Ponto de Vista

Dança em Santa Catarina: vitalidade, resistência e novos espaços
Por Néri Pedroso

Foto: Cristiano Prim
Foto: Cristiano Prim
Cia. Lápis de Seda em apresentação no Rio de Janeiro.

Na resistência, os intérpretes criadores no universo da dança em Florianópolis (SC) moldam e modelam agendas significativas, em atuações que se coadunam com o conceito artista etc. [1]. Em breve sistematização, percebe-se em 2017 um conjunto expressivo de profissionais com pesquisa e trabalhos, quer envolvidos com companhias ou em apresentações solo, que atuam ora como bailarinos, coreógrafos, diretores, dramaturgistas, ora diretores, cenógrafos, figurinistas, produtores ou articuladores. Neste cenário desponta o Grupo Cena 11 Cia. de Dança que, embora com enormes dificuldades financeiras, usufrui de prestígio nacional e internacional. Fora isso, o surgimento de novos modos de gestão, pautados no conceito da economia solidária, e a criação de novos espaços, a Casa 431, instalada no centro, e a Garagem de Dança, no bairro Córrego Grande.

Foto: Cristiano PrimFoto: Cristiano Prim

Bailarina Karina Collaço na Csa 431, o novo espaço de dança de Florianópolis que funciona com base na economia solidária

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  Na cena catarinense, a vitalidade se verifica em propostas coreográficas consistentes a partir de atuações da Siedler Cia. de Dança, Ronda Grupo de Dança e Teatro, Grão Cia. de Dança, Cia. de Dança Lápis de Seda, Grupo Circar, Dois Pontos Cia. de DançaTeatro, Cia. South Flavor, Lucas Gabriel Viapiana e Thaina Gasparotto, Letícia de Souza e Anderson de Souza, Sandra Meyer e Diana Gilardenghi, Grupo Laut!, o coletivo Mapa e Hipertextos, além de Karina Collaço, Karina Barbi, Marina Coura, Mônica Siedler, Marcos Klann, Karin Serafin, Elisa Schmidt, Jussara Belchior, Jussara Xavier, Daniela Alves, Ana Alonso, Alexandra Klen e Ricardo Tetzner.

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  Nesse conjunto, diante da crise econômica que penaliza o Brasil, por sua singularidade neste universo – o comprometimento com a política de inclusão e o alcance de seu trabalho em 2017 destaca-se uma atuação.  Ainda pouco reconhecida no próprio meio, a Companhia de Dança Lápis de Seda oferece, por meio da dança, possibilidades de transformação social, com um espetáculo que se alinha à cena contemporânea do Estado, projeta o nome de Santa Catarina, ajuda a solidificar um circuito com uma produção realizada nos embates da ausência de políticas públicas adequadas ao setor cultural e a insensibilidade de governantes em sua maioria cegos às potências da arte ou a uma efetiva política de inclusão.

Graças à chancela da empresa Cateno, a Lápis de Seda realiza turnê nacional com o espetáculo “Convite ao Olhar”. O projeto de criação e circulação conta com o incentivo do Ministério da Cultura via Lei Rouanet. Em cinco capitais brasileiras, a companhia ocupou espaços nobres, lugares emblemáticos sob o ponto de vista da arquitetura, da memória e da cidade. Em Curitiba, na Casa Hoffmann e diante das ruínas de São Francisco; no Rio de Janeiro, a monumentalidade da praça Mauá e do Museu do Amanhã; em São Paulo, o linóleo da sala Paissandu, na Galeria Olido e, em Florianópolis, a experiência de estar no 10º Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, considerado o mais importante neste gênero no Sul do País.

 

Foto: Cristiano PrimFoto: Cristiano Prim

Cia. Lápis de Seda na Sala Paissandu, Galeria Olido, em São Paulo.

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 Agora, chega a vez da Casa de Cultura Mario Quintana, instituição de Porto Alegre ligada à Secretaria da Cultura/Governo do Estado do Rio Grande do Sul e lugar que abriga um memorial em torno do célebre poeta que morreu 1994. Graças a essa parceria, no dia 25 de julho, às 13h, o espetáculo “Convite ao Olhar” poderá ser visto na Travessa dos Cataventos e, no dia 26, às 20h30, no Teatro Carlos Carvalho.

Idealizada pelo Baobah Novas Formas de Inteligência em 2014, a Companhia Lápis de Seda é coordenada pela diretora artística Ana Luiza Ciscato no desejo de construção de um novo olhar sobre o tema da inclusão na dança e, assim, atenuar preconceitos contra pessoas consideradas deficientes. A pedagogia adota uma formação mista de jovens e adultos. Na faixa etária de 20 a 50 anos, o grupo de dez bailarinos é composto por 60% considerados com deficiência intelectual e/ou motora e 40% sem deficiência. Na diferença, a descoberta da riqueza.

Além de propiciar uma atividade artística em caráter profissional, a companhia assegura a participação ativa dos integrantes, na criação e execução do espetáculo. Desse modo, demonstra o alcance de uma obra de arte construída a partir da diversidade; estimula novas compreensões e capacidades tanto nos bailarinos quanto nos espectadores e proporciona, também, uma experiência sensorial comovente. “A intenção é evitar rotulações e conceitos limitadores, como a de uma companhia de dança de bailarinos deficientes. Lápis de Seda quer ser somente uma companhia de dança”, diz Analu. Apesar desse desejo, sabe que há muito a ser trabalhado em torno da da dança propriamente dita e da inclusão.

