Dia a Dia

Um encontro inédito entre Luis Ferron e Luis Arrieta no espetáculo Os Corvos

Foto: Clarissa LambertFoto: Clarissa Lambert

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  Uma questão latente – a morte – reúne Luis Ferron e Luis Arrieta, dois dos mais importantes artistas da dança do Brasil no espetáculo Os Corvos, que estreia em 30 de março em São Paulo, no Sesc Pompeia.

A circunstância existencial que envolveu o dançarino e coreógrafo Luis Ferron entre os anos de 2006 e 2013, de intenso convívio com o ciclo de envelhecimento, doença e morte de seus pais, foi o que impulsionou a criação de Os Corvos.

“Reza a lenda que os corvos são mensageiros da morte”, diz Ferron. “Quando me deparei com ela, pensar a respeito dela deixou de ter o pesar pregado pela cultura ocidental e suas crenças. Ao contrário, pensá-la me levou ao encontro da vida e me fez vislumbrar um presente sem passado ou futuro, apenas com a certeza do presente como sentido vital e a morte como a certeza final. Talvez os corvos não sejam os mensageiros da morte, mas da vida”, ele conclui.

Seu desejo de tratar de forma artística e poética os novos sentidos, sobretudo o da vida, que tal circunstância existencial lhe trouxe, levou Ferron a convidar Luis Arrieta para dividir criação e interpretação.

Foto: Clarissa LambertFoto: Clarissa Lambert

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  Os Corvos é o resultado do encontro destes dois criadores de diferentes gerações da dança brasileira.

“Construímos no trabalho um território de encontros. Encontro com memórias, com meus pais, comigo e com Luis Arrieta, grande artista que continua me ensinando os requintes do dançar e coreografar desde os anos 1980, quando iniciai minha carreira artística”, afirma Ferron.

Apresentado com música ao vivo, Os Corvos exorciza conceitos antigos sobre a morte e abre novas perspectivas, no sentido de potencializar o presente e celebrar a vida.

Teo Ponciano assina a edição de trilha eletrônica e a operação de som de Os Corvos. O arranjo para piano e violoncelo é de Pedro Assad. Músicos: Pedro Assad (piano) e Thiago Vilela (violoncelo). Tambores: Almir Jesus de Almeida (Tata Ybadan), Danilo Luango de Almeida (Tata Dassazume) e Ricardo Souza – todos do Templo de Cultura Bantu Redandá. Voz em off: Fátima Silva.

Os figurinos são de Fause Haten. 

Luis Ferron sobre Os Corvos

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  “Os corvos, pássaros necrófagos, são normalmente associados a mau agouro. São considerados mensageiros da morte. Provavelmente por uma herança de acepção negativa, herdada de diversas crenças, religiões, mitos e lendas ao longo da história.

Para o xamanismo, a magia do corvo é poderosa e pode infundir a coragem necessária para penetrar nas trevas do vazio. O vazio é denominado o grande mistério e nesta crença o corvo é considerado o mensageiro do vazio, com a capacidade de transitar nos dois mundos: o dos homens e mulheres e o do grande mistério.

Foi assim que percebi meus pais, em seus percursos de envelhecimento, doença e morte: como corvos ou pessoas que presenciam o grande mistério a partir de um corpo anunciando o fim iminente. Me deparar com a morte era algo ainda distante. Nesse contexto de novos sentidos, percebi que é necessário ao homem avizinhar-se dela para experiênciá-la, pois a morte em si é um outro, uma alteridade enigmática que nos transforma em crianças no escuro.

Em Os Corvos, foi construído um território de encontro. Encontro com memórias, com meus pais, comigo e, sobretudo com Luis Arrieta, este grande artista que continua me ensinando sobre os requintes do dançar e coreografar desde a década de 1980, quando iniciei minha carreira artística. Um encontro feliz, pois Arrieta foi uma referência importante para os meus estudos coreográficos e trabalhar com ele está sendo um presente para o meu presente. Um encontro regado a generosidade, que o torna ainda mais digno do meu respeito, admiração e amizade. Portanto, também parte da minha história e do que sou hoje.

