Ponto de Vista

Dança do inacabamento

Foto: Dayane Ros

Néri Pedroso*

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Logo de cara, o espectador da performance Karma, poderá se sentir incomodado: primeiro, o silêncio inaugural da apresentação e, logo depois, a fala do bailarino que apresenta a bailarina. Ele conta que a chama na intimidade de Clau em vez de Maria Claudia. Na sequência, revela que são casados, o que dá sentido à aliança de ouro que os dois usam na mão direita, um estranhamento inicial aos que tudo observam dentro da cena. É possível indagar: esse anel compõe o figurino? Já visto em cinco Estados brasileiros – RO, AC, AM, PE e PA -, o projeto Karma está em circulação pelas cidades de Criciúma, Chapecó,

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Florianópolis, Blumenau e Jaraguá do Sul.

A música só se incorpora dez minutos depois do silêncio e da fala, quando o incômodo disparador de perguntas já está instaurado: qual é o lugar da palavra dentro da dança? Quais são os limites entre o público e o privado quando a arte se associa ao movimento?

Dança explicativa, sem pretensões e sobressaltos, os dois bailarinos – Rodolfo Lorandi e Maria Claudia Reginato – atestam de imediato de que são do mundo da dança de salão. Mas não só. Os passos, os encadeamentos e o ritmo demonstram que, sim, a base é a dança de salão, o trabalho se assenta numa linguagem híbrida cuja formulação se dá na crença de que a dança é pensamento. “O movimento do corpo é o movimento do pensamento. O movimento do pensamento é movimento do corpo. Dança é poesia e filosofia, arte e ciência, é relação. A dança é uma arte que brinca com o complexo mundo das relações e como nos movemos por elas”, explica Rodolfo, numa entrevista.

Foto: Dayane Ros

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Embora com um roteiro prévio, cada apresentação se faz singularidade uma vez que segue o estado corporal e emocional do dia. O desconhecido e o imprevisível desenham a cena, o que requer plena vigilância do par um em relação ao outro. A plena percepção parece estar sobreposta ao desejo da perfeição de uma partitura possível e inexistente. Não é relevante se o passo não deu certo e a queda sinaliza ameaça. Como o mito Sísifo, pesquisa-se o eterno recomeço, a continuidade, o potencial que se gera em busca do verdadeiro para ambos. O que vasculham um no outro é a experiência, o que em incessante movimento se faz modificar a partir da interação de condições e energias orgânicas. É deste modo que essa dança deve ser vista, como inacabamento, como um regime de indeterminação e até como um modo de deslegitimar o lugar da voz e da palavra.

“Ao começar em você também começa em mim. É sobre nós e sobre você”, destacam no folder da performance. “Karma é a palavra que usamos para significar nossa dança hoje, uma representação de nós e de você. Se somos uma de muitas representações de nós mesmos, onde fica a linha que separa representação e o real e como a experienciamos?”

O casal ousa instaurar o silêncio e a fala. Em 40 minutos desregula as partilhas do espaço e do tempo. Sem pudor, revolvem no passado coreográfico e trazem de volta, meio aos pedaços, aquilo que lembram da coreografia Outrora. Se deixam tomar por outroras lembranças, fazem a dança da simplicidade, dos embates, dos abraços, da imperfeição.

O karma, situa Ronald Barthes, é o encadeamento (desastroso) das ações (de suas causas e efeitos). “O budista quer se retirar do karma, quer suspender o jogo da casualidade; quer ausentar os signos, ignorar a questão prática: que fazer?” (Barthes, 1988). Em direção a outro autor, John Dewey, podemos pensar intrinsicamente a arte como um “dispositivo de experimentação”. Para esse autor, “arte não é natureza, mas é a natureza transformada pela entrada de novos relacionamentos, nos quais ela evoca uma nova resposta emocional”.

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Um bom observador da performance Karma, portanto, perceberá que a constante remoldagem dos movimentos dos bailarinos, embora não bem executados, alcança potência na fluidez, no que é apreendido ou escapa, amálgama disforme que resulta como material expressivo. Ou, indo para outro autor, naquilo que se faz a partir da capacidade de vigilância que um bailarino mantém sobre o outro. “A palavra vigilância, escreve a autora Elena Ferrante, ficou manchada por seus usos policiais, mas não é uma palavra ruim. Contém o oposto do corpo entorpecido pelo sono, é uma metáfora hostil à opacidade, à morte. Demonstra, por sua vez, a ideia da vigília, de atenção, sem apelar para o olhar, e invoca o gosto de ser sentir vivo. Os homens transformaram a vigilância em atividade de sentinela, de carcereiro, de espião. A vigilância, porém quando bem entendida, está para uma disposição afetiva de todo o corpo, uma expansão e uma germinação por cima dele e à sua volta”. (Pag110)

