Nucleares, de Mariana Muniz: interpretação coerente de Oiticica
Por: Mauro Fernando* Foto: Cláudio Gimenez
Artigo de 6/11/2009
“É incrível como este corpo me limita!”, brada a intérprete. É o cerne da discussão proposta pela Cia. de Teatro e Dança Mariana Muniz em Nucleares. A montagem integrou a programação da 3ª Mostra do Fomento à Dança, realizada entre 01 e 25 de outubro no Centro de Dança Umberto da Silva da Galeria Olido, em São Paulo, e que a partir de 12 de novembro volta ao cartaz na cidade (acompanhe na Programação Brasil do Conectedance).
O prólogo no saguão da Galeria Olido, junto à bilheteria, permitiu entrever o que veio em seguida no palco. Corpos atados em tecido à procura de soluções, de uma ordem espacial que propicie o exercício da liberdade. Corpos, mesmo a evoluir soltos no linóleo, a desejar lugares privilegiados – o que remete ao conceito de Parangolé, do artista plástico Hélio Oiticica.
A sólida trajetória de Mariana Muniz aponta para uma coerência na construção do espetáculo, por ela concebido, dirigido e coreografado. Nucleares se escora em Núcleos, trabalho de Oiticica, a fim de projetar a questão dos limites impostos ao homem pela sociedade, que por sinal se espraiam por todo tipo de atividade, não apenas as relacionadas ao corpo. É possível configurar metáforas a gosto.
As texturas extraídas da guitarra de Jimi Hendrix e o samba – Carmen Miranda – inseridos na trilha sonora remetem à Tropicália de Caetano Veloso, Capinan, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Tom Zé, Torquato Neto. Veloso e Gil gravaram Wait Until Tomorrow, de Hendrix, para o álbum-celebração Tropicália 2, de 1993. Carmen (citada na música Tropicália, de Veloso) é uma das referências para a geleia geral do Movimento Tropicalista, que agitou o Brasil no final dos anos 1960.
A Tropicália dialogou com o Cinema Novo de Glauber Rocha e com o Teatro Oficina de José Celso Martinez Corrêa, mas também buscou inspiração no Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade e em Oiticica. Vem daí a coerência que costura os diversos elementos que compõem o espetáculo, incluindo cores e estampas dos figurinos.
Provocar reflexão é uma benesse que uma obra de arte pode entregar ao público. “A estética desperta nossa consciência”, e a arte “nos ajuda a suportar o peso insuportável da realidade e afrontar a crueldade do mundo”, indica o pensador Edgar Morin. Nucleares cumpre essa função, ainda que o faça sem o fulgor das obras fundamentais ou daquelas que se aproximam dessa condição.
* Mauro Fernando é jornalista.