Nessa criação, eu e Arrieta pudemos exorcizar conceitos antigos sobre a morte. Novas perspectivas se abriram no sentido de potencializar o presente e celebrar a vida. Leandro Karnall diz que quando morrermos teremos dado sentido a tudo o que nos propusemos fazer. São memórias, construções e demolições ininterruptas que, ao contrário de afastar, nos aproximam do que somos, justamente por nos trazerem a compreensão do que fomos.

Os Corvos sou eu, você, todos nós. Mas, acima de tudo, é um convite que nasce como exaltação da vida vivida.”

Luis Arrieta sobre Os Corvos

Foto: Clarissa LambertFoto: Clarissa Lambert

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 “O contrario da vida não é a morte. O contrario da morte é o nascimento”. (Eckhart Tolle).

“A vida não tem contrário. A vida é una, eterna, infinita. Nela surfam nascimentos e mortes. Estes são contrários e iguais. Nossa condição humana não nos permite a sua visão simultânea. Por isso, percebemos um somente e intuímos o outro com certeza. Esse umbral, essa porta, essa ponte, essa passagem, tem sido minha fascinação e meu horror desde que lembro de mim, mínimo e desproporcionado na construção do mundo dos adultos. E é justamente desde esses jogos solitários, por pontes e portas e umbrais, que começam a se formar minhas primeiras imagens de mim mesmo. Sempre a mesma aterradora vertigem, à borda do precipício. O mesmo vazio a se desprender do sexo e a atravessar o estômago e arrebentar o peito e a garganta e voar como pássaro suicida, aos braços de outro nascimento. Amo esse lugar com todos os meus medos. Espero esse momento, ou melhor, espero reconhecer esse momento, porque ele já existe, com a mesma ilusão e coragem que me impeliam nos jogos de criança. Acompanhei a morte dos meus pais à distância, atravessando espaços de símbolos e intuições. Ferron lidou, na sua vez e ao lado, com o que chamamos de realidade do tempo e do espaço. Ele precisou realizar esse caminho por terras aladas. Eu me descalcei e amassei com os pés o barro do presente. Espelhados pelo mesmo nome, trouxemos cada um a este encontro o peso da carga necessária ao outro, para equilibrar-nos e encorajar-nos nesta experiência de inexorável solidão. E assim, com a fé cega na nossa ignorância, que é o anjo provocador na nossa infância, decidimos rabiscar sobre este instante fecundo. na tela sempre madre do palco.”

Corvo: pela sua cor negr é associado às ideias de principio (noite materna, trevas primigenias, terra fecundante). Pelo seu caráter aero, é associado ao céu, ao poder criador e demiurgo, às forças espirituais. Pelo seu voo, mensageiro. Por tudo isto, entre muitos povos primitivos, o corvo aparece investido de extraordinária significação cósmica, civilizador e criador do mundo visível. Dicionário de Símbolos, Juan-Eduardo Cirlot. 

Sobre Luis Ferron

Artista criador e educador (desde 1985), mantém sua linha de pesquisa focada em abordagens e técnicas, destinadas a explorar singularidades corporais. Em suas criações, a característica principal é a transição entre espaços culturais (periferia-centro-periferia), alimentando-se do novo a partir de experiências vividas. Há dez anos está envolvido nas pesquisas de origem, tradição e transformação do carnaval paulistano e das dramaturgias corporais relacionados ao tema.

Ferron também dirige projetos de criação e difusão da dança cênica, desenvolvendo criações coreográficas para e com diversos núcleos e artistas independentes.

Recebeu prêmios como: Rumos Dança Itaú Cultural, APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Bravo! Bradesco Prime de Cultura, Funarte de Dança Klauss Vianna.

Entre suas criações mais recentes destacam-se: Sapatos Brancos (2009) –  marco na trajetória artística e na consolidação de sua identidade poética, Baderna, Baderna Zona Sul, Baderna – Reverberações Antropofágicas e ainda Dissolva-se-me (solo do ator Renato Ferracini para o Lume Teatro).

Como pesquisador e intérprete, Ferron integrou o elenco da Cia. Terceira Dança, dirigida por Gisela Rocha, do Núcleo Nova Dança de Improvisação (atual Cia. Nova Dança 4, sob direção de Cristiane Paoli Quito e Tica Lemos), do Núcleo Nova Dança de Composição, de Adriana Grechi. Junto ao diretor e coreógrafo Fernando Lee fundou o Núcleo Omstrab, com o qual participou da Bienal da Dança de Lyon (França) de 1996.

