Dia a Dia

Liberdade e diversidade
Bienal Sesc de Dança 2017

Foto: Gil Grossi
Foto: Gil Grossi
Cena de O Samba do Crioulo Doido, de Luiz de Abreu.

Por Ana Francisca Ponzio

Em sua décima edição, a Bienal Sesc de Dança de 2017 atraiu 20 mil pessoas em seus 11 dias de realização, de 14 a 24 de setembro. Transferida de Santos para a cidade de Campinas em 2015, a Bienal deste ano reuniu 330 artistas (entre brasileiros e estrangeiros), apresentou 30 espetáculos, cinco performances, quatro instalações, três filmes e ações formativas diversas (workshops, laboratórios de criação, debates, instalações, residências e lançamentos de livros).

Mais importante evento de dança do Sesc (Serviço Social do Comércio) e um dos principais do Brasil, a Bienal Sesc de Dança assume papel especialmente relevante por acolher e destacar a expressão contemporânea em sua diversidade. Convivência, intercâmbio, livre expressão, são marcas do evento, que ocupou diversos espaços do Sesc, além de equipamentos culturais da cidade de Campinas, como (entre outros) o Teatro Municipal Castro Mendes, o Museu da Imagem e do Som, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de espaços públicos como praças e ruas. Com espetáculos lotados e filas de espera, a Bienal contou com um público diverso, formado por frequentadores do Sesc, estudantes, artistas, jovens, idosos, crianças e adultos. 

No evento que lançou oficialmente a Bienal Sesc de Dança de 2017, em 25 de agosto, Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, destacou as “propostas novas, corajosas, provocadoras e transformadoras” da programação. Segundo o diretor, os trabalhos apresentados pela Bienal não seriam somente para apreciação, mas para fazer pensar, refletir – e de alguma forma transformar a realidade em algo melhor, despertando e cultivando a tolerância, o respeito ao outro, às diferenças e às diversidades.

Ao longo de toda a Bienal, um dos olhares mais atentos e participativos foi o de Wagner Schwartz, artista importante da dança brasileira, que depois de ter sua obra destacada na edição de 2015, voltou à Bienal deste ano como um dos curadores – função que dividiu com Claudia Garcia, Fabricio Floro e Claudia Müller.

A entrevista de Wagner Shwartz, a seguir, proporciona um olhar sensível e acurado sobre a Bienal Sesc de Dança de 2017.

Conectedance – Em que medida a programação da 10ª Bienal Sesc de Dança reflete o momento atual do Brasil e do mundo contemporâneo? O que o conteúdo desta Bienal aponta com mais intensidade e contundência?

Foto: Osmar ZampieriFoto: Osmar Zampieri

Wagner Schwartz

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   Wagner Schwartz – Aproveitamos a Bienal para tomar fôlego, para encontrar com os amigos, artistas e público. Do lado de dentro do Sesc parecia que estávamos protegidos da vida política de um país torto e tumultuado. Experienciávamos a programação e conversávamos sobre esse tempo em que a arte nas ruas perdeu a voz. Ao mesmo tempo, os trabalhos artísticos, as oficinas, as mesas, o Ponto de encontro, eram férteis de assuntos públicos: questões de gênero, de nacionalidade, a diáspora negra, o desmonte da cultura no Brasil, a poética da periferia, os tumultos do centro, a colonização, o protesto, a solidão pública. Todos estavam presentes.

Conectedance – Como curador da Bienal de 2017, o que você antevia antes da programação se iniciar? Agora, ao final desta edição da Bienal , o que ela revelou para você? O que mais chamou sua atenção, o que mais lhe surpreendeu?

