Dia a Dia

Entre as culturas e os pensamentos

Foto: Laurent Friquet
Foto: Laurent Friquet

Por Néri Pedroso*   

Do teatro, Volmir Cordeiro, nascido em Concórdia (SC) em 1987, foi levado para a dança. Obteve, em 2013, o título de mestre em dança, criação e performance pelo Centre National de Danse Contemporaine d’Angers – Direção Emmanuelle Huynh, em parceria com o departamento de dança da Université Paris VIII, onde ele começou uma tese sobre representações de gestos marginais na dança contemporânea. Intérprete e coreógrafo, ele atuou com os artistas Alejandro Ahmed, Cristina Moura, Lia Rodrigues, Xavier Le Roy, Emmanuelle Huynh, Laurent Pichaud, Manuel Vallade.

Foto: Laurent FriquetFoto: Laurent Friquet

Clique para ampliar

  Céu, o primeiro solo, apresentado em festivais internacionais, estreia em São Paulo, no Sesc Belenzinho. Desde a sua concepção, vida e arte desdobram-se entre um “artista bailarino que estuda, pesquisa, vincula universidade e criação, simpósio e turnê, publicação e apresentação em festivais”. O autor, segundo ele, é aquele capaz de argumentar o trabalho com a escrita, o pensamento e a leitura. Hoje, a inteligência, a sensibilidade e a prática coreográfica asseguram cinco peças no repertório: Céu, Inês, Época, Rua e O olho a Boca e o Resto, assim sem vírgula, diz ele.

Na cena internacional, Volmir chama a atenção não apenas pela sua grande estatura, rara em um bailarino, mas por sua força cênica e refinamento das ideias que seguem, em parte, as ressonâncias de Lia Rodrigues que instalou sua companhia na Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Seguindo as tradições antropofágicas da cultura brasileira, Céu traz quatro personagens: um mendigo, um camponês, uma prostituta e um refugiado. Nesta conversa exclusiva, uma reflexão sobre a própria trajetória. Cidadão do mundo, sente-se “estrangeiro onde mora e estrangeiro quando volta”, mas essa aparente lacuna exige preparo e compreensão sobre o devir e a “dança de posturas” que “vai figurando múltiplas organizações tônicas, gravitacionais, afetivas, de confrontação, de desordem, de festividade…”.

Conectedance – Depois de seis anos em Paris, quem é hoje Volmir Cordeiro em relação ao jovem que saiu do interior de Santa Catarina?

Volmir Cordeiro – Hoje estou ainda mais apaixonado pelo que faço, mais desejoso de continuar fazendo e ainda mais em busca das condições para seguir fazendo o que faço. Sim, hoje sou coreógrafo, assumo e suporto mais intimamente esse fato, alimento-o. Estou quase terminando o doutorado em dança. Hoje sou um espectador ainda mais assíduo do que gostaria de ter sido quando deixei Santa Catarina. Sou professor em escolas de dança, em mestrados fora do Brasil. Hoje tenho uma pequena caixa de ferramentas que levo comigo para partilhar com outros artistas, e colocar coisas que encontro dentro dela. Hoje sou estrangeiro onde moro e sou estrangeiro quando volto para cá. Estou no entre das culturas, dos pensamentos, dos modos de fazer, de viver e de sobreviver; este entre é a posição que vou construindo como minha morada, retardando uma escolha exclusiva. Hoje entendo a lacuna, o intermédio e o intervalo como potências geradoras do corpo complexo e sempre em devir que espero ser.

Conectedance – Ajude a situar sua trajetória. Em quantos países você já se apresentou? O que essa movimentação operacionaliza na cabeça do artista?

Foto: Laurent FriquetFoto: Laurent Friquet

Clique para ampliar

   Volmir – A minha trajetória começa em Concórdia, com a Carretel da Centopéia Cia. Teatral. Ali, com esse grupo de teatro totalmente vanguarda para o Oeste catarinense fiz a primeira turnê da vida, em 21 cidades do Estado. Depois, em Florianópolis, na Udesc, estudei no curso de artes cênicas, mas pouco a pouco migrei do teatro para a dança, ou melhor, a confundir as duas artes. A Udesc foi e é decisiva no meu percurso; tive aulas e professores com uma qualidade impressionante, os projetos com uma abrangência intelectual e sensível muito rara. Tenho muitas vezes vontade de voltar para reencontrar esse espaço e para agradecer. Professores como Vera Collaço, Brígida Miranda, Fátima Costa, Sandra Meyer foram formadoras ou fundadoras do meu interesse pela pesquisa, pela minha coragem e imaginação no ato de pesquisar. Ao mesmo tempo que estudava na Udesc fazia aulas diárias com o Cena 11 Cia. de Dança, com o qual, em 2007, tive a primeira experiência profissional em dança com o espetáculo Segredos Dançantes Contra a Brutalidade Surda, ao lado de Phelipe Janning, Anderson Gonçalves e Alejandro Ahmed (este na direção). Tinha 20 anos e estava presente numa das maiores companhias do mundo, com uma pesquisa aprofundada, argumentada, séria.

