Dia a Dia

Tempos de desassossego na dança paulistana

Por: Ana Francisca Ponzio

Divulgação
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Cartaz difundido pela classe de dança em 11 de março/2017.
Foto: Cláudio GimenezFoto: Cláudio Gimenez

Mariana Muniz em Fados e Outros Afins

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   Sábado, 11 de março de 2017, a Praça Roosevelt ferve. Neste tradicional pedaço do centro de São Paulo, onde se concentram bares, restaurantes e salas de espetáculos, cresce a fila para entrar na SP Escola de Teatro, onde Mariana Muniz iniciou a temporada de estreia de seu novo solo – Fado e Outros Afins. Casa cheia, após o belo espetáculo Mariana agradece e se manifesta sobre a notícia que aumentou o desassossego que a classe de dança (e artística em geral) vive, desde que o prefeito João Doria anunciou, no final de janeiro, o congelamento de 43,5% da verba da cultura, área que historicamente conta com recursos irrisórios – ou seja, menos de 1% do orçamento total da cidade.

A “novidade” do dia foi noticiada na coluna de Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo. Segundo a colunista, a Secretaria Municipal de Cultura “decidiu cancelar e refazer o último edital de fomento à dança contemporânea, aberto no fim da gestão Haddad (PT)”. A coluna ainda informou que André Sturm, atual Secretário Municipal de Cultura, justificou o cancelamento com a afirmação de que o processo não havia sido suficientemente divulgado, o que gerou reclamações de entidades ligadas à dança. “O novo edital deve ser publicado na terça (14/3) com os novos prazos para inscrição de projetos. O valor, de mais de R$ 5 milhões, será mantido”.

Criado em setembro de 2006, o Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo (Lei 14.071/05) virou uma página na capital paulistana. Pela primeira vez, a classe de dança passou a contar com suporte financeiro garantido por lei e fruto de reivindicações e esforços conjuntos dos próprios artistas.

Com dois editais por ano, que selecionam projetos inscritos que, uma vez escolhidos, podem contar com recursos para trabalhos de pesquisa, produção, circulação e manutenção de companhias, o Fomento à Dança de São Paulo multiplicou a produção, proporcionou desenvolvimento e visibilidade para a área e ao mesmo tempo trouxe novas demandas, revelando o potencial e o vigor da dança paulistana, em todas as suas regiões. Como processo vivo, requer aprimoramentos – o que de certa forma vem acontecendo, como a ampliação de prazo para dois anos para a finalização de projetos (também um precedente, que trouxe fôlego para a tão curta perspectiva de realização de trabalhos dos profissionais da área).

Necessidade de novos aprimoramentos no Fomento? Sem dúvida. Impensável para a maioria, porém, é cogitar retrocessos como a pulverização da verba do Fomento para talvez atender número maior de contemplados. Verba de menor valor significaria rebaixar as condições de trabalho duramente conquistadas, considerando as exigências inerentes à produção cênica, à manutenção de grupos e à sobrevivência digna dos artistas.

Reflexo do Programa de Fomento, hoje a programação de dança de São Paulo é certamente a mais intensa do país. Nos diversos cantos da cidade, dos teatros aos espaços urbanos, há espetáculos e intervenções animando a cena paulistana.

Idealmente, novos programas de fomento deveriam surgir em São Paulo (e, claro, no Brasil todo), para dar conta da diversidade de demandas e manifestações que afloram a todo momento.

Atualmente, contudo, as incertezas aumentam.

“É doloroso perceber que uma canetada pode destruir um trabalho de muitos anos”, afirmou Mariana Muniz após sua apresentação de estreia, na noite de sábado, sobre a possibilidade de mudanças no Fomento. “Nossa luta por melhores condições está sempre se renovando”, acrescentou a bailarina e coreógrafa, que no entanto lamentou o risco atual de regressão, que pode prejudicar uma conquista histórica da dança paulistana. “Está faltando diálogo na atual gestão. Só ficamos sabendo das coisas depois que a decisão já foi tomada”, observou ainda Mariana, sobre a falta de discussões em conjunto com a classe de dança, por parte da Secretaria Municipal de Cultura.

No final da estreia de Fados e Outros Afins, Mariana Muniz chamou ao palco outro bailarino e coreógrafo de destaque na cidade – Wellington Duarte – que convidou a plateia para o Ato contra o desmonte da dança, que pretende reunir a classe no corredor da Galeria Olido, sede da Secretaria Municipal de Cultura, no próximo 13 de março, segunda-feira, a partir das 10h. O ato, que nas redes sociais tem a hashtag #DescongelaCulturaJa, está sendo organizado pela Cooperativa de Dança, Cooperativa de Teatro, Dança se Move, Fórum Permanente de Danças Contemporâneas : Corporalidades Plurais, Movimento Teatro de Rua e Frente Única da Cultura. Uma comissão formada pela organização durante reunião ocorrida no sábado no Centro de Referência da Dança de São Paulo, espera ser atendida no ato de segunda-feira por André Sturm, Secretário da Cultura, para estabelecer um diálogo e obter informações sobre as pretensas mudanças no Programa de Fomento e seu 22º edital, que já tinha até comissão formada para iniciar a avaliação e escolha de projetos. Seu cancelamento, seguido da anunciada reformulação, intensificou o estresse de uma classe artística movida essencialmente pela paixão de seus artífices e que tem na resistência uma de suas maiores marcas.

Assim como em Fados e Outros Afins, outras apresentações de dança na cidade se encerraram no sábado com manifesto semelhante ao de Mariana Muniz. Tempos de desassossego rondam a dança paulistana.