons), que inaugura a décima edição da Bienal Sesc de Dança, nos dias 14 e 15 de setembro. Após a estreia no Galpão Sesc de Campinas, o espetáculo será apresentado em São Paulo, nos dias 19 e 20 de setembro, no Sesc Vila Mariana.

Em sua décima edição, a Bienal Sesc de Dança 2017 se realiza de 14 a 24 de setembro em Campinas. Do Desejo de Horizontes é um dos 30 espetáculos da intensa programação, que também inclui performances, instalações, mostra de cinema, ações formativas e encontros artísticos.

Destaque da programação internacional da Bienal, Salia Sanou nasceu em 1969 na cidade de Léguéma, em Burkina Faso. Acreditando que a criação artística é um instrumento de tolerância e de eliminação de fronteiras, Salia Sanou vê a África como parte integral de um mundo aberto para a arte contemporânea. Para trabalhar em dimensão universal, prefere não categorizar sua linguagem de dança. “Deixo as definições sobre minha dança para os críticos e espectadores”, disse em entrevista ao Conectedance.

A formação artística de Salia Sanou começou a ser construída na capital de seu país, Ouagadougou, onde frequentou cursos de teatro e de danças rituais da etnia Bobo. Sua formação em dança africana se deu com mestras como Drissa Sanon, Alasane Congo, Irène Tassembedo e Germaine Acogny.

Em 1993, aos 24 anos, conheceu a coreógrafa francesa Mathilde Monnier, que em visita a Burkina Faso o convidou para integrar sua companhia, então sediada no Centre Chorégraphique National de Montpellier, na França – onde Salia Sanou se radicou e se firmou como intérprete e criador da dança contemporânea internacional.

Foto: Laurent PhilippeFoto: Laurent Philippe

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  Na cidade francesa de Montpellier, Salia Sanou fundou em 2011 a sua companhia de dança, Mouvements Perpétuels (Movimentos Perpétuos). Segundo o coreógrafo, este grupo reafirma sua fé na cultura como elemento de aproximação e entendimento entre os seres humanos.

Hoje ele vive entre Europa e África, onde fundou em 2006, junto com Seydou Boro (bailarino e coreógrafo que, como ele, nasceu em Burkina Faso e trabalhou com Mathilde Monnier), o Centro de Desenvolvimento Coreográfico La Termitière, sediado em Ouagadougou.

Na entrevista ao Conectedance, ele fala sobre sua carreira e sobre Do Desejo de Horizontes, cujo elenco reúne seis dançarinos, um contador de histórias e dois jovens refugiados. Neste espetáculo, o tema do exílio é explorado sob a perspectiva individual e universal. A partir dos estados corporais de cada intérprete – como expectativa, tensão, lentidão, energia, vitalidade – Salia Sanou procurou explorar as memórias individuais e coletivas das tragédias contemporâneas.

 

Foto: Laurent PhilippeFoto: Laurent Philippe

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   Conectedance – Como surgiu e como foi construído o espetáculo Do Desejo de Horizontes (Du désir d’horizons) ?

Salia SanouDo Desejo de Horizontes (Du désir d’horizons) se inspira fortemente nas oficinas artísticas que realizei em campos de refugiados do Burundi e de Burkina Faso, a partir de uma solicitação da fundação African Artists for Development.

Fiquei extremamente sensibilizado por estas experiências, que me permitiram descobrir a vida nos campos de refugiados e as condições deploráveis das pessoas em situação de exílio.

Quando voltei para a França, se impôs a necessidade de deixar um traço de meu trabalho, não como um testemunho documental e sim como um registro que permitesse ao público apreender os aspectos humano, sensível, conjugados à possibilidade de abrir horizontes diante do trágico e do desumano. Trabalhamos com o grupo de intérpretes e as intervenções artísticas – cenografia, iluminação, música – de uma forma articulada sobre o tema do exílio, mas igualmente e sobretudo sobre o tema da esperança.

Conectedance – Como é abordado o tema do exílio ?

Salia Sanou – Do Desejo de Horizontes trata o tema do exílio como fundamento do desejo de sensibilizar o público, mas sobretudo como abertura de possibilidades a partir de um espaço sensível e poético.

Conectedance – Como a música, a cenografia e a iluminação se integram ao espetáculo ?

Salia Sanou – A música criada para o espetáculo por Amine Bouhafa, o dispositivo cenográfico concebido por Mathieu Lorry Dupuy, assim como a criação da iluminação por Marie-Christine Soma foram construídos em torno de um vocabulário coreográfico, aliado aos estados corporais em relação ao que eu havia observado durante as oficinas. Utilizei trechos do texto de Nancy Huston –  Limbes, Limbo, un Hommage à Samuel Beckett, publicado pela editora Actes Sud – como uma partitura, não para salientar uma narração mas para enriquecer o sentido da proposta.

Foto: Laurent PhilippeFoto: Laurent Philippe

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   Conectedance – Quando e onde Do Desejo de Horizontes estreou ?

Salia Sanou – Criamos o espetáculo em junho de 2016 para o Théâtre National de Chaillot de Paris. Posteriormente estreou no festival Montpellier Danse. É importante assinalar que houve uma estreia da residência de criação em Burkina Faso, com o grupo de dançarinos. 

Conectedance – Como você estabeleceu sua relação com os refugiados nas oficinas de dança ?

