Por: Ana Francisca Ponzio Foto: Getty Images
Merce Cunningham, sinônimo de inovação na dança, morreu no último dia 26 de julho, mas sua obra não corre risco de desaparecer. Além do plano de preservação de seu patrimônio artístico, cuidadosamente elaborado pela Cunningham Dance Foundation e já em execução, há um herdeiro do repertório do coreógrafo norte-americano que promete não medir esforços para manter vivo o legado que recebeu.
Robert Swinston, bailarino da Merce Cunningham Dance Company (MCDC) desde 1980 e assistente do coreógrafo a partir de 1992, foi escolhido no último 5 de agosto como um dos quatro responsáveis pela preservação do patrimônio artístico de Cunningham. De agora em diante, sua principal função será difundir tudo o que aprendeu com o mestre, inclusive junto a companhias que queiram remontar obras do coreógrafo. Swinston também está profundamente envolvido na transição da MCDC, que fará uma turnê internacional de despedida durante dois anos e marcará sua dissolução em um espetáculo a ser realizado em dezembro de 2011, em Nova York. Atendendo desejo de Cunningham, os ingressos dessa apresentação final deverão custar US$ 10.
Em julho, menos de 20 dias antes da morte de Cunningham, Swinston concedeu entrevista por telefone ao Conectedance. Falou sobre o coreógrafo (que já se locomovia em cadeira de rodas e havia diminuído o ritmo de suas atividades) e sua última criação – Nearly Ninety, que estreou na Brooklyn Academy of Music de Nova York em 16 de abril, dia em que Cunningham completou 90 anos.
Já sob a comoção da perda do mestre e imerso em suas novas responsabilidades, Swinston voltou a falar com o Conectedance em 19 de agosto, desta vez por e-mail. Solícito como sempre, contou que a Merce Cunningham Dance Company havia sido ovacionada por 3 mil pessoas durante uma apresentação ao ar livre no Rockefeller Park, realizada uma semana após a morte de Cunningham. “Felizmente, a Cunningham Trust, que herdou tudo o que era de propriedade da Cunningham Dance Foundation, me escolheu como um de seus membros. É muito cedo para saber como serão nossas condições financeiras de agora em diante, mas asseguro que farei tudo o que posso para manter o estúdio de Cunningham funcionando, com aulas, performances e ensaios. Estou absolutamente comprometido em buscar caminhos para difundir, preservar e compartilhar o trabalho e a técnica de Merce junto às novas gerações de bailarinos e espectadores.”
No momento, a agenda de apresentações da MCDC está sendo preenchida ainda mais rapidamente, pois vários países querem ver o grupo de Cunningham antes que suas atividades sejam encerradas. Swinston já está se ocupando das temporadas mais imediatas, na América do Norte e Europa (neste semestre, países como Bélgica, Espanha, Suíça e França já garantiram suas datas). “Gostaríamos de fazer uma turnê no Brasil”, ele diz, enfatizando que adora o país.
Num relato emocionado, afirma que todos os que trabalhavam com Cunningham estão sentindo muito a falta do coreógrafo. “É estranho não ver Merce em seu lugar habitual de trabalho, atrás de sua mesa, com papéis espalhados e um cronômetro ao seu lado. Muitas pessoas nos mandaram flores, que nós colocamos em sua mesa junto com um retrato dele e uma vela acesa, para que nos sentíssemos em comunhão com ele.”
A seguir, a entrevista concedida por Swinston, pouco antes da morte de Cunningham.
Conectedance – Merce Cunningham criou cerca de 250 coreografias. Quantas você conhece?
Robert Swinston – Eu nunca fiz essa contagem. Mas provavelmente tive contato com cerca de 80. Não sei dizer ao certo. Em contrapartida, estive envolvido em projetos históricos. Tenho consciência do repertório, do percurso histórico da criação de Merce. Estudei seu trabalho e esse estudo começou logo que ingressei na companhia.
Conectedance – Há uma criação especial, de sua preferência?
Swinston – Minha coreografia favorita é Sounddance.
Conectedance – Por quê?
Swinston – Foi a primeira peça de Merce que eu vi antes de ingressar na companhia e ela me arrebatou. Fiquei absolutamente emocionado. Felizmente tive a sorte de dançá-la quando ela foi remontada, em 1990. Até hoje nós ainda a dançamos.
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| Robert (à frente, de preto) |
| Foto: Tony Dougherty |
Conectedance – Como Sounddance se caracteriza?
Swinston – Bem, é uma dança extremamente física. Tem uma intensidade especial, única a meu ver. É movimento do corpo por completo e a coreografia impulsiona, quase obriga a esse uso total do corpo. Há muitas danças em parceria e há também um sentimento de grupo, como se o elenco fosse uma comunidade. Meu papel é quase de um catalisador, como se eu fosse o líder dessa comunidade. A música eletrônica [de David Tudor] é muito forte, extremamente vibrante, tem uma força em si. Muitas pessoas enxergam desta forma essa obra coreográfica de Merce.
Conectedance – Como Merce Cunningham trabalha hoje em dia? A intensidade diminuiu?