Wagner Schwartz – É importante lembrar que fui convidado para ser o curador das ações cênicas dessa Bienal. Essa curadoria foi feita em conjunto com Claudia Garcia e Fabrício Floro. Éramos três. Cláudia Müller foi convidada para fazer a curadoria das ações formativas, juntamente com Claudia e Fabrício. Logo após os primeiros encontros, que aconteceram em dois momentos distintos, decidimos compartilhar nossas visões/decisões sobre a programação da 10a Bienal. Criamos um grupo online para discutirmos nossas propostas, porque acreditávamos que as ações artísticas interferiam no campo das ações formativas e vice-versa. Aos poucos, o desenho dessa Bienal foi ganhando corpo, permeada também pelas vozes dos agentes de uma instituição que consolida o trabalho daqueles que chegam até ela. Dessa forma, aquilo que os quatro curadores e a instituição anteviam era a criação de um espaço que abrigasse trabalhos artísticos que impulsionassem e exigissem uma mediação ativa nas crises atuais. Nosso empenho para que a Bienal se apresentasse com a força de seu esboço se expandiu para fora do Sesc, fazendo-nos entender que nosso desenho não se contentava apenas em evidenciar-se nas propostas estéticas, mas encontrava ressonância nas ruas, problematizando seu espaço cultural. Os encontros que aconteceram nessa Bienal, dentro e fora de sua programação, transformaram as relações entre obra e público, obra e artistas, pessoas e pessoas. Essas micromudanças foram importantes para expandir o corpo daqueles que vivem a crise fomentada por um desgoverno.

Conectedance – Na intensa e diversificada programação da Bienal, quais foram as questões mais presentes e mais contundentes – em quais trabalhos?

Wagner Schwartz – Cada trabalho programado, cada conferência, cada oficina estavam contaminados por questões vitais dos dias atuais. Em O samba do crioulo doido, Luiz de Abreu discutia a discriminação racial contra o negro. Em Alla Prima, Tiago Cadete apresentava uma performance baseada nas imagens que, ao longo de mais de cinco séculos, criaram ideias sobre o que seriam o Brasil, os brasileiros e a chamada brasilidade. Em Corredeira, Kanzelumuka apresentava o corpo como encruzilhada, alterando a perspectiva de quem atravessa uma rodoviária. No Campeonato Interdrag de Gaymada, o coletivo Toda Deseo celebrava a diversidade humana, explicitando, também, seus desajustes. Na oficina Corpo e etiqueta: normatizando os fazeres da dança, Ana Teixeira problematizava os códigos sociais que regem os manuais civilizatórios e contagiam as relações na dança. Na mesa Formação universitária e produção artística os professores Daniela Gatti, Alexandre Molina e Rita Aquino desnudavam a questão: “é missão das graduações formar artistas”? Em 1964 Golpes, OutroLuiz emudeceu o público quando exemplificou, com as lesões de seu corpo, o perigo de reagir às imposturas políticas.

Foto: Haroldo SaboiaFoto: Haroldo Saboia

Ó, de Cristian Duarte

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   Conectedance –  Quais os diálogos, afinidades ou mesmo discrepâncias que se estabeleceram? 

Wagner Schwartz – Trabalhamos em uma dramaturgia para essa Bienal. A afinidade entre as ações artísticas e formativas era o nosso foco. Para isso, tentamos entender como uma ação conversaria com a outra. Queríamos criar um universo onde cada parte pudesse existir ao mesmo tempo, do seu jeito, com a sua língua, conversando com a vizinha. E que nessa conversação entre vizinhos fosse possível aprender uma história, porque dança é contexto. Principalmente a história de hoje, que não é mais aquela narrada exclusivamente por uma elite.

Nessa Bienal, aconteceu, por exemplo, um diálogo importante e inédito entre Brasil e Estados Unidos. Dois integrantes da oficina Faça a sua pose, de Jose Gutierez, foram batizados por ele como os novos integrantes da casa Xtravaganza: André Xtravaganza, de São Paulo, e Victórya Devin Xtravaganza, do Rio de Janeiro. Essa transmissão passa a instalar no Brasil o pensamento de uma das casas fundadoras do voguing. Para esse processo de migração, temas como passaporte, visto, legalidade ou nação não fazem o menor sentido.

E para não deixar de citar as discrepâncias, foi importante verificar a permissividade de algumas pessoas do público na apresentação de Ó, de Cristian Duarte. Algumas delas se deram o direito de invadir o espaço da performance, de aprisionar o fazer-do-outro em seus próprios jeitos de estar em um espaço compartilhado. É importante entender que algumas pessoas agem como se estivessem sozinhas no mundo.

Conectedance – Houve um equilíbrio entre as questões estéticas, existenciais, sociais e políticas, ou uma ou mais delas se sobrepôs às outras? Pode citar trabalhos como exemplos?

