Memória Viva

Cunningham: fonte inesgotável de conhecimento

Foto: Anna Finke
Último espetáculo de Cunningham: Nearly Ninety
Último espetáculo de Cunningham: Nearly Ninety

Sem precedentes na história da dança – e talvez das artes – o plano de preservação do legado de Merce Cunningham começou a ser colocado em prática antes de sua morte, em 26 de julho último. “Minha idéia sempre foi explorar os movimentos físicos dos seres humanos”, disse o coreógrafo quando o projeto foi divulgado publicamente, em junho, durante um encontro com a imprensa de Nova York. “Eu tento ensinar minha técnica a estudantes e bailarinos, mas de uma forma que lhes traga aberturas para a expressão individual. Gostaria que a Merce Cunningham Trust desse continuidade a isso porque dança é um processo que nunca acaba e não deve parar mesmo, pois é assim que se mantém seu frescor e vitalidade.”

Na época, foi também lançada uma campanha de obtenção de fundos, no valor de US$ 8 milhões, para financiar o plano. Quando, após a morte do coreógrafo, a Merce Cunningham Trust anunciou a escolha dos quatro curadores do projeto, foi confirmado que já haviam sido obtidos US$ 3,5 milhões, o que garantiria inclusive os salários dos bailarinos da companhia, até que ela se dissolva, em dezembro de 2010.

Além de Robert Swinston, que foi assistente do coreógrafo durante as duas últimas décadas, os demais curadores selecionados são Laura Kuhn, diretora executiva da John Cage Trust (Cage foi o principal parceiro artístico de Cunningham), Patrícia Lent, diretora licenciada da Fundação Cunningham, que passa a dirigir a Merce Cunningham Dance Company e Allan G. Sperling, advogado, membro da fundação e “arquiteto” do projeto de preservação.

A realização permanente de programas educacionais e de treinamento fazem parte do plano, que deve ter em Robert Swinston o seu principal impulsionador, considerando o conhecimento do repertório de Cunningham que o bailarino possui. À disposição do público também ficarão os arquivos digitais que vinham sendo organizados. Com as chamadas “cápsulas de dança”, estudiosos e as futuras gerações poderão ter acesso a toda a obra do coreógrafo, por meio de vídeos, músicas gravadas, projetos de iluminação de espetáculos, imagens de cenografias, desenhos de figurinos, anotações do coreógrafo e entrevistas com bailarinos e integrantes da equipe artística de Cunningham.

A administração desse patrimônio cabe à Merce Cunningham Trust, fundada em 2000 em Nova York, com a missão de promover educação e desenvolvimento artístico no campo da dança, por meio da obra artística do revolucionário coreógrafo. Um gigante das artes, Cunningham promoveu transformações fundamentais para a evolução da dança a partir do século 20. Segundo ele, os movimentos humanos têm limitações. “Mas, dentro dos limites, as variações são infinitas”, dizia.

A partir da década de 1950, Cunningham lançou inovações que, além de expandir as fronteiras da dança, passaram a influenciar gerações de coreógrafos. Acreditando na autosuficiência da dança, ele rompeu com a dependência da música para desenvolver suas coreografias. Sempre trabalhou cercado de artistas de outras áreas, começando pelo compositor John Cage (1912-1992), com o qual se associou desde o início para desenvolver novas possibilidades criativas. Artistas plásticos como Robert Rauschenberg, Jasper Johns e Andy Wharol foram alguns de seus colaboradores. No entanto, cada um criava em separado os vários componentes do espetáculo, como coreografia, música, cenografia, os quais só eram reunidos às vésperas ou no próprio dia da estréia.

Segundo um grande admirador de Cunningham, o bailarino Mikhail Baryshnikov, o coreógafo “reinventou a dança”. Para Cunningham, entretanto, o que ele fazia nada mais era do que um reflexo da vida. Os procedimentos do acaso, por exemplo, que consistiam em fazer escolhas por meio de um lance de dados ou da cara ou coroa de uma moeda jogada ao ar, refletiam os acontecimentos inesperados do cotidiano. “Na vida há sempre muitas situações determinadas pelo acaso. Levando isso aos movimentos abrem-se novas possibilidades. Ao me defrontar com situações de movimento não familiares, tenho que procurar outros caminhos e daí surgem novas questões e descobertas.”

Tais métodos, inspirados no I Ching, o Livro das Mutações da filosofia chinesa, não faziam com que Cunningham perdesse o controle da coreografia. Tampouco significavam improvisação. Os resultados de um lance de dados podiam determinar a ordem de encadeamento de diferentes frases coreográficas, se os bailarinos ficariam de frente ou de costas para determinado ponto, se as sequências seriam dançadas em conjunto ou não. Mas, uma vez pronta, a obra coreográfica permanecia fixa. Embora não tivessem um roteiro temático ou narrativo, Cunningham não considerava suas danças abstratas. “Movimentos pessoais são muito reais e seres humanos realizando coisas não podem ser considerados uma abstração”, salientava.

A idéia de Albert Einstein, de que o espaço não tem pontos fixos, também estimulou Cunningham a abolir convenções como a ação principal de um espetáculo. Em vez disso, passou a lidar com a multiplicidade de centros, com sequências coreográficas de igual importância acontecendo ao mesmo tempo. Pioneiro no uso do vídeo, que ele passou a usar em interação com a dança, também foi o primeiro a explorar os recursos do computador na criação coreográfica.

Os experimentos com a computação começaram a ser adotados na década de 1990, quando a Universidade do Canadá desenvolveu especialmente para ele o software “Life Forms”, que mais tarde Cunningham passou a chamar de “DanceForms”. Com tal recurso ele criava movimentos e sequências coreográficas por meio de uma figura tridimensional de forma humana, que podia ser movida na tela do vídeo.

Para a dança, as ideias e propostas de Cunningham são fontes inesgotáveis de conhecimento. Estudar sua obra proporciona a experiência da descoberta e do aprendizado constantes. Não importa a opção ou vertente artística dos coreógrafos que lhe sucederam, todos podem se “alimentar” no legado de Cunningham, que no entanto jamais deixou que a fama e o reconhecimento afetassem sua simplicidade, sua maneira cristalina e acessível de explicar seu trabalho. Uma de suas afirmações, hoje disponíveis em seu website, demonstra sua sensibilidade e grandeza. Para Cunningham, é preciso amar a dança com desapego. “Trata-se de uma arte que não lhe dá manuscritos para você guardar, não lhe dá quadros para serem mostrados ou colocados nas paredes dos museus, nem poemas que podem ser impressos e vendidos. Dança é nada mais do que um momento único e fugaz, quando você se sente vivo. Não é uma arte para almas volúveis.”