Salia Sanou – As oficinas de dança exigiram uma presença e um engajamento que tornaram possível uma relação com os refugiados. A aproximação entre nós foi discreta e progressiva para que se construísse um espaço de confiança. Estive acompanhado de uma equipe de bailarinos e músicos envolvidos tanto quanto eu no desenvolvimento artístico do trabalho. Posso dizer que primeiro foram as crianças e os adolescentes que descobriram progressivamente a dança. Depois, pouco a pouco, as famílias se interessaram pelo projeto, que lhes permitiu aderir aos movimentos e desenvolvê-los. A temporalidade teve um papel importante porque nós permanecemos pelo menos dois meses convivendo num mesmo local.

Conectedance – Como você trabalhou com os contrastes culturais do elenco?

Salia Sanou – Realizar uma oficina de dança em um campo de refugiados exige um investimento pessoal de cada um. É a partir da observação precisa dos estados corporais das pessoas do campo e das reminiscências que ficaram inscritas em mim que pude coordenar um elenco de dançarinos representativos de minhas memórias. Para mim, o tema central do espetáculo é universal. Cada intérprete alcançou o sentido global e igualmente alimentou o imaginário de cada um a partir da troca, da reflexão sobre a questão do exílio e suas ressonâncias em cada um de nós.

Conectedance – Você considera a dança um instrumento de transformação social e política ? Como você vê as raízes culturais no mundo atual ?

Salia Sanou – A arte, em geral, participa da compreensão do mundo e a dança ocupa um lugar importante neste contexto. Por meio da qualidade dos espetáculos ao vivo, a dança permite enxergar os estados dos corpos individuais e coletivos que tornam legíveis os principais fenômenos sociais. Portanto, sou muito atento à dimensão artística, às projeções imaginárias, à poética que desenvolvo em cada uma de minhas criações.

Quanto às raízes culturais, eu tenho o privilégio de viver entre duas margens, a África e a Europa. Esta situação me permite compreender que a existência humana é impactada, de uma maneira ou de outra, pelos fatos que atravessam a sociedade neste século. O exílio é um exemplo entre tantos outros.

Conectedance – Como você descobriu a dança contemporânea ?

Salia Sanou – Depois de uma formação tradicional na África, eu descobri a dança contemporânea com a coreógrafa francesa Mathilde Monnier, quando ela esteve em Burkina Faso para a criação do espetáculo Pour Antigone. Na França, eu me tornei intérprete de uma dezena de criações de Mathilde no Centro Coreográfico de Montpellier. Foi assim que também descobri a Europa.

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   Conectedance – Em 2006 você criou o Centro de Desenvolvimento Coreográfico da África La Termitière. Qual o papel deste espaço de dança na África ?

Salia Sanou – Sou muito ligado à dimensão de transmissão e formação para as gerações futuras. Por isso, eu e Seydou Boro, ator, bailarino e coreógrafo de Burkina Faso e igualmente intérprete de Mathilde Monnier, idealizamos a criação do CDC (Centre de Développement Chorégraphique) La Termitière à Ouagadougou. É um lugar único na África, que acolhe ao mesmo tempo a formação profissionalizante e as companhias em residência de criação. A este projeto se soma a manifestação Dialogue de Corps (Diálogo de Corpos), que permite convidar espetáculos do mundo inteiro e favorecer os encontros e os intercâmbios.

Conectedance – O que significa ser um bailarino africano no mundo atual ?

Salia Sanou – Para mim não há bailarino africano, assim como não há coreógrafo africano. É urgente e importante descolonizar os olhares e considerar todos os criadores sem determinar origens de qualquer ordem. Esta constatação não apaga em nada a dimensão da identidade cultural.

Conectedance – O que foi fundamental para o desenvolvimento de sua carreira ?

Salia Sanou – Não ter uma alma carreirista (risos). Minha trajetória coreográfica se construiu por acaso, por meio dos encontros com artistas de todas as áreas. Preservo uma forma de fidelidade que permitiu, junto com minha companhia de dança, Mouvements Perpétuels, criar cumplicidades artísticas que se consolidam a cada espetáculo.

Conectedance – Como você constrói sua linguagem de dança ?

Salia Sanou – Cada criação é apoiada em um longo trabalho de pesquisa, para alimentar seus significados. Evidentemente, meu vocabulário coreográfico ilustra o tema definido e um trabalho de base é muito importante para a escritura da coreografia.

Conectedance – Como surgiu sua companhia de dança, Mouvements Perpétuels (Movimentos Perpétuos) ? O que este nome significa para você e como ela vem atuando ?

Salia Sanou – A companhia foi implantada na França, na cidade de Montpellier. Ela desenvolve projetos de produção e turnês internacionais. Está em perpétuo movimento e espero que isto perdure sempre… (risos).

 

Serviço:

Do Desejo de Horizontes, de Salia Sanou, com a companhia Mouvements Perpétuels

Bienal Sesc de Dança 2017

Dias 14 e 15 de setembro/2017, quinta-feira às 20h, sexta-feira às 21h30.

Galpão Sesc: Rua Dom José I, 270/333 – Bonfim, Campinas (SP), tel. (19) 3737-1500.

Ingressos: R$ 30; R$ 15; R$ 9

Duração: 65 minutos. Classificação etária: 12 anos.

Programação da Bienal Sesc de Dança 2017: http://bienaldedanca.sescsp.org.br/2017/programacao

 

Sesc Vila Mariana – Teatro:

Dias 19 e 20 de setembro/2017. Terça e quarta-feira às 21h.

Capacidade: 620 lugares.

Ingressos: R$ 30; R$ 15; R$ 9.

No dia 20/9/17, quarta-feira, às 18h, na Praça de Eventos do Sesc Vila Mariana, o coreógrafo Salia Sanou ministrará uma aula-espetáculo gratuita, que apresentará alguns ritmos africanos. Não há necessidade de inscrição.

www.sescsp.org.br