Wagner Schwartz – As questões estéticas, existenciais, sociais e políticas foram equalizadas para que ouvíssemos cada qual com precisão. Era possível experienciar, por exemplo, as ações do coletivo Milm2, em Construir uma biblioteca, espalhando frases do público pelo Sesc com respostas à pergunta “o que você perguntaria à dança?”. Essa articulação sensibilizou e aproximou o público das ações programadas. O público na Bienal também teve voz, inventou.

O silêncio, em Corpo desconhecido, de Cinthia Kunifas e Mônica Infante, transformou lentamente a relação do público com o jardim do Ginásio do Sesc Campinas. O interior e o exterior se conectaram pelos micromovimentos de Cinthia e do público. O pátio, cheio de gente, tornou-se vazio de sonoridade. A performance modificou a relação habitual das pessoas com o mundo do lado de fora. A única urgência era estar ali.

Em Biblioteca de dança, Neto Machado e Jorge Alencar modificaram a estrutura da biblioteca do Sesc, deixando livre, para consulta, livros em forma de pessoas ou pessoas em forma de livros. Esse trânsito, do objeto à memória, aproximou o registro narrativo daquele que diz àqueles que ouvem. Emocionar-se era inevitável ao ver-ouvir-conversar com livros que não cabem na estante.

Conectedance – Em 2015 você participou da Bienal como artista convidado, em um programa que traçou uma perspectiva sobre seu trabalho, a partir dos quatro espetáculos solos que você apresentou. Nesta Bienal de 2017 você participa como um dos quatro curadores. Qual a diferença de participar nestas duas condições? Como a fruição do evento acontece nestas duas situações?

Wagner Schwartz – Acredito que ambas as formas de participação se comunicam, se conhecem, visto que, para criar um trabalho artístico, é preciso selecionar ideias, agrupar outras, e no trabalho curatorial o mesmo processo é exigido. A grande diferença é que na Bienal de 2015 apresentei o que selecionei do mundo em meus trabalhos e, na de 2017, apresentamos o que dois artistas, em conjunto com dois membros da coordenação artística da Bienal, acompanhados por outros responsáveis do Sesc, selecionaram do mundo nos trabalhos dos artistas. Esta diferença é bastante valiosa, pois aproxima dois modos de relação com o mundo.

Durante a criação de um trabalho artístico, o “eu” que fala é uma entidade expandida, presente em um corpo. Solo. Não é o vórtice de um “nós”, mas de “eus”, parafraseando Massimo Canevacci. No processo de uma ação curatorial, esses “eus” estão lado a lado, personificados. Grupo. Falam ao mesmo tempo, conectam-se, decidem. A evolução de um projeto se dá na complexidade e no encontro dessas vozes. Os assuntos de uma programação são decididos em conjunto. A diversidade age, é física, está presente. O evento torna-se as vozes desse coletivo que escuta outros coletivos. Frui-se na atividade de ser “eus”. E, quando acontece como evento, vira festa.

Conectedance – O fato da Bienal acontecer em Campinas, fora de um centro metropolitano, dá um significado especial ao evento?

Wagner Schwartz – Sim. Existe um público que é desconhecido pelo centro e que, durante a programação, se mistura aos reconhecidos. Essa diversidade é muito importante para a continuidade de um projeto artístico, cultural. É importante que as pessoas se conheçam. A Bienal, diariamente, teve uma cara nova. Circulou as ideias.

Conectedance – A 10ª Bienal Sesc de Dança acontece em um momento político especialmente tenso e complexo – para o Brasil, para as artes e para a dança em especial. O ânimo dos artistas e do público tem refletido este momento? O que você tem percebido neste sentido?

Wagner Schwartz – Muitos têm refletido esse momento. Não há como fugir, porque o momento político atual é autoritário. Nesse sentido, artistas e público trabalham para se mobilizar, para refletir e criar outras formas de vida que sejam potentes o bastante para lidar com a falta de critério político no Brasil de hoje. Vinte mil pessoas visitaram essa Bienal. Foram vinte mil pessoas pensando.

