Memória Viva

O gênio de Cunningham continua vivo

Foto: Getty Images
Merce Cunningham (16/abril/1919 - 26/julho/2009) - Memória Viva
Merce Cunningham (16/abril/1919 - 26/julho/2009) - Memória Viva

Conectedance – Como Sounddance se caracteriza?

Swinston – Bem, é uma dança extremamente física. Tem uma intensidade especial, única a meu ver. É movimento do corpo por completo e a coreografia impulsiona, quase obriga a esse uso total do corpo. Há muitas danças em parceria e há também um sentimento de grupo, como se o elenco fosse uma comunidade. Meu papel é quase de um catalisador, como se eu fosse o líder dessa comunidade. A música eletrônica [de David Tudor] é muito forte, extremamente vibrante, tem uma força em si. Muitas pessoas enxergam desta forma essa obra coreográfica de Merce.

Conectedance – Como Merce Cunningham trabalha hoje em dia? A intensidade diminuiu?

Swinston – Merce chegou aos 90 anos. Ele não mais trabalha tantas horas por dia como costumava fazer. Algumas semanas atrás estava dando aulas, mas ele leciona menos e também não participa tanto dos ensaios como fazia antes. Também não viaja mais conosco. Sim, a intensidade de trabalho dele é menor, mas em abril último, quando realizamos a estreia de sua última criação, ele estava bem forte. Estreamos um novo trabalho em abril, você sabe não?

Conectedance – Sim, o espetáculo Nearly Ninety.

Swinston – Correto.

Conectedance – E como é esse espetáculo?

Swinston – É uma peça de longa duração. Foi criada em quatro seções, mas é apresentada em duas partes, com um intervalo. A duração total do espetáculo, com a abertura, dura cerca de 90 minutos. Possui uma cenografia muito complexa, que foi criada por uma arquiteta [Benedetta Tagliabue]. Trata-se de uma estrutura feita de aço na qual ficam os músicos, no topo do palco e atrás do espaço onde a dança acontece. Há também um elemento de design, um vídeo [produzido por Franc Aleu]. A música é tocada ao vivo por seus três autores: Sonic Youth [banda norte-americana de rock alternativo], John Paul Jones [baixista da banda britânica de rock Led Zeppelin] e Takehisa Kosugi [compositor associado ao movimento Fluxus, que mistura artes plásticas, música e literatura, e que foi por muito tempo diretor musical de Cunningham]. A coreografia foi composta em seções diferentes, aproximadamente 22. Merce fez todas as danças desse espetáculo em pequenas seções até chegar a essa quantidade. As quatro partes que articulam a versão final foram finalizadas por meio de sequências coreográficas que Merce chamou de “sopros”, pois são muito rápidas, exigem movimentos de pés muito rápidos dos quatro bailarinos. Há muitas danças em quartetos na coreografia.

Conectedance – Como tem sido o processo de criação de Cunningham ultimamente? Ele continua utilizando o programa de computador “DanceForms” para coreografar?

Swinston – Acho que “DanceForms” não foi seu principal instrumento de trabalho para criar Nearly Ninety. Ele pode criar movimentos sem um computador e eu acho que isso ocorreu na maior parte desse novo espetáculo. Utilizar um software de computador toma muito tempo e o que sei é que, para essa peça em particular, ele não utilizou muito o DanceForms. Por outro lado, Merce sempre utiliza os procedimentos do acaso, que lhe conferem uma maneira especial de estruturar suas coreografias e de criar movimentos.

Conectedance – Você já disse que considera Cunningham um gênio. Quais são essas qualidades geniais?

Swinston – Merce tem uma maneira de criar que gera uma tremenda variedade de movimentos. Nós, seres humanos, somos limitados em nossa capacidade de movimento. Mas Merce tem a habilidade de criar infindáveis tipos de movimentos, ao mesmo tempo com uma percepção especial do espaço, que lhe permite abrir perspectivas que muitos outros coreógrafos não conseguem. Quando desenvolve uma coreografia ele lida com a estrutura do tempo e diferentes tipos de ritmo sem que a música esteja presente. Com isso, todas as estruturas são criadas somente pela dança. Não há outro coreógrafo que trabalhe dessa forma. Ele cria movimentos sem se basear em qualquer história e a variedade que ele consegue gerar é muito impressionante. Merce tem o dom de fazer com que os movimentos se multipliquem diante de nossos olhos.

Conectedance – Como é a experiência de ser um dançarino de Cunningham? Quais os maiores desafios de suas obras?

Swinston – O maior desafio é conseguir dançar as suas obras, pois são tecnicamente muito difíceis. Merce se interessa pelo virtuosismo e exige grande habilidade de seus bailarinos. Realizar os passos que ele propõe é, em si, um desafio, pois nada é fácil de fazer. É preciso também adquirir a compreensão do movimento, como controlá-lo sem qualquer suporte externo, sem música, sem qualquer ideia a não ser o movimento em si. Dançar dessa forma durante um bom tempo torna o bailarino muito autoconfiante e fortalecido.

Conectedance – Como as coreografias de Cunningham poderão ser preservadas ao longo do tempo?

Swinston – Dentro do projeto de preservação da obra de Merce, há o que chamamos de “cápsulas de dança”. Cada cápsula é um pacote digital que documenta todo o trabalho dele. Temos registros de suas danças desde a primeira década de trabalho da Merce Cunningham Dance Company. De 1950 até agora há registros inclusive das obras que não permaneceram muito tempo no repertório. Dessa forma, estamos tentando manter um arquivo vivo, que contenha todo o legado de Cunningham. Vamos tentar difundir essas informações para as próximas gerações, não só por meio de toda essa documentação mas fazendo com que outros bailarinos e grupos possam dançá-las e mantê-las vivas.

Conectedance – Por que a obra de Cunningham é sempre fundamental?

Swinston – O trabalho de Merce não é datado. O movimento é o recurso essencial de sua obra, que por isso pode ser transmitida de uma geração a outra sem perder o frescor.


  • anônimo

    Robert Swinston tem um respeito e admiração por Cunningham que são contagiantes. É sempre muito bom quando vemos pessoas dedicadas à genialidade de seus mestres e tutores.

  • Luis Ferron

    Sonia Mota eu conheci e vi dançando, conheço a sua história desde antes do teatro Galpao e, portanto, só sei dessa experiência, porém, assim como a história de Pina, não posso ir além do conhecimento raso que tenho sobre Merce Cunninghan.Quem sou além de Gicia Amorin ?Seus resultados também me instigam compactuando com esta faceta: Swinston – O trabalho de Merce não é datado. O movimento é o recurso essencial de sua obra, que por isso pode ser transmitida de uma geração a outra sem perder o frescor. O movimento tem história própria, a genialidade é criar a dramaturgia certa para o discurso poético – Luis FeronBravo pela entrevista e Bravo pelo discurso histórico!!bjsLuis Ferron