Fique de Olho

Yoshi Suzuki, um talento em maturação

Foto: João Caldas
Yoshi em Entreato, de Paulo Caldas
Yoshi em Entreato, de Paulo Caldas

No segundo ano de atividades da São Paulo Companhia de Dança (SPCD), um bailarino do elenco consegue chamar atenção. Em espetáculos com propostas e exigências diversas, como Gnawa, do espanhol Nacho Duato, e Entreato, do brasileiro Paulo Caldas, o paulista Yoshi Suzuki demonstra uma desenvoltura peculiar e uma presença cênica que muitas vezes atrai para ele o olhar do espectador. Aos 19 anos, esse sansei de Ribeirão Preto está dando seus primeiros passos profissionais. A densidade de interpretação ainda é um processo em estágio inicial. Mas, pelo que vem apresentando, Yoshi é talento em maturação, que pode ser sinal de um futuro promissor.

Para quem enfrentou dificuldades para convencer a família de que a dança seria sua profissão, a condição atual é uma conquista e tanto. “Já consegui provar, para minha mãe e meus avós, que fiz a escolha certa”, diz Yoshi, que ficou órfão de pai aos dois anos. Da mãe, enfermeira, ele herdou a determinação que guia suas metas. “Sou muito esforçado e centrado no que faço. Me dedico à dança com o empenho que eu teria se estivesse estudando medicina”, diz o bailarino.

Até chegar à SPCD, Yoshi trilhou o caminho típico dos bailarinos brasileiros que têm o balé clássico como porta de entrada para a dança. Desde os seis anos de idade, quando pediu à mãe para fazer balé como atividade extracurricular na escola, ele foi cultivando seu interesse pela área. De início, fez aulas de sapateado, jazz, até ingressar na escola de balé de Carla Petroni. Os avós paternos, japoneses, demonstravam preocupação. “Perguntavam se a dança, como profissão, me permitiria trazer dinheiro para casa.”

Em 2007, já com uma boa técnica de balé clássico, adquirida em aulas com professores como Ricardo Camargo, Toshie Kobayashi e Ricardo Scheir, ingressou na Companhia de Dança de São José dos Campos. No mesmo ano conquistou o título de melhor bailarino no Festival de Joinville. Logo em seguida, em busca de uma bolsa de estudos que lhe permitisse custear seu aprimoramento, inscreveu-se num concurso de dança norte-americano, o Grand Prix de Nova York. “Fiquei muito nervoso e não fui bem. Voltei para casa e decidi estudar no Conservatório Brasileiro de Dança do Rio de Janeiro. Fiquei lá uns quatro meses, até surgir a audição para admitir bailarinos na SPCD”.

Aprovado no teste, Yoshi inaugurou nova fase em sua vida e carreira. A mudança para São Paulo e a admissão na nova companhia lhe trouxe estrutura de trabalho e um salário mensal de quase R$ 5 mil (“quatro mil novecentos e alguma coisa”, esclarece). Um dos mais jovens integrantes da SPCD, ele salienta que a adaptação não foi fácil. “Eu era bailarino de festival, acostumado apenas a exibir técnica. Tinha a cabeça fechada, para mim a dança era só balé clássico, que eu também praticava sem entendê-lo como arte. Foi a cobrança da Ira [Iracity Cardoso, diretora artística da SPCD] que me fez crescer. No começo ela dizia que havia me contratado como profissional e que eu não podia mais me comportar como estagiário.”

Segundo Yoshi, a sua experiência mais marcante, até agora, foi o contato com o coreógrafo Paulo Caldas. Um dos criadores mais expressivos da dança contemporênea brasileira, Caldas trabalhou com a SPCD em 2008, quando concebeu Entreato especialmente para a companhia. “Paulo me introduziu em uma nova linguagem, me fez entender realmente o que é o movimento. Sou grato a ele”, comenta o bailarino.

Para Iracity Cardoso, Yoshi tem tudo para expandir o que já possui: excelente técnica e disposição para os desafios. “Ele é muito especial. Mergulha no trabalho e se destaca sem ser um protótipo do bailarino”, diz Iracity, lembrando que ele consegue compensar com outras qualidades a sua altura de 1,65. Disposto a se desenvolver “muito e rápido”, Yoshi salienta que está completamente voltado para a dança. “Cada diz me apaixono mais pela profissão que escolhi.”