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Festival Múltipla Dança, de Florianópolis, chega à nona edição com programação internacional, foco no pluralismo e conexão inédita com o Conectedance

Foto: Nacho Correa
Foto: Nacho Correa
Cena de Nosotros Estamos Aqui, da mexicana Olga Gutiérrez, que encerra a programação do Múltipla Dança.

Sob direção de Marta Cesar, que também assina a coordenação e a curadoria do festival, junto com Jussara Xavier, o Múltipla Dança chega em 2016 à sua nona edição. De 24 a 29 de maio, este festival internacional de dança contemporânea que marca o calendário cultural de Florianópolis, promoverá intensa atividade em 13 espaços da cidade catarinense (entre teatros e locais públicos). Artistas convidados de dois Estados brasileiros, Santa Catarina e Minas Gerais, e três países – Brasil, México e Espanha, compõem a programação, que inclui seis espetáculos, cinco intervenções urbanas, mostra de vídeo, cinco oficinas, lançamento de livros e apresentação do documentário Corpo Vodu, dirigido por Will Martins, sobre o Grupo Cena 11. Aberto ao público, todas as atividades do Múltipla Dança são gratuitas.

Produzir visibilidades, conhecimento e prestar serviços ao pluralismo da dança são os objetivos do Múltipla Dança, que é realizado pela instituição cultural Arte Movimenta. O festival já conquistou o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2015 e conta com o patrocínio da Caixa Econômica Federal, da Fundação Nacional de Arte (Funarte) e Ministério da Cultura.

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“Na origem da palavra festival, encontramos os termos celebração e integração, os quais explicam nosso desejo de organização e continuidade. Queremos ver e experimentar dança, registrar e falar sobre o que retemos, entrar em acordo e desacordo. Múltipla Dança valoriza um contexto artístico sempre em processo e um modo que escolhe o risco. Com coragem, insiste na necessidade urgente de (re)descoberta, recusando um único padrão de existência”, afirmam Marta Cesar e Jussara Xavier.

Coerente com a própria idealização, a de tonificar encontros, intercâmbios e conhecimento em torno da dança, a nona edição do festival assegura a multiplicidade de falas e proposições. Um dos aspectos de sua filosofia, que é intervir no contexto urbano, mexendo com o corre-corre da cidade, acontece com intensidade nesta edição, por meio das intervenções urbanas.

Foto: Elías AguirreFoto: Elías Aguirre

Cena de Flightless, do espanhol Elías Aguirre.

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  Para a abertura do festival, o Múltipla Dança convidou o bailarino e coreógrafo espanhol Elías Aguirre, que apresentará Flightless. O espetáculo já percorreu o mundo e cristaliza um imaginário sutil, carregado de matizes e reinvenções expressivas, que se dão por diferentes vias – a corporal, a gestual, a plástica. Trata-se, segundo a crítica, de uma peça do absurdo na qual gestualidade e dança confluem num personagem construído a partir do conceito flightless bird – um pássaro não voador. Premiado na Espanha e na Europa, Aguirre adota o espaço urbano como ponto de partida para a criação de boa parte de suas coreografias, que misturam técnicas de diferentes danças. Também artista visual, sua formação inclui fotografia, design, vídeo, clown e butô.

Em sintonia com o desejo de conexões com a dança latino-americana, o festival traz Olga Gutiérrez, criadora, pesquisadora e performer que vem do México para mostrar como a sua pesquisa corporal conecta linguagens como dança, teatro, arte-ação e arte sonora. Olga encerra o festival no dia 29 de maio, com o espetáculo Nosotros Estamos Aqui. Trata-se de uma dança que resiste a ser dançada, uma luta sem fim, um jogo de faixas de protesto contra o discurso modernista mexicano instaurado com o sistema democrático. “É uma peça que pode bem ser uma dança punk, uma greve de teatro físico ou uma manifestação visual de artistas mexicanos frente à situação social, política e econômica que atravessa o país”, diz Olga. Desde 2012, ela desenvolve projeto de investigação e criação de intervenções em espaços públicos. Atualmente é criadora e diretora do projeto de arte e espaço público “Programa comunitário Mura”, com duração de três anos, para o Museu de Arte Contemporânea (Mura), na cidade de Guadalajara (México).

