Memória Viva

Pina Bausch por Sônia Mota

Por: marcelo

Foto: Maarten Vanden Abeele
Pina Bausch (27/julho/1940 - 30/junho/2009) - Memória Viva

Falar sobre a Pina!
Como colocar em palavras a arte que esta mulher colocou no mundo?
Não creio que exista comentário algum que explique uma obra de arte. Pina Bausch, ela mesma, não falava muito sobre sua dança. Aliás, ela nem sabia falar sobre sua dança – porque simplesmente ela a fazia, ela era essa dança e isso era suficiente. Assim como foram Einstein, John Lennon, Pelé, Gandhi, Chaplin, João Gilberto e tantos outros que conseguiram interferir nos confins do mundo com suas obras. Isto basta e pronto. Sejamos apenas gratos por essas pessoas existirem de quando em quando, para nos mostrar a vida por um outro ângulo e com isso nos guiar e inspirar.
Atrevo-me apenas a falar sobre como a arte de Pina se manifestou em mim – como artista e espectadora.
Como artista Pina me inspira e me faz acreditar que fazer dança faz sentido! Que é possível dançar as verdades e mentiras do ser humano. Que é possível mostrar, por meio da dança, o ser humano como gente concreta no palco. Acho genial que os bailarinos de Pina dancem vestidos de homens e mulheres!
Como público me sinto aliviada por não precisar sair de seus espetáculos sem entender o que vi, tendo que buscar explicações e conceitos para o que foi apresentado. Como espectadora saio do teatro levando comigo imagens que falam direto no meu inconsciente e no meu coração.
O que admiro em Pina como “mulher artista“ é sua capacidade de se permitir ser insegura, duvidando de sua criação minutos antes de abrirem-se as cortinas e, ao mesmo tempo, a sua capacidade de manter-se fiel a si mesma, de não ter deixado de fazer o que acreditava, apesar das críticas que sofreu no início da carreira. Admiro o fato dela ter conseguido – sendo “simplesmente artista“, sem precisar de graduações acadêmicas ou de defender teses de doutorado – poder ensinar tanta gente e enriquecer extraordinariamente o repertório da dança em todo o mundo. Mais ainda, por ter sido capaz, por meio de sua arte, de tornar a pequena cidade de Wuppertal conhecida internacionalmente!
Poderíamos comparar Wuppertal a qualquer cidadezinha “escarafunchada“ nos cafundós de nossa terra. Pois essa Wuppertal “insignificante“, que antes do fenômeno Pina ninguém sabia que existia, é hoje conhecida no Alasca, na Austrália, na África e quem sabe até na Sibéria. Foi por ter ficado no seu cantinho em Wuppertal, por não ter buscado inspiração no outro, por ter acreditado nas suas raízes germânicas e ter ido a fundo nelas, que Pina me confirmou a existência do grande dentro do pequeno.
Acho que não tenho mais do que isso para dizer. Talvez mais um pouco: aproveitar esse convite de falar sobre a Pina e agradecer a possibilidade que a vida me proporcionou de poder viver contemporaneamente a esta mulher. Agradecer à vida por ter me levado para a Alemanha e com isso ter me dado a enorme felicidade de poder, durante 20 anos, ter visto as obras de Pina ao vivo, desde Café Müller e A Sagração da Primavera, até sua última peça que estreou, como de costume, sem nome. Esta sua última coreografia me pareceu simples, despretensiosa, essencial, muito coerente com o momento que Pina deveria estar vivendo quando a criou. O espetáculo transcorre num palco branco, vazio, sem nada, só com ocasionais rachaduras no solo e com bailarinos dançando, dançando, nada mais do que belamente dançando.
Muitos dizem que Pina se repetia em seus últimos trabalhos!
Penso que quem criou algo tão significativo tem todo o direito de se repetir.
Como Manoel de Barros, eu também acredito nas coisas que se repetem – porque elas se repetem, se repetem, se repetem, se repetem, até ficarem diferentes!
Para Pina, com amor, Sônia Mota.
Belo Horizonte, 4 de agosto de 2009.