Dia a Dia

Dança como prática de esgotamento
Bienal Sesc de Dança 2017 

Foto: Andrea Macchia
Foto: Andrea Macchia

* Por Jussara Xavier

 

“Ama e faz o que quiseres”, disse Santo Agostinho.

FOLK-S – Will you still love me tomorrow? é o título bem-humorado do espetáculo assinado pelo italiano Alessandro Sciarroni, artista cujas pesquisas mesclam diferentes disciplinas – artes visuais, teatro, danças, circo e esporte; nada preocupado em enquadrar o próprio trabalho criativo em um único gênero. O trabalho compõe a programação da Bienal Sesc de Dança, com duas apresentações no Teatro Castro Mendes, em Campinas (SP).

Foto: Andrea MacchiaFoto: Andrea Macchia

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   FOLK-S estreou em 2012, inaugurando a trilogia Will You Still Love Me Tomorrow, composta também por Untitled I Will Be There When You Die (2013) e Aurora (2015). O conjunto das obras formam uma “trilogia da prática” e refletem os conceitos de esforço, resistência e concentração.

Folk. Substantivo em inglês que designa povo, pessoal, gente. Ligado a dança e a música, remete a tradição, cultura popular e folclore. FOLK-S firma-se na prática de um estilo tradicional de dança – o schuhplattler, popular nas regiões alpinas da Baviera e do Tirol (sul da Alemanha, Áustria e regiões de língua alemã do norte da Itália). Trata-se de uma dança centrada no pisar, aplaudir e golpear as solas dos sapatos (em alemão schuhe), as coxas e os joelhos com as mãos em posição plana (em sueco platt).

O trabalho de Sciarroni é rigoroso e obsessivo. A repetição exaustiva (cerca de 110 minutos) de uma única partitura de dança e rítmica, testa simultaneamente os limites da resistência física dos artistas e da plateia. O espetáculo é um desafio, um convite a participar de uma experiência extrema que, embora fundada em uma dança tradicional, prescinde de atributos como originalidade e exotismo, qualidades amarradas aos diferentes pensamentos acerca das culturas populares de raízes étnicas. De fato, a obra escancara o contraste entre um modo de tradição conservadora e a demolição das categorias frequentemente operada pela arte contemporânea.

O conceito imposto no espetáculo é o de regra. Há uma partitura física clara e predeterminada. Há um preceito ditado por um dos intérpretes no início da peça: “vamos dançar até que o último de nós desista ou até que a plateia se esvazie completamente”. O trabalho desenvolve-se numa espécie de ritual-jogo. Em alguns momentos, músicas pós-pop misturam-se ao som percussivo dos movimentos corporais, promovendo uma espécie de festa-padecimento. A obra dá a ver a infinitude de variações no espaço que uma única e breve sequência de passos de dança pode assumir, alcançando apenas o limite da exaustão. A preparação física e o fôlego dos intérpretes é admirável. Como público, flagrei-me torcendo pelos intérpretes, apostando em qual seria o próximo a desistir e sair de cena. A plateia insistiu, pouquíssimos deixaram a sala. Ao contrário, restaram firmes até o fim, aplaudindo os artistas com entusiasmo e de pé. No hall de saída, alguns ainda arriscavam reproduzir a dança fartamente experienciada. 

Uma dança que não renuncia as próprias perguntas. Uma maneira de ser cuja condição primordial é a de insistir de modo obstinado. Uma prática de resistência. A dança contemporânea é este terreno da tentativa insistente, da busca teimosa por algo que não se sabe, do cruzamento de possibilidades, da tessitura de relações para emergência de outras formas e sentidos, em um campo de embates e encontros. Em FOLK-S a ficção emerge num espaço paradoxal entre o banal e o espetacular, proporcionado uma vivência da continuidade no limite do esgotamento. O exercício de percepção se instaura por meio do abandono a um jogo comprometido e extraordinário entre obra e espectador.

Todo aquele que ama é capaz de combate e sacrifício. A manutenção do mesmo (não idêntico) é exigente e cansativa. I’ll still love you tomorrow. Seria FOLK-S um laborioso caso de amor?

 

* Jussara Xavier é crítica de dança.

 

Serviço: 

Bienal Sesc de Dança 2017 – 14 a 24 de setembro de 2017 em Campinas (Programação completa em: http://bienaldedanca.sescsp.org.br/2017/). 

Folks-S, de Alessandro Sciarroni: dias 19 e 20 de setembro/2017, terça e quarta-feira, 20h30.

Teatro Castro Mendes, Campinas (SP). 90 minutos. Classificação etária: 14 anos. R$ 30, R$ 15 e R$ 9.