Foto: Letícia SouzaFoto: Letícia Souza

Rui Moreira em Co Es (Com Eles)

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  O bailarino, coreógrafo e pesquisador de culturas Rui Moreira é outro convidado destacado. Nascido em São Paulo (SP), radicado em Belo Horizonte (MG), dedica-se a pesquisas sobre cultura popular brasileira. Articulador no processo de construção da Política Nacional das Artes (PNA), ocupa importante papel no mapa da dança do país. Desde 1984, sua carreira está marcada por suas atuações no Grupo Corpo (MG) e nas companhias Cisne Negro (SP), Balé da Cidade de São Paulo, Cie. Azanie (França/Lyon), Cia. SeráQuê? (MG). Atualmente, ele dirige a Rui Moreira Cia. de Danças (MG). No Múltipla Dança, Rui apresentará o espetáculo Co Es (Com Eles) e ministrará a oficina Danças Negras Contemporâneas. Também participará do Diálogo sobre Política Nacional das Artes.  

Dos seis espetáculos da programação, três são estreias de criações de Santa Catarina. O projeto Corpo, Tempo e Movimento reúne Sandra Meyer e Diana Gilardenghi e prevê seis ações de dança, das quais as duas primeiras (Narrativas em Dois Corpos e Dança Coral) estão no Múltipla Dança. Nascidas em 1957, as intérpretes e pesquisadoras entrelaçam trajetória pessoal, contexto social e história da dança em composições que emergem de cada encontro entre elas e resultam em gestos e falas mescladas de vozes e temporalidades distintas.

Outra estreia é Rec(L)usadx, novo trabalho de Elke Siedler, diretora e dançarina da Siedler Cia. de Dança. Ela propõe uma dança on-off-line, em processo contínuo de criação. Em sua dança materializada e apresentada em distintas mídias, ela discute a fragilidade, o súbito, a precariedade e os constantes reinícios das relações afetivas contemporâneas. A cor vermelha segue como marca de suas criações.

Mais uma vez, o Múltipla Dança presta homenagem, prática adotada ano a ano. Em 2016, destaca o trabalho de Ana Luiza Ciscato, pedagoga, arte educadora e professora de dança formada pela Royal Academy of Dance de Londres (1985), que garante inclusão social com a dança há mais de 15 anos. Com cursos de especialização na Steps e Martha Graham School em Nova York, especializou-se também em Psicoballet, técnica de apoio a pessoas consideradas “deficientes” (Cuba, 1993), que ela implantou a partir de 2003 na Estação Dançar, escola que fundou em Florianópolis. Desde 2006, Ana Luiza atua como professora e diretora artística do grupo de dança da APAE de Florianópolis, trabalho pelo qual recebeu o Prêmio Franklin Cascaes de Cultura em 2010. Certificada como professora pelo método DanceAbility, adota técnicas inovadoras para a inclusão de todas as pessoas no universo da dança.

A edição de 2016 do Múltipla Dança marca também uma conexão inédita entre o festival e a publicação virtual Conectedance. 

Foto: Karin SerafinFoto: Karin Serafin

Anderson do Carmo

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  Ao final do festival, o Conectedance publicará todos os textos produzidos durante o evento pela plataforma crítica Múltiplas Escritas: reinventando a pertinência crítica, concebida e coordenada pelo artista e pesquisador Anderson do Carmo. Além de Anderson, também Jussara Belchior, Everton Lampe e Ines Saber assinarão os textos. 

Segundo Anderson do Carmo, “o formato experimental da plataforma Múltiplas Escritas é pensado no sentido de deslocar o protagonismo da opinião do autor para o acontecimento crítico. Procura-se, assim, estabelecer uma produção crítica tutelada pelas questões NAS obras de dança percebidas e DAS obras de dança emergentes, por se perceber nas estruturas acadêmicas e jornalísticas da reflexão uma perigosa tendência: fazer uso das obras de dança para dar a ver ideários previamente instituídos que – concretamente – não pensam arte, mas parasitam suas discussões para delas servirem-se”. Segundo Anderson, “Múltiplas Escritas quer, mais que tudo, criticar as próprias ferramentas críticas”.

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Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

Imagem do documentário Corpo Vodu, sobre o Grupo Cena 11

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