Pelo Mundo

Festival de Montpellier: a dança como ponto de conexão
* Por Carmen Morais

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
O dançarino Albert Ibokwe Khoza, intérprete de criação solo de Robin Orlyn.

Criado em julho de 1981, o Festival Montpellier Danse, que aconteceu de 23 de junho a 9 de julho, chegou neste ano de 2016 à sua 36º edição. Ele é fruto da parceria entre o coreógrafo Dominique Bagouet (1951-1992) e Georges Frêche (na ocasião prefeito da cidade).

Com orçamento estimado em 3,2 milhões de euros, o Montpellier Danse tem como preocupação a democracia cultural e o acesso da população local à dança.

Segundo o diretor do festival, Jean-Paul Montanari, 78% dos espectadores são da região, que após tantos anos de assiduidade desenvolveram um olhar especializado em dança.

Se por um lado o festival consolidou um público local ao longo dos anos, a programação deste ano acolheu uma constelação de artistas vindos das mais diversas partes do mundo.

Em especial, esta 36ª edição do festival se debruça sobre a questão geopolítica e convoca criações oriundas de países que margeiam o Mediterrâneo, jogando luz sobre a questão de artistas refugiados na Europa. De acordo com Montanari, há o desejo de uma reflexão sobre questões como: a situação dos países desses artistas atravessam suas criações? Como estes artistas refugiados revelam, consciente ou inconscientemente, essas problemáticas em suas criações?

Dois espetáculos, ambos solos, que pude acompanhar durante minha permanência no festival,  tocam diretamente estas questões. 

Foto: Vassilis SpyrouFoto: Vassilis Spyrou

O coreógrafo iraniano Hooman Sharif, em The dead live on for they appear to living in dreams

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  O primeiro, do coreógrafo iraniano Hooman Sharif, intitulado The dead live on for they appear to living in dreams (Os mortos continuam a viver pois eles aparecem nos sonhos dos vivos) e apresentado no Teatro Ópera Comédie, explora como a origem e a identidade de um indivíduo podem ser manipuladas e como construímos o futuro transformando o passado.

Com músicas persas, tocadas ao vivo por três músicos, o coreógrafo conta para o público trechos de sua história pessoal e a dança emerge dessa relação entre música e fala.

Em seguida, a coreógrafa sul-africana radicada em Berlin, Robyn Orlin, aborda em seu espetáculo a complexa realidade de seu país de origem. O título da criação de Orlin é especialmente longo: And so you see… Our honourable blue sky and ever enduring  sun. Can only be consumed slice by slice (Veja então… nosso céu honoravelmente azul e nosso sol constante… que somente podem ser consumidos aos poucos). O intérprete solista é o dançarino Albert Ibokwe Khoza.

Foto: Jerome SeronFoto: Jerome Seron

Cena de And so you see..., de Robin Orlyn.

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  Por meio da linguagem do vídeo, que registra ao vivo seus movimentos e amplia seu gestual através da tela que fica ao fundo da cena – tamanho cinema – Ibokwe Khoza constrói em cena um corpo lúdico, irônico, provocador e desconcertante aos olhos do espectador. Desconcertante a tal ponto que nos dez primeiros minutos de espetáculo 30% da platéia abandona a sala.

Ibokwe Khoza inicia o espetáculo sentado em uma poltrona, de costas para a platéia. O público pode observar o que acontece à sua frente através do vídeo, que mostra em um plano aproximado toda sua movimentação gestual. O dançarino negro está seminu em cena, vestindo apenas uma cueca e inteiramente embalado até o rosto por um insulfilm plástico. Aos poucos e com o auxílio de uma faca grande e pontiaguda, ele é “desembalado” pelo videomaker. Na cena seguinte, Ibokwe chupa seis laranjas de uma vez, usando novamente a mesma faca, que agora ganha também uma conotação sexual e fálica nesta cena.

Duas pessoas da plateia, um homem e uma mulher de meia-idade, são convidados pelo intérprete para secar seu corpo com uma pequena toalha, após sua “orgia” com as laranjas.

Desencadeando uma série de aparições como essas, a coreografia de Robyn Orlin aborda questões polêmicas, que mesclam humor, ironia e ludicidade.

Tanto no trabalho de Orlin quanto no de Sharif, além de questões de identidade, podemos ver também um questionamento com relação ao corpo que dança. Ambos apresentam corpos acima do peso padrão de um bailarino e pouco a pouco revelam ao espectador uma dança construída através de uma maturidade e do domínio de seus corpos.

