Ponto de Vista

Crescer, mudar e permanecer: caminhos de um festival de dança

Por: Marina Guzzo*

Foto: Alexandre Nunis
Foto: Alexandre Nunis
Imagem da fachada do SESC Santos, onde a Bienal SESC de Dança se realizou de 1998 até 2013.

Para que serve um festival de artes nos dias de hoje? Talvez a resposta mais simples seja, também, a mais esclarecedora: estarmos juntos em torno de algo a ser compartilhado. No caso de um festival de dança contemporânea os encontros se fazem, às vezes pelo encantamento, às vezes pelo estranhamento de algo que só acontece “naquele” momento e “naquele” lugar.

Partilhas sensíveis, como nos avisa Jacques Rancière (2010), que proporcionam, a partir da criação de um “regime estético” – algo que pode acontecer num festival, para além de simples questões sobre o belo e o sublime – a criação de novas formas, subjetivações e modos de vida.

Em 2012, Nayse Lopez, jornalista e curadora do Festival Panorama (RJ), gravou um vídeo para o projeto Cinematógrafo, do importante Festival alkantara, de Lisboa (Portugal). Nesse vídeo, Nayse coloca interessantes questões sobre a importância de fazer festivais nos dias de hoje, sobre a idéia de compartilhamento ou “share”, em comunidades criadas em torno de assuntos que nos são comuns. Ela fala dessa potencialidade que um festival gera de nos fazer olhar para o que está sendo produzido e conversar com/sobre questões que nos atravessam, nos importam e nos transformam.

A Bienal SESC de Dança é um desses festivais que, desde 1998, contribui para encontros entre gente que faz, assiste, pensa e produz dança no Brasil (e fora dele). Já recebeu obras e artistas importantes na história da dança, entre tantos outros Win Vanderkeybus, Marcelo Evelin, Cena 11, que participaram de sua última edição, em 2013.

Cada edição da Bienal acontecia com um tema específico. Em 2000, por exemplo, a discussão proposta foi “Corpo Social: Somos Co-autores?”. Em 2004 o corpo brasileiro na dança norteou o tema da curadoria. Nas duas últimas edições (2011 e 2013) as temáticas deram lugar à diversidade da produção, sem tema específico, mas com um olhar amplo para o que estava sendo produzido no país e no mundo.

Além da mudança “temática” do festival, houve também um aumento quase vertiginoso de seu tamanho. O que antes acontecia em quatro dias passou a ocupar uma semana, com uma programação intensa de espetáculos, performances, debates, workshops.

A Bienal cresceu e, além disso, passou a alternar com outro evento realizado pelo SESC de São Paulo, o MIRADA – Festival Iberoamericano de Artes Cênicas, que para sorte dos santistas também acontece na cidade e é uma experiência igualmente intensa do ponto de vista do encontro.

Uma das consequências do crescimento em qualquer forma de vida é a mudança. Como tudo que cresce, a Bienal teve que mudar. No final do ano passado, o SESC SP anunciou a transferência do evento para a cidade de Campinas (SP).

Como artista e pesquisadora da dança, residente na cidade de Santos desde 2011 (acompanhei de perto duas Bienais na cidade e também fui uma das curadoras do evento em 2009), ao saber da notícia da mudança fiz algumas perguntas que compartilho com vocês neste breve texto: O que acontece quando um festival muda de lugar? O que fica na cidade que o acolhia? Como será a permanência em outro lugar? Que rastros ficam de tantos encontros que aqui se passaram?

Ainda sem conseguir responder estas perguntas, faço o exercício de juntar informações e refletir sobre o tema.

Depois de uma ótima conversa com Danilo Santos de Miranda, diretor regional do SESC SP, alguns pontos ficaram bastante claros: a mudança da Bienal foi uma escolha de racionalização de recursos para a instituição. “O SESC SP tem 36 unidades, espalhadas por todo o Estado de São Paulo. Não estava equilibrado termos nossos dois maiores festivais de artes cênicas na mesma cidade”, disse Danilo. A proposta é permanecer com a ação na unidade de Campinas, que foi escolhida, segundo ele, por possuir recursos, equipamentos e equipes preparadas para receber um evento como este (a unidade, inaugurada nos anos 1960, passou por uma reforma recente e adquiriu galpões no seus arredores, que aumentaram sua potência de ação). Danilo também destacou a importância da cidade, que é a segunda maior do Estado e possui uma graduação em dança (na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP).

Até a ocasião de finalizar este texto, não consegui informações junto ao SESC sobre formatos de programação, nomes possíveis ou datas confirmadas para a edição de 2015 da Bienal. Encontrei apenas uma  reportagem do jornal campineiro Correio Popular, que dá algumas pistas do que pode acontecer: programação ocupando os espaços da cidade, convocatória que receberá propostas de artistas e, ainda, mudança do período para a segunda metade de setembro.

