Memória Viva

Tanztheater volta ao Brasil em 2011

Com a morte de Pina Bausch, ocorrida inesperadamente no último dia 30 de junho, surgiu a incógnita sobre o futuro do Tanztheater Wuppertal, grupo que ela começou a dirigir em 1973 para transformá-lo em um dos mais aclamados do mundo.

Tudo indica, no entanto, que o Tanztheater vai continuar. A temporada do grupo no Teatro Alfa neste final de setembro, que começou dia 21 com ingressos esgotados, traz boas perspectivas. Dominique Mercy, bailarino que praticamente viu o Tanztheater nascer e que se projetou junto com o grupo, está assumindo a função de diretor. O cargo deverá ser exercido em parceria com Robert Sturm, que foi assistente de Pina nos últimos dez anos.

Mercy, nascido na França em 1950, é um artista raro. No palco, continua mostrando que é possível dançar cada vez melhor à medida que o tempo passa. A própria Pina tinha por ele uma admiração especial. Os dois encontraram-se pela primeira vez em Nova York (EUA), em 1972. Ano seguinte, Mercy estreou no Tanztheater interpretando Fritz, uma coreografia curta, que Pina concebeu ao som de Mahler. “Fez parte de um espetáculo que incluía obras de outros coreógrafos, como A Mesa Verde, de Kurt Joss, e Rodeo, de Agnes de Mille”, disse Mercy ao Conectedance.

Na época, Pina tentava se firmar na direção do novo grupo de dança do Teatro de Wuppertal, que enfrentou grande rejeição de público e críticos em sua fase inicial. Mercy continuou firme com Pina. Os papéis principais ele passou a compartilhar com a bailarina Malou Airaudo, também francesa. Com o tempo, Mercy e Airaudo transformaram-se em figuras emblemáticas do elenco e da obra de Pina Bausch. Tornaram-se memoráveis as participações dos dois em Café Müller, criado em 1978.

Sobre essa capacidade de expressar as verdades e mistérios de Pina Bausch, Mercy tenta explicar: “Acho que o bailarino tem de ter uma relação muito íntima, muito profunda com seu corpo. Dança implica em conhecimento do corpo, em uma conexão muito forte consigo mesmo e isso não vale somente para a interpretação da obra de Pina. Trata-se de uma necessidade, que todo bailarino tem que ter”.

Para Mercy, a continuidade do Tanztheater Wuppertal parece assunto indiscutível. Como profundo conhecedor da obra de Pina Bausch, ele tem todas as condições para mantê-la em cena. “Temos muitas anotações, muitos registros em vídeo e material de arquivo, que podem nos ajudar a remontar os espetáculos, sem contar a memória dos bailarinos do elenco, que permaneceu estável em boa parte do tempo”, ele afirma.

No Brasil, o Tanztheater Wuppertal não deve demorar para estar de volta. Emílio Kalil, produtor brasileiro que está trazendo a companhia ao país pela sexta vez, garante nova temporada em 2011. Neste ano, mesmo sem patrocínio, cuja captação também foi prejudicada por atrasos em aprovações de leis de incentivo à cultura, Kalil assumiu parte dos custos para realizar as apresentações. “A venda de ingressos garante 60 por cento do investimento necessário. Porém, eu trouxe o grupo pelo prazer de prestar uma homenagem a Pina”, ele diz.

Uma das obras que deverá compor o programa a ser apresentado em 2011 é Ifigênia em Tauris, que a coreógrafa criou em 1974 com música de Gluck. Ao que parece, não falta empenho para que a arte luminosa de Pina Bausch continue presente – inclusive nos palcos brasileiros.


  • http://vivazpsicologia.com.br HELENA MANGE GRINOVER

    Adorei, no Tanztheater os corpos são significantes, os significados brotam no sujeito espectador.helena