Nessa dança, nada de cadeira de rodas, nada de requintes no cenário ou figurino. Libertos do compromisso da perfeição, um dos paradigmas contemporâneos, corpos múltiplos preparados para o palco com linóleo ou a céu aberto, em meio à natureza, em estreito diálogo com a cidade, sua paisagem e arquitetura. Sem artifícios, o que se vê, além dos bailarinos Ana Flávia Piovezana, Aroldo Gaspar, Deivid Velho, Fabiana Marques, Gabriel Figueira, João Paulo Marques, Maura Marques, Paulo Soares, Ramon Noro e Roberta Oliveira é um cubo vazado, dois tecidos brancos que logo desaparecem, e fitas que se entrelaçam em sucessivos movimentos. Desponta o que cada um dos bailarinos traz de dentro de si, com suas possibilidades emocionais e físicas. Cheia de porosidades, a exemplo de outras, essa dança não choca, não escandaliza. No entanto, é ruminante, toca nas profundezas, revolve camadas invisíveis, a ponto de provocar lágrimas em espectadores mais sensíveis. Poucos sabem, mas o tema inicial dessa criação coletiva é a solidão de quem é especial. Capaz de mudar vidas, a do intérprete e a de quem vê, “Convite ao Olhar” penetra, gruda feito chiclete, tem efeitos residuais. A partir das tessituras de corpos marcados pela diferença, criam-se fissuras e inquietações desassossegadas. Quem é o limitado, o que dança ou o que vê?

Volitivos, líricos, os bailarinos associam a disciplina nos ensaios à pesquisa tecida na multiplicidade, que capta e valoriza singularidades e estados emocionais distintos. Apaixonados pela dança contemporânea, provocam o contemplador. Da ordem de uma evidência, o trabalho toca no inimaginável, no íntimo de cada um, naquilo que ninguém sabe, intui ou vê.

Novas estratégias e formas de gestão

Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

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  No cenário de Florianópolis, no arranjo de outros elementos interligados, importante mencionar a Casa 431, aberta durante o 10º Múltipla Dança. Localizada na rua Visconde de Ouro Preto, na praça Getúlio Vargas, está organizada em favor do pólo de dança de Florianópolis, gerida de modo solidário, ou seja, com corresponsabilidades e esforço cooperativo. Além de apresentações, oficinas, diálogos e encontros, o espaço aglutina os pesquisadores e produz novas formas de gestão e articulações entre os que vivem e investem na arte do movimento. Com um outro modelo de gestão, mas igualmente importante, está a Garagem de Dança (foto acima) que acaba de se instalar na principal avenida do bairro Córrego Grande, onde ocorrem oficinas, debates, ensaios e uma série de atividades voltadas para a dança. Marina Coura, a diretora do espaço, dedica-se ao sapateado e é a realizadora do Floripa Tap, que consolidou a modalidade de dança na Ilha de Santa Catarina com uma cena forte na região. Seu espaço no entanto é aberto à multiplicidade, está interessado em contribuir com o circuito de modo bem abrangente, o que se configura na programação. Desde julho, a Cia. Lápis de Seda se alojou no local, onde realiza os ensaios semanais e dá prosseguimentos às suas pesquisas, preparando um novo trabalho.

Foto: Marcio Henrique MartinsFoto: Marcio Henrique Martins

Cena 11 faz ocupação “Adesão ao Não Esquecimento”, dentro do Museu de Arte de Santa Catarina

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  Outro dado com frescor é a recente e inédita ocupação do grupo Cena 11 Cia. de Dança dentro do Museu de Arte de Santa Catarina (Masc). A segunda edição do Claraboia, projeto de comissionamento a artistas contemporâneos inaugurado pela instituição em maio, agora abre espaço para os bailarinos que concentram elementos que permeiam a trajetória da companhia em um espaço singular. Não se trata, de acordo com o material de divulgação, de uma possível retrospectiva da companhia. “O que está em jogo é a construção, por intermédio do projeto, de uma estratégia para agrupar, em um espaço cuja vocação é tanto tornar público o processo do grupo, quanto explorar a condição experimental da arte atual, estudos e uma ocupação que funcione como contraponto a rasura com que comumente são estabelecidas as relações do sujeito com seu entorno”, esclarece o coletivo Cena 11 que se define como “investigadores do estado de presença no espaço” e abre a “construção da obra em processo”.

“Adesão ao Não esquecimento” – performance ou construção narrativa entre o visitante do museu e os artistas, o que cabe, segundo o Cena 11, é questionar com o projeto o “que resta a ser vivido em espaços híbridos, que confundem temporalidades e atravessam o participante e os performers de maneira insólita”.

 

[1] Ricardo Basbaum, pesquisador das artes visuais, situa as práticas desse universo que se aplica a muitos outros. Fora da “formação de si como artista”, há ainda outras demandas como “escrever, falar e conversar, procurar constituir-se em grupo, publicar e editar”.[1] Agenciador de eventos e fomentador de produções, o artista, segundo ele, precisa produzir discursos, ocupar um espaço público, ter jogo de cintura para marcar posições, provocar questões, configurar polêmicas, problematizar, intervir, mediar interesses, criar mecanismos de circulação. “Esta movimentação para fora de si não deixa de ser uma condição do próprio exercício do gesto poético, que foge do loop narcísico e busca hospedagem no corpo do outro – espectador, audiência, público…” BASBAUM, Ricardo Roclaw. Manual do artista-etc. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2013, p. 22.