Fizeram parte da sua formação artística: Joel Borges, Ismael Guiser, Toshie Kobayashi, Yoko Okada, Lenie Dalle, Joyce Kerman, Maiza Tempesta, Kaka Boa Morte, Ilara Lopes, Adriana Grechi, Cristiane Paoli Quito, Tica Lemos, Fernando Lee, Gisela Rocha, Cláudia de Souza, Valéria de Mattos, Inélia Garcia, Jorge Peña, Solange Cordeiro, Charles Linhares, Roseli Rodrigues, Mitie Warangae, George Moreno, Agnes Genga, Ines Aguiar, Roseli Fiorelli, Áurea Figueiredo, Sacha Svetlov, Lia Salib, Dulcimara Maia, Viviane Alfano, Sérgio Sink, Marly Tavares, Andy Degroat, Alito Alessi, Redha Bentefour, Fred Benjamim, entre outros.

Sobre Luis Arrieta 

Foto: Antonio Carlos CardosoFoto: Antonio Carlos Cardoso

Luis Arrieta

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 Argentino da cidade de Buenos Aires, Luis Arrieta iniciou seus estudos de dança em 1972, em sua cidade natal, com Ilse Wiedmann, então principal maître de ballet do Ballet Contemporáneo de la Ciudad de Buenos Aires, dirigido por Oscar Araiz. Em 1974 radicou-se em São Paulo. Completou sua formação em técnica clássica sob a orientação de mestres como Ismael Guiser, Tatiana Leskova, Yellê Bittencourt, Desmond Doyle, Hugo Delavalle, Alphonse Poulenc, Ady Addor, Ricardo Ordóñez, Oleg Briansky e Mirielle Briane. Estudou técnica moderna com Yoshi Morimoto e Odette Flaks.

Como bailarino, dançou em Buenos Aires com o Ballet de Joaquín Pérez Fernández, com a Escuela del Ballet Contemporáneo de la Ciudad de Buenos Aires e com a Compañía de Shows de Nacha Guevara. No Brasil, integrou os elencos do Ballet Stagium, Balé da Cidade de São Paulo, da Associação de Ballet do Rio de Janeiro e atuou como solista convidado em vários eventos e festivais de dança. Na Alemanha, colaborou com o Hessiches Staadtheater de Wiesbaden.

Iniciou sua carreira de coreógrafo em 1977 com Camila, obra estreada pelo então corpo de Baile Municipal de São Paulo, hoje Balé da Cidade de São Paulo. Desde então, assinou mais de uma centena de coreografias, trabalhando com os mais variados temas e gêneros musicais, junto a diversas companhias internacionais da Europa e das Américas, bem como  companhias oficiais brasileiras e os mais importantes grupos do Brasil. Assinou também coreografias para documentários de curta-metragem, para videoclipes e programas especiais de televisão.

Conferencista e professor, ocupou por duas vezes o posto de diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo – em 1981 e de 1986 a 1988. Foi um dos fundadores e depois diretorartístico,em 1982, do Elo Balllet de Câmara Contemporâneo, de Belo Horizonte. Paralelamente às suas atividades como coreógrafo, professor e bailarino, tem integrado júris de alguns dos mais importantes festivais e encontros de dança do Brasil e do exterior.

Por sua contribuição à dança brasileira, foi agraciado com muitos prêmios e distinções, dentre os quais se destacam os prêmios APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte (1977, 1979, 1980, 1988) e Governador do Estado de São Paulo.

 

Serviço:

De 30 de março a 9 de abril/2017. Quinta a sábado às 21h. Domingos às 19h.

Teatro do Sesc Pompeia. 302 lugares.

Ingressos: R$ 6,00 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$10,00 (credenciado*/usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$20,00 (inteira).

Ingressos à venda nas unidades do Sesc a partir de 22/3, às 17:30, e em www.sescsp.org.br, a partir de 21/3, às 17:30.

*Venda limitada a 6 ingressos por pessoa.

Classificação etária: livre.

 

Sesc Pompeia: Rua Clélia, 93.
Não há estacionamento.