Dia a Dia

Festival de Montpellier comemora 30 anos e inaugura Cidade Internacional da Dança

Foto: Divulgação
Uma das fachadas da Cidade Internacional da Dança, no antigo convento das Ursulinas
Uma das fachadas da Cidade Internacional da Dança, no antigo convento das Ursulinas

Montpellier Danse, um dos mais importantes festivais de dança do mundo, comemora 30 anos em 2010 e inaugura a Cidade Internacional da Dança, a Agora. Instalada em uma construção histórica que funcionou como convento no século 17, cuja atual restauração custou cerca de 12 milhões de euros, a Agora é um lugar único na França e na Europa. Estimular a criação e a difusão da dança é sua proposta a partir de agora.

Para Jean-Paul Montanari, diretor artístico do Montpellier Danse desde 1983, o festival aponta para o futuro ao inaugurar a Agora. “Esta 30ª edição é ao mesmo tempo o fim de um ciclo e um novo ponto de partida”, diz Montanari. Até então, o evento ocupava teatros e espaços culturais diversos, envolvendo toda a cidade, localizada ao sul da França, perto do mar Mediterrâneo. Espetáculos em diferentes locais continuarão acontecendo, segundo o diretor. “A dança precisa de lugares variados para se expressar, para encontrar seu público”. Contudo, um espaço próprio como a Agora, que funcionará como uma residência de criadores, poderá trazer novas perspectivas para o festival.

A construção antiga e imponente que abriga a Agora surgiu em Montpellier em 1357, quando o cardeal Anglic Grimoard lá fundou o convento Saint Gilles ao qual se juntou, alguns anos mais tarde, um segundo convento, a igreja de Sainte-Catherine e também um cemitério. Tudo isso foi destruído em 1562, quando ocorreu na cidade a batalha entre protestantes e católicos. Em 1641, por encomenda da congregação das freiras Ursulinas, o arquiteto Jean Bonnassier transformou novamente o local em convento, que depois virou prisão de mulheres durante a Revolução Francesa. Mais tarde, lá funcionou uma caserna que em seguida foi ameaçada de destruição.

O destino artístico do edifício começou a ser traçado em 1981, quando o então prefeito de Montpellier, Georges Frêche, o adquiriu e o reabilitou graças a um projeto arquitetônico assinado por Lipsky & Rollet. Foi quando o antigo convento das Ursulinas passou a acolher o Centro Coreográfico Nacional Montpellier Languedoc-Roussillon, que ganhou a direção do coreógrafo Dominique Bagouet (1951-1992).

Bagouet fez parte da geração de coreógrafos franceses que se projetaram na década de 1980, quando o ministério da cultura da França promoveu a criação de centros coreográficos em todo o país. Uma época de ouro se iniciou então, com a revelação de alguns dos criadores mais marcantes da dança contemporânea francesa, entre outros Maguy Marin, Jean-Claude Gallotta, Régine Chopinot.

Em Montpellier, o centro coreográfico dirigido por Bagouet logo estimulou o surgimento do festival Montepellier Danse, que intensificou as atividades culturais da cidade, colaborando para seu desenvolvimento e modernização. Hoje, este pequeno município francês é um ponto de referência para as artes na Europa. Seu centro coreográfico é dirigido atualmente por Mathilde Monnier, que sucedeu Bagouet em 1994, após a sua morte precoce do coreógrafo.

Nos úiltimos anos, investimentos expressivos transformaram o convento das Ursulinas num moderno complexo cultural que até 2009 reunia o centro coreográfico nacional dirigido por Monnier e os espaços administrativos do festival internacional de dança. É também nas dependências deste monumento histórico que as cerca de 20 companhias de dança de Montpellier realizam os ensaios de suas produções. No local também funciona a sede da companhia de dança de Mathilde Monnier, que ministra várias atividades de estudo e reciclagem para franceses e estrangeiros. A sinergia entre o centro coreográfico e o Montpellier Danse, cuja programação inclui várias temporadas no decorrer do ano, além do festival que acontece anualmente entre junho e julho, tem por objetivo cobrir todos os campos de desenvolvimento da arte coreográfica, ou seja, criação, difusão, produção, apoio às companhias independentes e formação profissional.

Agora, com a Cidade Internacional da Dança ocupando todo o edifício, essa estrutura passa a contar com um teatro ao ar livre, o Théâtre de l’Agora, com 587 lugares; a Salle Béjart, um teatro modulável situado na antiga capela das Ursulinas, que poderá acolher tanto espetáculos de formato menor quanto conferências e eventos diversos; dois estúdios (o Cunningham e o Maurice Fleuret, que servirão de residência artística para coreógrafos e também para apresentação de trabalhos; o estúdio Bagouet, com 160 lugares, que já vinha funcionando como uma pequena sala de espetáculos. Alojamentos para artistas também integram o conglomerado, que faz de Montpellier uma cidade referencial para a dança – uma chancela que hoje se soma à tradição de suas escolas de medicina que remontam à idade média.

Embora pequena, com população aproximada de 300 mil habitantes, Montpellier tornou-se passagem obrigatória para artistas consagrados da cena internacional. Além da Cidade Internacional da Dança, não faltam teatros de excelência na cidade, como o Ópera Berlioz. Com o Montpellier Danse, a cidade tornou-se um polo de criação e difusão para a dança, com uma programação que inclui tanto novos criadores quanto os mais importantes nomes da área, que muitas vezes realizam no evento as estreias mundiais de seus espetáculos.

Na edição histórica de 2010, que marca seus 30 anos e também a inauguração da Agora, oMontpellier Danse apresenta na cidade, de 18 de junho a 7 de julho, criações de expoentes da dança internacional, que ao mesmo tempo marcaram presença no evento nas últimas décadas. Obras de Merce Cunningham, Trisha Brown, William Forsythe, Ohad Naharin, Anna Theresa De Keersmaeker, Jiri Kylián, Raimund Hogue, Akram Khan, Maurice Béjart, Régine Chopinot, estão presentes na programação deste ano, como uma espécie de retrospectiva do caminho percorrido pelo festival, segundo Jean-Paul Montanari.

O diretor afirma que os grandes nomes continuarão frequentando o evento, assim como os novos talentos. “Vou continuar a mostrar as obras que me sensibilizam”, ele diz, acrescentando que, ao mesmo tempo, com as condições que a Agora inaugura, também haverá espaço para as criações fomentadas pela Cidade Internacional da Dança. “Vamos escrever uma nova página de nossa história. Porém, o Montpellier Danse seguirá sendo um festival de criação, que é sua razão de ser e também sua missão primordial”. À frente de um evento que já fez história, mas disposto a renová-lo e mantê-lo em sintonia com o futuro, Montanari ainda comemora o lançamento do livro Montpellier Danse(s), 30 ans de création. Publicado pela editora Actes Sud, o volume traça uma perspectiva não só do festival mas também da dança contemporânea nas últimas três décadas.