Memória Viva

Raro, impecável e imperdível

Por: Marina Guzzo*

Foto: Heloísa Bortz
Foto: Heloísa Bortz
Helena Pikon em Café Müller, de Pina Bausch - Memória Viva

Alguns acontecimentos são raros. A raridade diz respeito a coisas que existem em pouca quantidade ou que são difíceis de encontrar. Usamos esse termo como adjetivo, para definir o que é incomum, extraordinário. Ou ainda como advérbio, para expressar o que acontece poucas vezes.

Raro é como podemos classificar o programa que apresentou Café Müller e A Sagração da Primavera, do Tanztheater Wuppertal de Pina Bausch, na temporada de dança de 2009 do Teatro Alfa de São Paulo, de 21 a 26 de setembro.

A raridade desse acontecimento se dá por diversas razões: algumas óbvias e explícitas, justificáveis pela importância histórica na dança, pelo recente e chocante falecimento da coreógrafa – ou desaparecimento – como diz Peter Pabst, cenógrafo e parceiro antigo de Pina, ou ainda pela oportunidade de ver uma companhia de dança alemã se apresentar no Brasil (coisa que não acontece sempre). Outros motivos encontram-se em campos que a própria razão desconfia. Dizem respeito ao impacto estético, ao campo do sensível, à maneira como a obra nos afeta. Uma espécie de experiência extraordinária que se passa em cada espectador.

Café Müller (1978) e A Sagração da Primavera (1975) são duas importantes obras da coreógrafa alemã Pina Bausch (Solingen, 27 de julho de 1940 — Wuppertal, 30 de Junho de 2009). Elas revelam o momento específico em que a dança de Pina Bausch revolucionou as formas de fazer e apresentar dança, subvertendo estruturas que já estavam em plena transformação.

Café Müller tem inspiração nas memórias de infância da coreógrafa, que observava relações adultas misteriosas no bistrô de seu pai. Seis bailarinos expressam contradições, frustrações, desejos e buscas humanas, ao som de trechos da música de Purcell. Nas apresentações em São Paulo, não vemos o cenário original, criado por Rolf Borzik. As cadeiras e mesas e a porta giratória são as mesmas e contribuem com grande força para o impacto da obra. No lugar das grandes paredes transparentes que ficam no Teatro de Wuppertal, temos algumas estruturas de acrílico, que simulam janelas de vidros e que recriam o ambiente de uma cafeteria vazia, onde seis personagens dançam e se perdem entre cadeiras e mesas. No papel anteriormente interpretado por Pina Bausch vemos agora Helena Pikon, que possui uma similaridade física com a coreógrafa. Braços longos, corpo magro e esguio, ela no entanto não alcança a presença e força cênica de Pina.

A personagem criada originalmente por Malou Airaudo é substituída por outras duas bailarinas experientes da companhia: Aida Vainieri e Azuza Seyama. Cada uma delas dança três dias na temporada paulistana. A dança impecável e precisa de Azuza não supera, contudo, a interpretação dramática de Aida, que transborda em curvas, sentimentos inenarráveis e mesmo assim compreendidos por todos.

Dominique Mercy continua no papel que dançou e criou em 1978, mostrando a importância do tempo para a dança. Depois de dançar a peça tantas vezes, ele transmite uma sensação de conforto, uma espécie de certeza de que quanto mais se faz algo, mais um corpo se transforma e se expande em sua expressão.

Por sua vez, Nazareth Panadero corre pelo palco com uma peruca, um casaco e marcantes sapatos de cor rosa. Ela parece correr de sua própria solidão. Uma das personagens mais interessantes e complexas da obra, ela surpreende com uma dança tímida e eficaz, que transborda no silêncio.

A raridade continua na segunda apresentação da noite com A Sagração da Primavera, dançada por um grande elenco que conta com bailarinos jovens, chamados de “guests”, que geralmente são ex-integrantes da companhia ou alunos da Folkwang Hochschule. Por se tratar de uma peça com movimentos muito vigorosos, alguns bailarinos do elenco antigo não participam, dando espaço para novos corpos adentrarem no universo da dança de Pina Bausch. Foi por essa porta que a brasileira Morena Nascimento entrou no Tanztheater Wuppertal e ganhou espaço. Nos três primeiros dias das apresentações em São Paulo ela teve papel de destaque no espetáculo e chama atenção por sua qualidade expressiva, em meio à execução perfeita de todo o grupo.

A solista é também brasileira: Ruth Amarante. Sua movimentação impressiona pelo vigor e beleza. Uma das bailarinas mais maduras no palco, ela se destaca pelo percurso construído ao longo de muitos anos trabalhando ao lado de Pina Bausch.

A música de Stravinsky (1882-1971) é uma das obras sinfônicas mais importantes do século 20 e embala os movimentos convulsivos dos bailarinos, que dançam sobre uma terra vermelha, despejada durante o intervalo das duas obras. A terra, que algumas vezes atinge quem está sentado na primeira fila, causa uma imprevisibilidade na movimentação impecável dos intérpretes. Algumas vezes acontecem tropeços, que nos fazem perceber o grau de dificuldade que é dançar nessa superfície. A terra e a natureza pulsam, jorram, tremem, reverberam, dançam.

Dá para ouvir a respiração dos bailarinos de qualquer lugar do teatro e quem senta perto consegue enxergar o sofrimento dos rostos, o suor que vai escorrendo e grudando na terra. Desenhos são formados nos corpos e nos vestidos que começam brancos e terminam manchados, de acordo com a movimentação e percurso de cada intérprete. É como se esses desenhos nos corpos concretizassem o sofrimento humano, a luta pela vida.

Trata-se de uma dança que afeta, que dialoga diretamente com as pessoas em qualquer tempo, de qualquer geração. Uma dança transformadora – por sua potência de vida, sua força de comunicação. Sentimos o peso e a dimensão da obra de Pina Bausch em cada detalhe, cada pausa, cada gesto. E sentimos sua falta, na raridade que sua criação representa e na importância que tudo isso tem nos dias de hoje.


*Marina Guzzo é artista e pesquisadora da dança. Atualmente trabalha na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Campus Baixada Santista e desenvolve projetos e criações que problematizam o corpo, formas de subjetivação e a cidade.

  • Miriam Dascal

    foi muito prazeroso e interessante ler a entrevista com Carolyn Carson, conheci seu trabalho qdo veio a S.Paulo no, Carton festival , na época admirei profundamente sua dança , depois não tive mais noticias desta figura admirável, e agora esta grata e feliz surpresa de saber um pouco sobre ela, seu percurso e tudo mais. Agora meu desejo é conferir a nova coreografia com a Cia Sociedade Masculina, abs miriam

  • sergio funari

    ainda é muito dificil falar do tabalho de pina bausch… ela mesmo não falava nada.

  • Susana Prado

    Texto magnífico! Expressa com lindas palavras o sentimento grandioso que me possuiu ao asssitir o Tanztheater Wuppertal de Pina Bausch. Obrigada!

  • http://acenadadanca.wordpress.com/ Maria Carolina Bastos

    Lindo texto!

  • Ferron

    Pina, um belo exemplo de DRAMATURGA…