Ponto de Vista

Circar, dançar, perseverar
*Por Jussara Xavier

Foto: Cristiano Prim
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  O artista Adilso Machado denominou o núcleo criativo que fundou na capital catarinense em 2016 de Circar. O texto inaugural desse grupo explica o termo como uma redescoberta do “circo como verbo”, ou seja, como ação. O fundamento é “construir um modo de circar capaz de provocar questionamentos atuais sobre o mundo ao considerar que todas as possibilidades de perguntas e respostas acontecem no e a partir do corpo”. Tal proposta dá vida ao espetáculo de estreia da companhia, intitulado Iminência do Agora, recém apresentado no Teatro Pedro Ivo, em Florianópolis (SC). Contudo, o trabalho criativo vai além do circo e inclui a dança, contexto importante na formação e trajetória dos integrantes. Trata-se de um time de valiosos e promissores artistas profissionais: Bianca Vieira, Diogo Vaz, Eduardo Grillo, Felipe Querétte, Hanna Feltrin, Roberto Bacchi, além do também fundador e diretor, Adilso Machado.

Iminência do Agora propõe relações singulares entre circo e dança, tradição e contemporaneidade, corpos e objetos. No plano espacial, o contorno circular à cena remete tanto ao picadeiro quanto à ciranda, figura arquetípica da dança. Há, ainda, uma associação entre o baixo e o alto, explorando a elevação, não pelos tradicionais trapézios voadores nem pelas sapatilhas de ponta, mas por intermédio de uma barra de madeira e dos próprios corpos objetivados em ação. O risco físico, tão caro ao mundo do circo, é presente. Há diversos modos de malabarismo, o qual abriga as marcas dos movimentos que os objetos em cena – sacos plásticos, barra – inscrevem no corpo. Jogos de manipulação, deslocamentos verticais e horizontais flertam com o imprevisto e o acidente para criar estados poéticos. Os artistas “circam” e dançam com precisão, sob os efeitos acústicos das sacolas de supermercado. É, de fato, significativo encontrar no espetáculo o trânsito entre dança e circo contemporâneos, aproximação que vibra não somente na liberdade de manipulação de códigos artísticos, mas no incômodo com o fácil; no colocar-se em perigo não somente físico, mas estético; na abertura para uma percepção flutuante; no plano político que vai da oferta de um espaço de encontros até a elaboração de uma proposta que aposta num dizer, não mais limitado a um fazer.

O espetáculo sublinha um modo de fazer-dizer que coincide com uma realização particular de cada corpo em seu movimentar, circar, dançar. Cada corpo se constitui como efeito de seus próprios atos num processo de ressonância, modelando a si mesmo e sendo modelado pelo outro, falando e dizendo de si mesmo com o outro, construindo uma identidade (única e plural) a cada ação. Em cena, estes corpos performativos compõem situações atléticas de tirar o fôlego. O público é conduzido para uma experiência de forte intensidade cinestésica, vivenciando situações desconcertantes e muito sensíveis. Assim, a plateia é empurrada para engajar-se em uma outra relação com a temporalidade. Uma construção artística do presente como explosão de vida e suspensão do tempo cronológico. O espetáculo do Circar é uma sucessão de acontecimentos.

Foto: Cristiano PrimFoto: Cristiano Prim

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  A difícil manutenção e sobrevivência de um grupo artístico – por problemas econômicos e sociais amplos, os quais incluem a falta de recursos financeiros, a administração do tempo, a complexidade dos relacionamentos, os diferentes interesses, a gestão de problemas, etc. – culminou com a explosão de outras estruturas de sobrevivência como o formato solo ou a união momentânea de profissionais para a realização de projetos pontuais. Neste contexto de proliferação de solos, duos e projetos criativos efêmeros, é salutar encontrar um novo e vigoroso núcleo criativo, tal qual o Circar. Com sede no Jurerê Sports Center em Florianópolis, essa surpreendente companhia tem grande potencial para contribuir com a profissionalização e o incremento da qualidade do mercado das artes cênicas de Santa Catarina. Com o espetáculo Iminência do Agora, uma criação assinada pelo grupo e dirigida por Adilso Machado, o Circar demonstra ter ousadia e coragem.

*Jussara Xavier é crítica de dança.