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São Paulo - SP

Grupo Pró-Posição / Janice Vieira e Andréia NhurPeças Fáceis

Foto: Ines Correa
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  A partir de algumas Peças Fáceis de Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Christian Petzold (1677-1733), organizadas por Bach em parceria com sua esposa, Anna Magdalena Bach (1701-1770), no Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach, o espetáculo propõe um estudo “sonorocoreográfico”, em que movimento e som são produzidos na mesma dimensão temporal – ora por um disparo de voz (que é gesto dançado), ora por uma propulsão de instrumento (que é corpo).

Peças Fáceis, nova criação de Janice Vieira (76 anos) e a filha Andréia Nhur (34 anos), marca dez anos de parceria das artistas, que retomaram em 2007 as atividades do Grupo Pró-Posição. Importante expressão da dança brasileira nas décadas de 1970 e 1980, o Pró-Posição foi criado em 1973 por Janice Vieira e Denilto Gomes (1953-1994), mantendo-se em atividade até 1983.

Músicas de contraponto, muito utilizadas no aprendizado de instrumentos, serviram como material de estudos para Janice Vieira em sua formação como acordeonista, além de guiar Andréia em suas experiências com violão erudito na infância. A partir desta memória musical comum, mãe e filha iniciaram o processo de criação de Peças Fáceis, o quinto em que trabalham juntas após Swan (2007), O cisne, minha mãe e eu (2008), LinhaGens (2009) e Vis-à-Vis (2012).

“Depois de tudo que criamos juntas, quisemos olhar para o que mais poderia ser extraído da nossa parceria. Um ponto de partida para nossa dança é a música como uma presença sempre constante e também a investigação do que ela faz com o corpo que dança”, diz Andréia.

No espetáculo, que as artistas conceituam como “plataforma sonorocoreográfica”, os minuetos de Bach e Petzold são experimentados com violão e pandeiro por Andréia e com castanholas e acordeão por Janice. A dupla também utiliza a voz em momentos solos e conjuntos. Além de construírem em cena uma trajetória afetiva – assinatura de seus trabalhos – elas também criam uma discussão sobre a própria linguagem barroca, que tem em sua concepção um impacto entre diferentes culturas do mundo inteiro.

“Desses minuetos, que são formalistas em sua estrutura, vamos para o canto sefardita, termo referente aos descendentes de judeus originários de Portugal e Espanha, e até para o coco nordestino, sempre em busca do que pode haver entre o som que emitimos e o corpo”, diz Andréia. A mistura de gêneros e épocas não é aleatória: tem a ver com a própria concepção do que é o barroco. Etimologicamente, barroco designa uma pérola imperfeita, imagem que reforça os grandes contrastes na arte e na natureza.  Exemplos para este contraste no trabalho são os melismas (mais de uma nota na execução de uma sílaba musical), presentes na música sefardita entoada por Andréia.

Janice, que volta a utilizar a voz em cena depois de anos, ressalta a importância de dançar Peças Fáceis ao lado da filha: “Na década de 1970 eu criava espetáculos muito engajados. Nos outros trabalhos com Andreia mantivemos muito esse tom político. Eu me referenciando ao período da ditadura e ela às reivindicações dos tempos atuais, como as manifestações de 2013. Nesta peça, nossa resistência política tem a ver com a celebração do afeto”, explica.

Andreia afirma que Peças Fáceis é um “festejo de resistência”, em meio a uma sociedade neoliberal que prevê apenas a desvinculação e deterioração dos laços. “Na minha família costumamos dizer que há um aprendizado artístico transversal, com trocas múltiplas de saberes”. Sobre esse aspecto, Andreia reforça a presença de Ramon Vieira – seu irmão e filho de Janice – na consultoria rítmica do espetáculo. Percussionista e cantor, Ramon apoiou mãe e filha desde o início do processo. “Aprendi pandeiro encostando no Ramon”, complementa Andreia, que toca o instrumento em cena.

Colaborações e referências

Peças Fáceis ainda tem a colaboração de Roberto Gill Camargo, diretor de teatro, dramaturgo e iluminador. Pai de Andréia e esposo de Janice, Gill trouxe à cena uma luz atmosférica, sem foco específico e que parte do branco até o âmbar.

A peça também tem as seguintes colaborações: de Helena Bastos – bailarina, coreógrafa e pesquisadora, que auxiliou no pensamento coreográfico do espetáculo, propondo novos desafios de espaço e movimento; da regente, cantora, violonista e pesquisadora Andrea Drigo, instigando potencialidades musicais distintas; da bailarina Adriana Pinheiro, que participou da primeira fase do Grupo Pró-Posição; da cantora e pesquisadora Márcia Mah; e da produtora e assistente de iluminação Paola Bertolini.

Na pesquisa para criação do espetáculo, os atravessamentos vieram desde a memória afetiva até o campo teórico. Andréia utilizou estudos sobre a mestiçagem cultural para pensar o barroco atravessado pela cultura ibérica e nordestina.

Entre os estudos, ela destaca a afirmação do poeta, tradutor e professor Amálio Pinheiro, que define mestiçagem como “uma onça alegre que se alimenta de todos esses outros (bichos, gentes, objetos) escondidos, abandonados e rejeitados”, e não como um mero cruzamento de raças. A afirmação de Amálio também ilumina a ideia modernista da antropofagia (de culturas que se devoram), conceito vivido por Janice no período inicial do Grupo Pró-Posição, em que o modernismo era um movimento efervescente no Brasil e na Europa.

A artista também se debruçou em estudos do filósofo italiano Giorgio Agamben sobre a ideia do gesto, que ele caracteriza como a “comunicação de uma comunicabilidade”. Daí as possibilidades de encontrar as harmonias nas diferenças – entre gestos dançados, gestos musicais, movimentos, habilidade musicais e disponibilidades corporais entre Janice e Andréia.

12 a 21 de maio/2017
Sextas e sábados às 21h
Domingos às 18h
R$ 10 e R$ 5 (meia)

Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque, São Paulo (SP), tel. (11) 3123-5222.

Classificação etária: livre.

Dia 18 de maio, quinta-feira, 19h, no TUSP: Conversa com Janice Vieira.

Dia 1º de junho, quinta-feira, 19h, no TUSP: workshop gratuito -  Corpo, som e silencia: dança para ouvir, com Andréia Nhur.