Depois de Florianópolis, mudei para o Rio de Janeiro para trabalhar com a Lia Rodrigues Cia. de Danças que, aos 14 anos, eu tinha visto em Concórdia, quando ali dançou Aquilo de que Somos Feitos, um marco afetivo, histórico e sensível na minha vida. Ao ver, tive a certeza de querer ser artista, confrontar-me com públicos indiferenciados, sentir o corpo como disponibilidade aberta, inteira, vibrante diante do público. Dancei com a Lia três anos e com ela fiz muitas turnês pela Europa e pelo Brasil. Aí conheci países, teatros, públicos duros, moles, fáceis, rígidos; conheci o trabalho em grupo, com 15 pessoas o tempo todo; o que a dança pode ser/fazer em espaços onde ela parece uma arte impossível – como na Favela da Maré, onde está instalada a companhia de Lia. Numa das turnês, descobri em Angers, na França, um mestrado em dança, performance e criação, que correspondia ao meu percurso de um artista, bailarino que estuda, pesquisa, que vincula universidade e criação, simpósio e turnê, publicação e apresentação em festivais. O mestrado, com enfoque preciso, desenvolve uma prática coreográfica, constrói a figura do autor como aquele que argumenta seu trabalho com a escrita, o pensamento, a leitura.

Ao terminar, em meados de 2013, recebi convites para trabalhar com coreógrafos franceses (Emmanuelle Huynh, diretora do mestrado, e Xavier Le Roy). Aceitei, assim como aceitei a bolsa de doutorado da Capes para a qual me havia inscrito. Na Universidade Paris 8, dei continuidade ao meu trabalho de pesquisa de modo concomitante à profissão de artista. No mestrado, criei Céu, o primeiro solo e minha segunda experiência como coreógrafo. Depois da estreia, comecei a ser convidado por inúmeros festivais e a negociar a vida de estudante com as turnês. Não comprometi a primeira escolha, a de mudar de país para estudar, fazer um mestrado voltado à criação artística. Assim, fui dançando pela Europa, sobretudo França e Bélgica, um pouco em Portugal, um pouco na Alemanha, Cuba, Canadá, Espanha, Chile, Estados Unidos, Suíça, Inglaterra, Florianópolis, Cuiabá, um pouco no Rio, um pouco em São Paulo.

Com o solo Céu se deu uma mudança na vida de artista, porque ele abriu portas para festivais, instituições e condições para continuar criando outros espetáculos. Depois de Céu, fiz mais cinco peças que mantenho ativas no repertório e sigo dançando mundo afora. Concilio as turnês, a tese e as aulas em mestrados na França e Bélgica, outros tipos de formações no Chile e na Espanha. É uma grande mudança, muito bem-vinda e conduzida delicadamente todo dia, para não perder de vista o rigor com que quero manter a sensibilidade e a construção de um caminho.

Foto: Laurent FriquetFoto: Laurent Friquet

Clique para ampliar

   Conectedance – O que seria uma “dança de posturas”? Um momento de Céu ou uma marca definitiva de Volmir Cordeiro?

Volmir – A postura é um fator coreográfico que me interessa muito. Numa postura encontramos o fundo tônico do corpo do artista, a afetividade que o move. A postura nesse sentido antecipa o movimento, coloca-o em marcha. Diante da postura de um bailarino, como ele aparece em cena, a relação estabelecida com a gravidade e seu próprio peso, podemos identificar o tom da sua política. A dança me parece um campo muito fecundo para investigar as políticas que nos constituem e que se manifestam simplesmente num jeito de andar, de distribuir o peso, de se afetar por algo, de piscar o olho, de se dirigir à alguém, o tom da voz. Podemos falar de um “tom do corpo”, da sua tonalidade política que é a sua capacidade de ser sensível ao outro e, portanto, responsável pelo outro. No caso da dança, como o intérprete é sensível ao seu corpo, ao que sugere o coreógrafo, ao olhar do público, ao seu contexto de criação. Cada mínimo detalhe configura uma proposta de encontro e de distribuição dos poderes num teatro. Por isso chamo uma dança de posturas, porque vou figurando múltiplas organizações tônicas, gravitacionais, afetivas, de confrontação, de desordem, de festividade…

Conectedance – O que significa apresentar no Brasil? É diferente?