Swinston – Merce chegou aos 90 anos. Ele não mais trabalha tantas horas por dia como costumava fazer. Algumas semanas atrás estava dando aulas, mas ele leciona menos e também não participa tanto dos ensaios como fazia antes. Também não viaja mais conosco. Sim, a intensidade de trabalho dele é menor, mas em abril último, quando realizamos a estreia de sua última criação, ele estava bem forte. Estreamos um novo trabalho em abril, você sabe não?
Conectedance – Sim, o espetáculo Nearly Ninety.
Swinston – Correto.
Conectedance – E como é esse espetáculo?
Swinston – É uma peça de longa duração. Foi criada em quatro seções, mas é apresentada em duas partes, com um intervalo. A duração total do espetáculo, com a abertura, dura cerca de 90 minutos. Possui uma cenografia muito complexa, que foi criada por uma arquiteta [Benedetta Tagliabue]. Trata-se de uma estrutura feita de aço na qual ficam os músicos, no topo do palco e atrás do espaço onde a dança acontece. Há também um elemento de design, um vídeo [produzido por Franc Aleu]. A música é tocada ao vivo por seus três autores: Sonic Youth [banda norte-americana de rock alternativo], John Paul Jones [baixista da banda britânica de rock Led Zeppelin] e Takehisa Kosugi [compositor associado ao movimento Fluxus, que mistura artes plásticas, música e literatura, e que foi por muito tempo diretor musical de Cunningham]. A coreografia foi composta em seções diferentes, aproximadamente 22. Merce fez todas as danças desse espetáculo em pequenas seções até chegar a essa quantidade. As quatro partes que articulam a versão final foram finalizadas por meio de sequências coreográficas que Merce chamou de “sopros”, pois são muito rápidas, exigem movimentos de pés muito rápidos dos quatro bailarinos. Há muitas danças em quartetos na coreografia.
Conectedance – Como tem sido o processo de criação de Cunningham ultimamente? Ele continua utilizando o programa de computador “DanceForms” para coreografar?
Swinston – Acho que "DanceForms" não foi seu principal instrumento de trabalho para criar Nearly Ninety. Ele pode criar movimentos sem um computador e eu acho que isso ocorreu na maior parte desse novo espetáculo. Utilizar um software de computador toma muito tempo e o que sei é que, para essa peça em particular, ele não utilizou muito o DanceForms. Por outro lado, Merce sempre utiliza os procedimentos do acaso, que lhe conferem uma maneira especial de estruturar suas coreografias e de criar movimentos.
Conectedance – Você já disse que considera Cunningham um gênio. Quais são essas qualidades geniais?
Swinston – Merce tem uma maneira de criar que gera uma tremenda variedade de movimentos. Nós, seres humanos, somos limitados em nossa capacidade de movimento. Mas Merce tem a habilidade de criar infindáveis tipos de movimentos, ao mesmo tempo com uma percepção especial do espaço, que lhe permite abrir perspectivas que muitos outros coreógrafos não conseguem. Quando desenvolve uma coreografia ele lida com a estrutura do tempo e diferentes tipos de ritmo sem que a música esteja presente. Com isso, todas as estruturas são criadas somente pela dança. Não há outro coreógrafo que trabalhe dessa forma. Ele cria movimentos sem se basear em qualquer história e a variedade que ele consegue gerar é muito impressionante. Merce tem o dom de fazer com que os movimentos se multipliquem diante de nossos olhos.
Conectedance – Como é a experiência de ser um dançarino de Cunningham? Quais os maiores desafios de suas obras?
Swinston – O maior desafio é conseguir dançar as suas obras, pois são tecnicamente muito difíceis. Merce se interessa pelo virtuosismo e exige grande habilidade de seus bailarinos. Realizar os passos que ele propõe é, em si, um desafio, pois nada é fácil de fazer. É preciso também adquirir a compreensão do movimento, como controlá-lo sem qualquer suporte externo, sem música, sem qualquer ideia a não ser o movimento em si. Dançar dessa forma durante um bom tempo torna o bailarino muito autoconfiante e fortalecido.
Conectedance – Como as coreografias de Cunningham poderão ser preservadas ao longo do tempo?
Swinston – Dentro do projeto de preservação da obra de Merce, há o que chamamos de “cápsulas de dança”. Cada cápsula é um pacote digital que documenta todo o trabalho dele. Temos registros de suas danças desde a primeira década de trabalho da Merce Cunningham Dance Company. De 1950 até agora há registros inclusive das obras que não permaneceram muito tempo no repertório. Dessa forma, estamos tentando manter um arquivo vivo, que contenha todo o legado de Cunningham. Vamos tentar difundir essas informações para as próximas gerações, não só por meio de toda essa documentação mas fazendo com que outros bailarinos e grupos possam dançá-las e mantê-las vivas.
Conectedance – Por que a obra de Cunningham é sempre fundamental?
Swinston – O trabalho de Merce não é datado. O movimento é o recurso essencial de sua obra, que por isso pode ser transmitida de uma geração a outra sem perder o frescor.
Robert Swinston tem um respeito e admiração por Cunningham que são contagiantes. É sempre muito bom quando vemos pessoas dedicadas à genialidade de seus mestres e tutores.
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