Dia a Dia

Festival Contemporâneo de Dança realiza nona edição em São Paulo, com programação que reflete a crise brasileira

Foto: Humberto Araújo
Foto: Humberto Araújo
Wagner Shwartz em La Bête.

O FCD – Festival Contemporâneo de Dança, que já está em sua 9ª edição, acontece em 2016, em São Paulo, como símbolo de resistência diante do momento atual da cultura brasileira. Com direção artística de Adriana Grechi e direção geral de Amaury Cacciacarro Filho, o FCD não conseguiu manter o tamanho da programação das edições anteriores, por conta da crise econômica e política que assola o Brasil neste ano. Sem patrocínio suficiente, o festival acontece, segundo Cacciacarro, “graças às parcerias com artistas, produtores e alguns apoiadores que enxergam um futuro melhor e por isso não abrem mão de realizar esta nona edição”.

(Clique ao lado, em Publicações Relacionadas, e veja a programação completa do 9º FDC).

Nesta edição de resistência, o FDC procurou reunir artistas interessados em experimentar dança como reinvenção do espaço comum, movimentando modos de perceber e potencializar nossos campos relacionais. Que alternativas de convívio, conexão e partilha podemos tramar em tempos de crise? Como transformar um contexto tão adverso para a arte e a cultura? Que outras formas de afeto são possíveis e necessárias diante de um cenário cada vez mais tenso, violento e voltado para os encontros efêmeros, o êxito individual e o aniquilamento da arte como laboratório comum? Questões como estas conduzem a programação, que acontece de 31 de outubro a 13 de novembro, em três espaços culturais da capital paulista: o Centro Cultural Olido (Sala Paissandu), o CRD – Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo e o Sesc Bom Retiro.

Foto: Marc DomageFoto: Marc Domage

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   No Centro Cultural Olido, espaço que acolhe o festival desde sua primeira edição, em 2008, serão apresentados quatro trabalhos: Sakinan, do coreógrafo francês Christian Rizzo, junto ao turco Kerem Gelebek – bailarino e performer que acompanha Rizzo desde 2008 em vários projetos. Sakinan propõe um enfoque afetivo sobre a melancolia e o exílio, que durante o processo criativo deixou de ter o significado apenas de expatriação e território, e passou a significar exilar-se de si mesmo. Christian Rizzo é hoje um dos nomes mais importantes das dança contemporânea francesa. Em janeiro de 2016, ele foi nomeado diretor do Centro Coreográfico Nacional de Montepellier Languedoc-Rouillon.

Um enfoque especial no trabalho de Wagner Schwartz, artista brasileiro residente em Paris, marca o 9º FDC. No Centro Cultural Olido, Shwartz apresenta três espetáculos: La Bête, Piranha e Transobjeto. Com trabalhos influenciados pela literatura, Shwartz busca problematizar as experiências do estrangeiro entre línguas, culturas, cidades e instituições, através de um procedimento por ele definido como “dramaturgia da migração”. Em suas criações, ele se vale dos modos de composição de texto, som e imagem para tornar visível a fisicalidade de seus experimentos. Em La Bête, Schwartz manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas da série Bichos (1960), de Lygia Clark. O objeto permite a articulação das diferentes partes do seu corpo através de suas dobradiças.

Em Piranha, Shwartz compõe a metáfora de um corpo em reclusão – que se agita nevralgicamente, entre uma dinâmica voluntária e involuntária, sitiado por uma composição de ruídos digitais. O fluxo de movimento que se enreda sob um feixe de luz desdobra, em seu próprio corpo e no espaço, as variações sutis de uma rave, de uma guerra, de uma possessão, de um susto, de uma morte. Já Transobjeto traz, em sua proposta cênica e contextual, a complexidade do pensamento colonial brasileiro. Questões políticas de migração, identidade, ideologia, exílio, são questionadas artisticamente, assim como seus efeitos e rastros na sociedade contemporânea.

Foto: Margarida DiasFoto: Margarida Dias

Cena de Satélites, de Sofia Dias e Vítor Roriz.

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   No Sesc Bom Retiro será apresentado Satélites, da dupla portuguesa Sofia Dias e Vítor Roriz. O espetáculo indaga a noção do periférico, dando continuidade à pesquisa sobre a palavra como matéria maleável, que caracteriza a obra dos artistas. Nesta criação, a maleabilidade se traduz no corpo oscilante entre sujeito e objeto; na cenografia enquanto elemento móvel; na voz e no canto como aquilo que “extravasa” dos corpos. Sobre o espetáculo, a dupla explica: “Satélites é uma imagem para o que é periférico, para o movimento da e na periferia. Um movimento em relação a um centro que nunca se nomeia e cujo lugar não se determina. Porém, não interessa mais o centro que a periferia, mas a possibilidade de se influenciarem reciprocamente. Pensamos, então, no movimento da periferia como uma narrativa sobre o centro. Um centro de contornos imprecisos, uma nebulosa a partir da qual a narrativa vai adivinhando e distorcendo formas”.

Neste ano, o festival preparou uma programação especial para o CRD – Centro de Referência da Dança, espaço simbólico para a dança na cidade de São Paulo, voltado para a convivência, o diálogo, a pesquisa e a troca de informações. No CRD, o Terreyro Coreográfico, de Daniel Kairóz, abre o festival no dia 31 de outubro, com Celebração – um ritual artístico com muita comida, dança e música para renovar a vitalidade da dança. As coreografias desta ação se articulam sempre com acontecimentos sazonais, mudanças de estação, aniversários de vida e de morte, dias sagrados, datas comemorativas. Por conta da proximidade do Dia de Finados, a abertura do FCD terá como foco as festas mexicanas do Dia dos Mortos e as versões brasileiras do Dia das Bruxas e do Dia do Saci.

Foto: Jonia GuimarãesFoto: Jonia Guimarães

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   Durante duas semanas do festival ainda acontece a 6ª Plataforma Exercícios Compartilhados. Coordenada pela coreógrafa Adriana Grechi, esta plataforma começou com antecedência. Este projeto da diretora artística do festival conta com a participação de dois provocadores convidados e reúne anualmente, durante seis meses, 20 artistas-intérpretes de diversas formações, para uma residência artística, onde os integrantes fazem uma imersão em seus processos de trabalho. Ao final deste período, os residentes apresentam seus trabalhos em uma mostra aberta ao público, ainda em fase processual, resultado das provocações artísticas que foram sendo somadas ao longo do projeto. Em 2016, pela primeira vez, a Mostra Exercícios Compartilhados passa a fazer parte da programação regular do FCD, como uma das principais ações de formação artística do festival.

Durante o festival, os artistas Sofia Dias e Vítor Roriz, Wagner Schwartz e Christian Rizzo, realizam três oficinas de criação voltadas para a formação e qualificação artística, com o objetivo de compartilhar seus processos de criação com estudantes, professores e pesquisadores de artes cênicas.

Além das oficinas, o 9º FDC realiza um bate-papo com Christian Rizzo, que fala sobre sua proposta artística e experiência como diretor do centro coreográfico da cidade de Montpellier. Christian Rizzo está no Brasil por intermédio do evento France Danse 2016, que está apresentando 16 companhias francesas de dança em 15 cidades brasileiras (o France Danse é promovido pelo Institut Français e pela Embaixada da França no Brasil; seu objetivo de gerar parcerias colaborou com a programação do 9º FDC).