Foto: Sammi LandweerFoto: Sammi Landweer

Para que o céu não caia, de Lia Rodrigues

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  Saindo das bordas do mediterrâneo, mas com problemáticas não menos inquietantes vemos o espetáculo da coreógrafa carioca Lia Rodrigues. Lia, que em suas criações trabalha com corpos nus, mostra neste seu novo espetáculo, Para que o céu não caia, uma dança de resistência no sentido simbólico e físico.

No início, os bailarinos, nus e com seus corpos cobertos por pó preto de café ou pó branco de farinha, circulam entre a plateia, realizando paradas em uma distância extremamente próxima ao rosto do público e olhando fixamente em seus olhos. A resistência reside em sustentar o olhar e se confrontar com essa distância extremamente íntima. Em seguida, a dança se desenvolve com uma série de movimentos vigorosos e ritmados, com todo o grupo em uníssono, numa espécie de dança tribal. Pequenos solos ganham vida e a resistência, a luta por dançar e seguir adiante, cresce aos olhos dos espectadores.

Questão de herança

Outro eixo de interesse desta edição do festival de Montpellier é a questão da herança deixada por um coreógrafo, assim que ele deixa sua companhia. O que acontece com essas equipes artísticas? Como elas se reorganizam face à ausência de seu fundador- idealizador?

Foto: KopiaFoto: Kopia

Cullberg Ballet em Figure a Sea, de Deborah Hay.

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   Uma luz sobre esta questão é dada  por outro espetáculo que pude acompanhar:  Figure a Sea,  interpretada pela companhia sueca Cullberg Ballet, com coreografia da americana Deborah Hay. Fundada em 1967 por Birgit Cullberg, o Cullberg Ballet (ou Cullbergbaletten, no título original sueco) tem como atual diretor Gabriel Smeets. Segundo Smeets, o desejo de trabalhar com Deborah Hay surge para além de uma vontade pessoal artística, mas também por reconhecer que a companhia tem reputação de precursora e por isso deveria ser uma das primeiras companhias europeias a convidar uma coreógrafa americana para assinar uma criação.

Dentro da programação do festival, este espetáculo aconteceu no Théâtre de L’Agora – prédio que em sua origem foi um convento (1357) e depois um presídio feminino (1804). Atualmente abriga o teatro e a Cité Internationale de la Danse – um lugar inteiramente dedicado à dança, que agrupa em sua programação diversas atividades ligadas ao trabalho coreográfico.

O teatro, com palco e plateia a céu aberto, através de sua arquitetura personifica a passagem do tempo e se mostra como um abrigo no coração da cidade de Montpellier.

Em Figure a Sea, são 17 bailarinos o tempo todo em cena. A movimentação é fluída e constante. O figurino, com tecidos extremamente finos e leves, aproveita a fluência do movimento dos bailarinos e o vento que penetra no teatro para deslizar pelo espaço.

O catálogo musical composto por Laurie Anderson se articula à linguagem corporal e impulsiona nosso estado de olhar e escuta.

Usando as escadarias laterais do muro do teatro como lugar possível de cena, os bailarinos rompem as bordas do palco e nos convidam a acompanhar seus movimentos celulares de animais do mar, adoçando as fortes e sólidas paredes do L’Agora.

Espetáculo de beleza única, Figure a Sea contém nada além da dança e da coreografia. E é exatamente por essa complexa simplicidade que nos faz degustar todo o prazer de ver um espetáculo, que se prolonga em nós para além do tempo físico de sua duração.

Mesmo trazendo à tona questões inquietantes e por vezes difíceis de digerir, o Festival Montpellier Danse, ainda assim, é um festival de dança voltado para um público amplo.

Permite abrir-se para a experiência de adentrar a cidade e seus espaços, fazendo com que a dança ressalte aos olhos em cada esquina. Em suma, o festival Montpellier Danse permite conectar pessoas de diferentes partes do mundo, em torno da dança e pela dança.

 

*Carmen Morais é artista da dança e arquiteta paulista.  Mestre pelo Departamento de Dança da Universidade Paris 8 Saint-Denis na França (2010), desenvolveu a pesquisa Arte e cidade: A dança in situ no contexto urbano. Em 2012 concebeu e fundou o Núcleo Aqui Mesmo, que apresenta como eixo principal a pesquisa sobre arte e espaço urbano, mais precisamente sobre a questão da espacialidade em dança dentro de propostas site-specific/in-situ. Seus projetos têm como objetivo viabilizar dança in situ, estabelecendo parcerias com artistas da dança e de outras linguagens artísticas, como arquitetura, fotografia e vídeo. Em 2015 publicou o livro A dança in situ no espaço urbano e organizou, junto com Ana Terra,  a publicação Situ (ações) – caderno de reflexões sobre a dança in situ. Ambas foram realizadas através do Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna (2013), pela editora Lince. Mais informações sobre Carmen Morais: www.nucleoaquimesmo.com