Ponto de Vista

Dança permeada por afetos, memória e cidade
Por Néri Pedroso*

Foto: Pedro Alípio
Foto: Pedro Alípio
Sem Título, solo de Sandra Meyer em que ela revisita a memória do pai, o consagrado Pintor dos Galos, o artista Meyer Filho.
Foto: Pedro AlípioFoto: Pedro Alípio

O que é estar aqui?: ação de dança nas dunas da Lagoa da Conceição.

Clique para ampliar

     Com a chancela do Edital Elisabete Anderle/2014, do governo do Estado de Santa Catarina, o projeto Corpo, Tempo e Movimento em Seis Ações de Dança, realizado entre maio e julho, em Florianópolis, propõe o entrelaçamento entre trajetórias de vida, contexto social, a história da dança e a cidade.

Criação coletiva entre Diana Gilardenghi, Milene Duenha, Paloma Bianchi e Sandra Meyer, as composições entrecruzam temporalidades e vestígios do passado e do presente, tendo como intérpretes duas pesquisadoras consagradas, ícones da dança contemporânea do Estado, Diana e Sandra. Nascidas em 1957, elas apresentaram respectivamente as primeiras ações no Teatro da Ubro, na Ponta do Coral e no largo da Alfândega. No Memorial Meyer Filho, o público apreciou Sem Título, um solo de Sandra; Greta, o solo de Diana, numa casa abandonada no centro. A última ação, no dia 2 de julho, aconteceu nas dunas da avenida das Rendeiras, na Lagoa da Conceição, onde as pessoas foram convidadas a pensar “O que É Estar Aqui?”. 

Também bailarinas, pesquisadoras da dança e integrantes do coletivo Mapas e Hipertextos, Milene e Paloma revelam nesta entrevista um pensamento refinado, que abandona a tradição do que se espera de um espetáculo de dança. Além disso, comentam resultados, aproximam dança e política, revelam a riqueza e as aflições comuns no exercício da criação coletiva. Muita conversa, respeito, escuta e ponderação, o emblema do projeto, resultam na construção de um momento significativo na dança contemporânea de Santa Catarina.

Foto: Pedro AlípioFoto: Pedro Alípio

Da esquerda para a direita: Paloma Bianchi e Milena Duenha.

Clique para ampliar

  Conectedance Vocês assinam a articulação, a criação e a concepção do projeto Corpo, Tempo e Movimento – a maior parte realizada no espaço público, a céu aberto. Fora isso, as duas intérpretes Sandra Meyer e Diana Gilardenghi têm 59 anos. Como situam a origem desse pensamento?

Milene Duenha – Tudo começou em uma conversa entre eu e Paloma, quando assistíamos Diana em um dos ensaios do coletivo Mapas e Hipertextos. Observamos a potência do gesto de Diana e discutimos o quanto um corpo experiente em dança pode carregar a própria história da dança no gesto. Paloma fez a mesma observação em relação à Sandra, e passamos a imaginar como poderia ser interessante um encontro entre as duas. Eu duvidava que elas aceitassem. A resposta veio com um olhar brilhante, e ao mesmo tempo desconfiado. Sandra disse que aceitaria se não fizéssemos um espetáculo, mas algo mais parecido com conferência dançada. Daí a configuração da proposta de desenvolvimento de seis ações em dança, algumas baseadas pela noção de site especificidade que é, basicamente, a criação a partir da relação com o espaço. A intenção era a de desestabilizar um pouco a noção de espetáculo e de passividade do público. Fomos surpreendidas em vários sentidos, pelos diferentes ambientes, suas histórias e demandas, pelo tamanho que a produção ganhou diante de tantas ideias e dinheiro escasso, e principalmente pelo fato de nos relacionarmos com duas profissionais de grande experiência, o que nos provocava constantemente e nos dava lições diárias sobre disponibilidade e abertura na criação em arte em uma relação radicalmente horizontalizada. Diana e Sandra são importantes referências da dança no país, há uma grande diferença de idade entre nós. Além disso, Sandra é nossa orientadora no doutorado, ou seja, eu e Paloma propomos um trabalho a duas artistas que poderiam não confiar em nós, não aceitar ideias e ocorreu justamente o oposto, tudo era decidido coletivamente, não havia opinião irrelevante. A humildade das duas é um grande exemplo para todos. Tem sido uma grande oportunidade de aprender sobre convívio, respeito e amor.