Conectedance – Atualmente temos presenciado manifestações de conservadorismo, repressão e censura às artes. Por isso, a Bienal Sesc de Dança assume um papel importante pela liberdade que sempre cultivou em suas programações, além da abertura para a multiplicidade de expressões e o arrojamento da dança contemporânea. O papel de acolhimento da Bienal e do Sesc São Paulo como um todo assume, hoje, uma importância maior? Qual o significado desta Bienal hoje?

Wagner Schwartz – Na Bienal pode. Porque o Sesc se reconhece como responsável pela expansão artística e cultural nacional. Como artista, entendo que essa instituição cria relações com o que há de mais emancipado nas questões humanas, que se tornaram questões artísticas. Seu foco, portanto, é tornar visível o que o corpo pode produzir em meio às adversidades políticas, sociais, culturais. O Sesc recebe seus convidados como se fossem “de casa”, porque tem intimidade com suas escolhas e acredita que podem sensibilizar um público exposto ao racismo, à misoginia, à homofobia e a tantos outros apegos enfermos. Artistas precisam de lugares preparados para receberem seus objetos que trazem, na fragilidade de serem socialmente incompreendidos, a força de seu argumento transitivo. A Bienal é um desses seguimentos onde é possível existir aquilo que para as ruas é risco.

Conectedance – Como artista, curador e espectador, o que você vai levar na memória desta Bienal?

Wagner Schwartz – Claudia Garcia, Fabrício Floro, Cláudia Müller, eu e as outras vozes da instituição Sesc iremos levar na memória a resposta vital, artística, cultural ao projeto neoliberal, capitalista, racista e usurpador das políticas públicas e privadas que vêm se empenhando em destruir o pensamento crítico no Brasil: vinte mil pessoas estão interessadas em arte nos dias de hoje. Isso significa, vinte mil pessoas agindo no mundo de hoje. Essa atitude reduz danos, aproxima pessoas e suas singularidades, suas formas de interpretar, estruturar, inventar o próprio corpo, a própria casa e culturalizar-se com o corpo e a casa dos outros.

Conectedance – Como você se sente como artista brasileiro da dança hoje? 

Wagner Schwartz – Trabalho como posso trabalhar, onde posso trabalhar. E não sou o único. Muitos de nós vêm fazendo isso. Invisto nas minhas relações pessoais, profissionais, com vontade de estar ao lado daqueles que estão fazendo esse mundo fazer sentido, mesmo que ele esteja se verticalizando violentamente. Para mim, ser artista é vital, e é a partir desse território brasileiro, brasilêro, brasyleyro, brasuca, .com.br que posso criar. É nesse lugar que tudo acontece.

 

Observação:

Esta entrevista aconteceu antes do episódio no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, envolvendo a performance La Bête, de Wagner Schwartz, na abertura da exposição Panorama da Arte Brasileira, em 27 de setembro/2017.

Nesta obra de Schwartz, o corpo do artista – em estado de absoluta neutralidade – pode ser manipulado pelo público, como um objeto a ser rearticulado. O respeito ao corpo – do outro, que reflete o de cada um – é uma das conotações que a obra pode emanar. La Bête se inspira em Bichos, série de esculturas metálicas articuláveis que propõem a participação do observador, concebidas na década de 1960 pela consagrada artista plástica Lygia Clark (1920-1988).

La Bête não tem nenhum conteúdo erótico. O corpo nu do performer é tão amoral quanto a estátua do Davi de Michelangelo.

A histeria carregada de deturpações, gerada nas redes sociais por esta apresentação de La Bête no MAM, ocorreu porque uma criança, acompanhada da mãe, tocou levemente na mão e no pé do performer. Em seguida, a própria mãe tocou o tornozelo do artista, transmitindo inclusive um toque respeitoso e afetuoso no colega ou amigo. Afinal, esta mãe também é artista da dança e, dependendo do olhar, poderia estar ensinando atitudes de respeito à sua criança.

Nem sempre nudez significa sexo – embora esta relação seja intensamente alardeada na televisão, condicionando a visão de uma maioria que não desfruta da arte e da cultura em seu dia a dia.

Como manifestação artística, especialmente neste momento, La Bête espelha o grau de lucidez, de evolução ou involução do meio no qual se insere.