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Ana Catarina Vieira e Ângelo Madureira experimentam possibilidades de linguagem que se fortalece

Por: Mauro Fernando*

Artigo de 6/11/2009

Ana Catarina Vieira possui formação na técnica clássica. Ângelo Madureira foi solista do Balé Popular do Recife. O erudito e o popular, no caso do Núcleo Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira, que apresentou O Animal Mais Forte do Mundo na 3ª Mostra do Fomento à Dança, realizada em outubro na Galeria Olido, São Paulo, mesclam-se sem que o resultado soe esdrúxulo. É o fruto de uma pesquisa de linguagem séria, iniciada em 2000 e que confirma sua evolução a cada novo trabalho.

Os dois assinam criação, pesquisa de linguagem e coreografia – a direção é de Fernando Faro –, e a montagem se propõe a discutir o espaço que a força ocupa no mundo. As cenas sugerem as batalhas cotidianas travadas nos campos da individualidade e do coletivo, o que reforçam os figurinos extraídos do dia-a-dia.

Mostrada sem trilha sonora, sem esse entorno que costumeiramente ajuda a compor a atmosfera dos espetáculos, a coreografia coloca os intérpretes sob o foco. O elenco não refuga: demonstra apuro técnico, um padrão de excelência pouco comum na dança contemporânea.

Há em O Animal Mais Forte do Mundo, no entanto, uma profusão de ações (e informações) que tangencia a redundância – o que suscita dois vértices de reflexão. Por um lado, ainda que isso enriqueça a obra, amplificando possibilidades de leitura, cria uma zona de desconforto para o espectador – o que pode ser bom, desde que ele demonstre alguma familiaridade com a proposta e se mostre disposto a abrir o olhar.

Por outro lado, esse desatar amarras e transitar por entre camadas de leitura evoca uma discussão antiga – e que diz respeito, evidentemente, a todas as esferas artísticas – sobre a interlocução do artista com a plateia. Não se trata de praticar a defesa do didatismo nem de recuar ao conservadorismo atroz.

O atrito é necessário para que se produza a faísca que, por sua vez, atiça e ilumina corações e mentes. Mas é preciso cuidado para não resvalar no hermetismo, em pesquisas que jogam o artista em um universo à parte do público, desconectando um do outro. A sintonia entre ambos é fundamental, já que a arte não pode se rebaixar ao nível de evento midiático e deixar de questionar o mundo estabelecido.


* Mauro Fernando é jornalista.

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