Na maciez dos corpos, na voz bem formada do bailarino, na ausência da fala da bailarina, nos murmúrios que, por fim, eles compartilham, sem que o público possa decifrar, uma conversa pública porém velada. Nas composições e decomposições, nas brilhantes alianças dos dedos tudo parece se encaixar como uma narrativa amorosa que embaralha o imaginário e o real, que é capaz de mesclar passado, presente e futuro, que se debate, que é pele, dor e êxtase. É possível se pensar que essa dança estabelece analogias com o amor que fala e que não se deixa falar no submisso silêncio feminino. Ou que não permite o olho da bailarina projetado em direção horizontalizada. Por que olha tanto para o chão, por que não sorri e traz à tona o esplendor das fêmeas?

Versada na fluidez, na experiência, no que se transmuta o tempo todo, é possível que a próxima performance não traga o silêncio mencionado, que tudo pareça invertido, que nem de amor se fale. Aí, no instável, está o fulgor dessa dança com fala que dispara perguntas e conversas. Como diz, Rodolfo: “Dançar juntos e viver juntos com a sociedade à nossa volta. Trata-se de como nos movemos e pensamos esse mundo e de como isso vai entrando em novos fluxos cada vez que se atualiza em uma aparente realidade”.

* Néri Pedroso é jornalista.

 

Bibliografia:

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988, p. 53

DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010 (Coleção Todas as Artes), p. FERRANTE, Elena. Frantumaglia: os caminhos de uma escritora. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017, pp. 46 e 176

 

 

Sinopse

“Karma é experiência, a experiência cria memória, a memória cria imaginação e desejo e o desejo cria um novo karma” (Deepak Chopra). Karma é a palavra usada para significar nossa dança neste projeto, uma representação de nós e de todos. Muitas religiões acreditam na evolução da alma, na vida como passagem e aprendizado. Ao longo da história da humanidade, muitos povos demonstraram interesse em entender mundos terrenos e espirituais. A ciência busca vestígios de outras vidas, às vezes flerta com a existência de multiversos – seria o universo apenas uma de infinitas variações dele próprio? Seremos nós, uma de muitas possibilidades de nós mesmos? No mundo terreno, no espiritual, na física, na filosofia e na dança cabe questionar a realidade e crescer com a experiência, algo capaz de fazer emergir a nossa humanidade e instaurar um karma coletivo. Karma reflete sobre o início e fim dos corpos, das falas, pensamentos e ações. Ao buscar inspiração na infinitude do cosmos através das pesquisas de Sagan, perguntamos: se o universo tem mais de 13 bilhões de anos e somos os segundos finais desse tempo, é mesmo possível chegar a alguma conclusão? A livre poesia da palavra karma deflagra perguntas sobre os desejos – quais movimentos repetimos? Quais as ações cotidianas e quais palavras proferimos ou pensamos mais vezes? Karma fala de um imenso silêncio chamado universo, aborda o desconhecido e o imprevisível, reflete as escolhas e o encontro com o próprio eu através do outro, traz inspiração para o movimento no presente, passado e futuro, instaura bolhas atemporais que se expandem pelas vivências que nos guiam em cena.

 

Serviço Blumenau

O quê: Performance Karma (40 min.)

Quando: 5.11.2018, 19h. Oficina: 20h30 (1h30 de duração)

Onde: Universidade Regional de Blumenau (Furb), Sala Caixa Preta, campus 1, Departamento de Artes, rua Antônio da Veiga, 140, bairro Itoupava Seca, Blumenau

Quanto: Gratuito, ingressos 30 min. antes no local

Classificação livre / conversa ao final

 

Serviço Blumenau

O quê: Performance Karma (40 min.)

Quando: 6.11.2018, 8h. Oficina: 9h30 (1h30 de duração)

Onde: Universidade Regional de Blumenau (Furb), Sala Caixa Preta, campus 1, Departamento de Artes, rua Antônio da Veiga, 140, bairro Itoupava Seca, Blumenau

Quanto: Gratuito, ingressos 30 min. antes no local

Classificação livre / conversa ao final

 

Serviço Jaraguá do Sul

O quê: Performance Karma (40 min.)

Quando: 16 e 17.11.2018, 19h. Oficina: 17.11, 15h (1h30 de duração)

Onde: Teatro Sesc, Rua Jorge Czerniewicz, 633, bairro Czerniewicz, Jaraguá do Sul

Quanto: Gratuito, ingressos 30 min. antes no local

Classificação livre / conversa ao final