É interessante pensar que uma nova possibilidade de ação para a dança se abre em São Paulo, no Brasil, no mundo! Um novo começo, uma chance de aprimorar o que já existe e de continuar com o que era bom.

No entanto, se a função de um festival é proporcionar que estejamos juntos e se olharmos para a cidade de Santos, especificamente, esta mudança sugere uma perda. De alguma maneira, é uma perda. A cidade, assim como os artistas da dança e a “comunidade” que se criou a partir do festival bienal, terão que se reorganizar.

Ainda ouso fazer uma observação: seria a primeira vez, em muitos anos, que a cidade de Santos teria uma gama de trabalhos interessantes para mostrar numa Bienal, desenvolvidos por artistas locais, com apoio e incentivo da própria equipe do SESC Santos e sua responsável técnica pela área de dança, Liliane Soares. O projeto Ocupação 32, por ela engendrado e que acontece desde 2012, promoveu uma série de residências artísticas, com trocas e aprofundamentos que continuam reverberando na cena local, em diferentes formatos de colaboração, resultando em obras e pesquisas potentes.

Além das ações do SESC SP, outros movimentos da cena local contribuíram para o enriquecimento dessa produção, como o Fórum de Dança (movimento político de artistas locais fundado em 2013) e o CAIS (Centro de Atividades Integradas de Santos), inaugurado em 2010 pela prefeitura e que oferece oficinas de dança. Tudo, certamente, leva um tempo para se desenvolver e gerar consequências diretas, sobretudo em uma cidade com uma política pública cultural quase inexistente – mas isso é tema para outra discussão!

Espero que esses e mais projetos possam continuar arejando a produção e o encontro artístico por aqui e, como disse o próprio Danilo Santos de Miranda, que o MIRADA receba cada vez mais a área de dança como parte de sua programação e atenção.

Dizem que mudar é bom, nos proporciona olhar para o que já foi vivido, deixar para trás o que não serve mais, abrir espaço para novos encontros. Aguardemos essa nova/antiga experiência da Bienal SESC de Dança, com o desejo de que ela tenha força para permanecer por muitos e muitos anos, proporcionando encontros dançantes e aumentando a “comunidade” e a “partilha” em torno do tema da dança e das artes da cena.

 

Ao contrário da maior parte da prática política, a dança, quando é dançada e quando é vista por um público, torna disponível, de modo reflexivo, os meios pelos quais uma mobilização é feita”. (Martin, 1998, p.6 APUD Lepecki, 2012).

 

 

Referências

LEPECKI, André. Coreopolítica e coreopolícia. In: ILHA. V.13, n.1, p.41-60., 2012. 

MARTIN, Randy. Critical Moves: Dance Studies in Theory and Politics. Durham: Duke University Press, 1998.

RANCIÈRE, Jaques. Política da arte. Tradução Mônica Costa Netto. Urdimento, Santa Catarina – Florianópolis (UDESC), v. 1, n. 15, p. 45-59, 2010.

 

 

Links citados na ordem que aparecem no texto:

 

Entrevista Nayse Lopes https://www.youtube.com/watch?v=ueTQxnDrPrc

Win Vanderkeybus (http://www.ultimavez.com)

Marcelo Evelin (http://demolitioninc.blogspot.com.br)

Cena 11 http://www.cena11.com.br/)

Bienal SESC de Dança 2000 http://ww2.sescsp.org.br/sesc/hotsites/bienaldanca/

Bienal SESC de Dança 2004 http://ww2.sescsp.org.br/sesc/hotsites/bienaldanca2004/

Bienal SESC de Dança 2013 http://bienaldanca2013.sescsp.org.br

Sobre o MIRADA http://mirada.sescsp.org.br/

Sobre SESC Campinas http://www.sescsp.org.br/unidades/16_CAMPINAS/

Sobre a Graduação em Dança UNICAMP http://www.iar.unicamp.br/corporais/dan_curso.php

Reportagem sobre a Bienal no Correio Popular: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2014/12/entretenimento/228324-bienal-sesc-de-danca-troca-santos-por-campinas.html

Sobre o projeto Ocupação 32 https://ocupacao32.wordpress.com

CAIS: http://www.santos.sp.gov.br/?q=content/40586/pr-tica-de-bal-no-centro-de-atividades-integradas-de-santos-cais-milton-teixeira

Fórum de Dança de Santos: https://forumdedancasantos.wordpress.com


*Marina Guzzo é artista e pesquisadora da dança. Atualmente trabalha na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Campus Baixada Santista e desenvolve projetos e criações que problematizam o corpo, formas de subjetivação e a cidade.