Dia a Dia

Dispositivo de radicalidade
Bienal Sesc de Dança 2017

Foto: Cristiano Prim
Foto: Cristiano Prim
Cena do espetáculo Protocolo Elefante, do Grupo Cena 11.

Por Jussara Xavier*

A presença e abrangência de atuação do Sesc (Serviço Social do Comércio) no campo de fomento, formação e disseminação da arte e cultura no Brasil é única. Neste contexto, destaca-se o pioneiro Sesc de São Paulo, com direção de Danilo Santos de Miranda, gestor reconhecido por conduzir a instituição com grande competência, clareza e consistência; sempre convicto de que arte e cultura são aspectos centrais na vida de uma população. A Bienal Sesc de Dança é um projeto do Sesc São Paulo iniciado em 1998 e realizado em Santos até 2013. Em 2015 migrou para Campinas, que passou a sediar o evento que, em 2017, chega à sua décima edição, com disposição em desenhar perspectivas concretas para o desenvolvimento da dança no Brasil.

Foto: Sammi LandweerFoto: Sammi Landweer

Cena de Para que o céu não caia, de Lia Rodrigues.

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  O programa da Bienal é composto numa mistura entre artistas convidados e selecionados por meio de uma convocatória em nível internacional. Neste ano foram recebidas 799 inscrições do Brasil e do mundo. Realizada entre 14 e 24 de setembro, programou cerca de 70 ações distribuídas entre diferentes espaços como Sesc Campinas, CIS Guanabara, Museu da Imagem e do Som, Teatro Castro Mendes, Estação Cultura, além de áreas públicas: terminal rodoviário, praças e ruas da cidade. Em dez dias, o encontro reuniu atrações internacionais provenientes do Uruguai, Itália, Japão, Bélgica, Burquina Faso, Argentina e Chile, além de coproduções entre Brasil e os países Portugal, Argentina, Alemanha, França e Uruguai. A representação nacional ficou por conta de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Bahia e Piauí. No total, foram 30 espetáculos (13 estreias), quatro performances, quatro instalações, dois filmes exibidos, quatro mesas de debates, uma residência para criação, seis oficinas, cinco livros lançados, seis ações que combinaram jam session, show, festa, performance e batalha de break dance. Merece nota o esforço do Sesc em reunir curadores, programadores e jornalistas especializados na cobertura de assuntos culturais de diferentes partes do país, facilitando o acesso às obras, encontros e discussões. Com esse conjunto de ações, a Bienal mobiliza diferentes atores à troca e, consequentemente, colabora para fortalecer o frágil mercado brasileiro de dança. A realização de um evento deste porte, dedicado exclusivamente à dança profissional, é um feito extraordinário.

Foto: Gil GrossiFoto: Gil Grossi

Cena de O Samba do Crioulo Doido, de Luiz de Abreu.

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  A equipe de curadoria é formada pelos programadores do Sesc Claudia Garcia e Fabrício Floro, e os artistas convidados para a décima edição – Cláudia Müller e Wagner Schwartz, ou seja, não há um time permanente de curadores. Curiosamente, a equipe não assina o texto de apresentação do evento no guia bilíngue de programação que é fartamente distribuído ao público. A Bienal funciona como um dispositivo firmado na exibição e discussão da dança contemporânea, não tanto preocupado com a distinção clara de critérios fundadores das escolhas curatoriais. Sobressai a presença reincidente de um quadro de artistas brasileiros nas duas últimas edições para compor o programa e a preferência por um modo de dança radical em suas pesquisas e composições. O que se apresenta na Bienal não é exatamente a diversidade da dança contemporânea brasileira, mas uma produção de caráter provocador e transgressor, a qual finda por delinear um perfil nas recentes edições viabilizadas em Campinas. Em 2017, destacam-se obras relacionadas a questões identitárias, conectadas às tenras discussões de sobrevivência, gênero, raça, violência, política e ética, que comovem, principalmente, o cenário brasileiro. A dança ganha tom de protesto.   