Volmir – Significa uma realização. Conheço o discurso dos artistas brasileiros que desejam muito mostrar seu trabalho fora do Brasil, sobretudo na Europa. Como fui estudar na Europa e meu trabalho ganhou rápida visibilidade, o meu desejo é o de vir ao Brasil para apresentar, o que ocorre pouco, quase nunca. Então, fico muito feliz e apreensivo; feliz porque reencontro minhas bases mais sólidas, meus hábitos, a razão da minha saudade, e também porque é muito satisfatório sentir que o seu país está interessado pelo que você faz e que não te abandonou porque está sendo apoiado por festivais e estruturas internacionais. Apreensivo porque nunca sei o que vou encontrar; o Brasil muda muito e eu mudo tanto quanto ele. Também não sei de todo como vão receber o trabalho, o que é igual em todo lugar; mas aqui é diferente, tem algo especial. Quando volto é sempre um choque, um abalo emocional. Uma revolução interna. Quando danço aqui, danço transtornado por essa sensação.

Foto: Laurent FriquetFoto: Laurent Friquet

Clique para ampliar

   Conectedance – Recentemente, citando o artista Leonilson (1957-1993), você escreveu na sua timeline que “ouro de artista é amar bastante”. Num mundo em que o amor perde para a intolerância, é possível estabelecer, no seu caso, relações entre o amor e a dança? Ou nessa dança só há espaço para o campo filosófico?

Volmir – Entendo o amor como uma oportunidade para crescer com o outro. Amar é ouro para artista na medida em que se está com alguém, para alguém. Não acredito que seja possível fazer arte a partir do nada. É preciso um outro. E para encontrar esse outro, é preciso amar, é preciso amor. Mas um amor especifico, que não tem nada a ver com se fundir, se melar, se perder imprudentemente na pele desse outro, mas ter esse outro como a medida precisa das distâncias que posso tomar. Amar é compor distâncias, organizar confusões, provocar diálogo, sensibilizar o caos, é estar implicado e desimplicado, dormir junto e dormir separado. E isso vale para a arte, para a dança: o artista precisa da sua solidão na medida em que ela está povoada por um ou vários outros, concernida pela sociabilidade que é constitutiva da nossa condição humana. Uma certa parcela do Brasil está querendo apagar essa composição das distâncias, quer ser só amiga do que está próximo, do que é igual ou do que é o mesmo. Aí mora o maior perigo, esse de negar o outro, apagar a diferença, destruindo toda possibilidade de se apaixonar. Eu fico com Leonilson, quero ficar com o Ou(t)ro.

Conectedance – Céu, com base no filósofo francês Jullien François, tem apenas 30 minutos. É tão curtinho assim para se equiparar à sensação de céu como algo fugaz e quase inalcançável?

Volmir – Eu queria que o Céu fosse um jato. Um disparo. Um trabalho com pouco requisito técnico e muita corporalidade. Muita transformação e nenhum efeito espetacular. Queria que ele representasse o meu estado de pesquisa, mais do que tudo. Um encontro com o público no que este é criador de um olhar sobre o corpo. Queria me dirigir incessantemente para a plateia, estabelecendo uma conversa entre corpo e olhos, carne e pensamento, dando a sensação de que o público nunca conseguisse pegar, agarrar, compreender quem é este corpo diante deles. Por isso essa ideia do inalcançável do céu me pareceu muito propícia. Um corpo que o olhar não consegue agarrar, uma postura que é apenas vista e já se transformou. São 30 minutos disso, de um recital de posturas mudando sem parar para priorizar três ideias: de que não tem entre as posturas nenhuma mais importante do que outra, de que um corpo é em si uma multidão composta por muitos outros, querendo ou não; e de que o olhar sobre o corpo que eu quero propor é aquele que não pode fixá-lo numa única instância nem em uma única identidade, porque o corpo não para de ser interrogado, e é, por definição, metamorfose.

Conectedance – O que vai fazer no Brasil além de se apresentar em São Paulo?

Volmir – Visitar a família em Concórdia, Santa Catarina, e amigos de Sampa.

 

*Néri Pedroso: jornalista que vive e atua em Florianópolis (SC)

 

Serviço

Céu, de Volmir Cordeiro: de 8 a 10 de setembro/2017; sexta e sábado às 20h; domingo às 17h. Sesc Belenzinho (rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho, São Paulo/SP, tel. 11/2076-9700). Sala de Espetáculos II (100 lugares). Duração: 30 minutos. Recomendação etária: 16 anos.

Ingressos: R$20,00 (inteira); 10,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante) e R$ 6,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes). Estacionamento: Para espetáculos com venda de ingressos após as 17h: R$ 15,00 (não matriculado); R$ 7,50 (credencial plena no SESC – trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo/ usuário). www.sescsp.org.br/belenzinho.