Chama atenção uma tendência ao minimalismo, presente em muitos espetáculos. São pesquisas calcadas na escolha e exploração de um ou poucos movimentos, ações e sequências de gestos. Deslizar, caminhar, rolar, batucar, saltar, girar, dançar freneticamente. Praticar. Insistir. Esgotar. “Repetir repetir – até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo”, disse o poeta Manoel de Barros. Mas como refazer inventando? Como criar entre excessos e insuficiências? Como rechear o agora, de modo a injetar ânimo naquele que faz e naquele que vê fazer? Como escapar da domesticação de experiências? Como exaurir revelando potência? Como recorrer produzindo diferenças? Se não há fórmulas nem respostas, resta o testemunho de corpos: públicos aborrecidos, públicos arrebatados, públicos desconfiados, públicos estimulados, públicos…

Foto: Teijiro KamiyamaFoto: Teijiro Kamiyama

Takao Kawaguchi em Sobre Kazuo Ohno

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  As atividades formativas incluem debates cujos temas sabiamente se articulam aos pensamentos e práticas contidos nas instalações, performances e espetáculos apresentados; a exemplo da conexão entre a mesa intitulada Memórias da Dança: Sobre Legado, Transmissão e Continuidades e obras como Sobre Kazuo Ohno, em que o artista japonês Takao Kawaguchi reproduz em cena peças do mestre do butô Kazuo Ohno (1906-2010); O Samba do Crioulo Doido, criado e performado por Luiz de Abreu em 2004, recriado após 13 anos para a 10ª Bienal com o intérprete Pedro Ivo dos Santos; e ainda, a proposição Biblioteca de Dança de Neto Machado e Jorge Alencar, em que corpos se tornam volumes de uma enciclopédia encarnada de dança. Este potente cruzamento entre cena e discurso amplia o acesso à informação e favorece novos desdobramentos de saberes e fazeres artísticos. 

Foto: Charlotte SampermansFoto: Charlotte Sampermans

Cena de Alex no país do lixão, de Maria Clara Villa-Lobos.

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  O desafio de aumentar e diversificar o público alia-se a estratégias como o uso de uma diversidade de espaços – palco italiano, arena, rua, praça, galpão, biblioteca, ambientes fechados e ao ar livre em diferentes bairros da cidade; oferta de ações gratuitas ou a preços populares; oferta de programa e informações bilíngues (português-inglês); investimento pesado em comunicação, com uma intensa divulgação em diferentes mídias. Entretanto, a programação exclusiva ao público infantil é inexpressiva. Dos 30 espetáculos programados, apenas um voltado às crianças – Alex no País do Lixão, criação de Maria Clara Villa-Lobos, brasileira radicada na Bélgica. Sendo que há produção significativa de dança contemporânea para os pequenos no Brasil, cabe pensar num programa maior. Também houve o lançamento de um livro infantil – Astroneto: Dança no Espaço; publicação que ganharia maior visibilidade e alcance junto ao público-alvo caso o lançamento fosse programado em proximidade de tempo e espaço ao espetáculo citado.

Foto: Laurent PhilippeFoto: Laurent Philippe

Cena de Do Desejo de Horizontes, de Salia Sanou.

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  Do Desejo de Horizontes foi a obra escolhida para a abertura da Bienal, uma criação proveniente de Burquina Faso. Ao preferir uma produção africana para o dia festivo mais importante em um evento desse porte, estaríamos ainda a valorizar o que é estrangeiro em detrimento do nacional? Seria uma atitude colonial em tempos de globalização? Alguns sugeriram que sim, todavia, Do Desejo de Horizontes trata da ânsia de lutar e resistir, um comportamento muito afeito aos artistas brasileiros de hoje e sempre. Também vale reconhecer o esforço da curadoria em inserir criações de países a que temos pouquíssimo acesso, a exemplo da própria Burquina Faso, além do Japão, da Itália, do Chile… Encerrando a Bienal, Grupo Cena 11 Cia. de Dança e Lia Rodrigues Companhia de Danças, referências da dança contemporânea brasileira no exterior, com trajetórias que perfazem mais de 20 anos. Dois espetáculos que questionam passado, presente e futuro, e investigam uma potência para sustentar o (quase) impossível. Pelo direito de dançar e de viver. De Burquina Faso ao Brasil, seguimos todos em luta.

 

*Jussara Xavier é crítica de dança.