Paloma Bianchi – Não queríamos fazer espetáculos nos moldes tradicionais da dança, mas que seriam ações em dança. Queríamos sair da lógica normativa do que se espera de um trabalho de dança e queríamos que ele tivesse relação com a cidade, no sentido de que a dança e os espaços urbanos se autoengendrassem. Por quatro meses passamos por muitos cantos da cidade, tentando deixar que cada lugar nos indicasse os caminhos que tomaríamos.

Conectedance Criação coletiva entre quatro pessoas, além de vocês, as intérpretes Diana e Sandra. Como se deu essa aventura?

Milene – Eu, Paloma e Diana integramos um coletivo que tem em média sete pessoas desenvolvendo um processo criativo. É sempre caótico, nunca garantimos que nosso desejo seja totalmente contemplado, é necessário abrir concessões, aprender a ouvir e aceitar as ideias uns dos outros. Não é simples, nem fácil, cada decisão é tomada em grupo, diante de muita conversa, escuta e ponderação. No Corpo Tempo ocorre o mesmo, porém, eu e Paloma estamos no lugar de quem vê e dá retorno a partir de nossas referências e afetos. Há bastante sintonia e cumplicidade entre as quatro, e também confiança por parte de Sandra e Diana. É um encontro entre pessoas que não acreditam em modelos hierárquicos de relação.

Paloma – Eu me pergunto como uma criação em arte pode não ser coletiva! Não saberia trabalhar de outro modo. Tudo que fizemos só conseguimos realizar porque primeiramente há muita confiança e respeito entre nós. Somos muito diferentes e temos forte personalidade, algo que potencializou o trabalho pois cada escolha era debatida e discutida, cada uma de nós traz um olhar sobre aquilo que queremos realizar. Uma negociação constante, muito instigante.

Conectedance Como é possível definir os resultados da proposta de entrelaçar trajetórias pessoais, contexto social e história da dança de Santa Catarina com Diana Gilardenghi e Sandra Meyer?

Milene – Penso que Sandra e Diana tem muito a dizer/dançar, elas são exemplos de vida na arte para todos nós, e assumir isso me pareceu uma forma coerente de dividir com as pessoas essa impressão que eu e Paloma tínhamos inicialmente. A parte mais difícil é descobrir, diante de um grande acervo de ideias, movimentos, histórias e pensamentos, como montar esse quebra-cabeça. Fomos nos baseando pelos nossos afetos, pelas tentativas e descartes, até chegarmos a proposições que mantinham um caráter sincero, uma coerência interna. Mas muito se descobriu na relação com o público.

Paloma – Não sei se consigo definir resultados… Sabemos que o pessoal é social e é político.  Tentamos descobrir modos de revelar essa codeterminância. Fomos guiando, como disse a Mi, por aquilo que nos afetava e também nos dizia respeito, quando encontramos um comum. Aí era trabalhar exaustivamente para revelar o comum de um modo que fosse potente.

Concetedance – Em dois meses, o projeto realizou um espetáculo, uma intervenção urbana, uma infiltração, dois solos, uma proposição e uma conversação (encontro). O que foi mais potente? Imaginavam que alcançariam essa repercussão?

Milene – Devemos ser mais moderadas nas decisões de um próximo projeto, esse nos fez trabalhar seis vezes mais do que em algo mais convencional de montagem de espetáculo. Seguimos nossos desejos e pensamentos em relação aos modos de se fazer e entender a dança atualmente, e isso teve um preço. Costumo brincar dizendo que é tão difícil  conseguir financiamento para projetos de arte que, diante de qualquer chance, colocamos todas as ideias em prática de uma só vez. Era muito desejo de inventar formas de fazer e de apresentar a dança, daí essa intensidade. Se o público se contagiou de algum modo dessa nossa fome de arte, de empolgação, isso já pode ser considerado um bom resultado.  A princípio consigo identificar que temos um público carente de arte, que quer dança. Resta-nos continuar a fazê-la. Espero que tenhamos a chance, que o quadro político-econômico deixe de ser um entrave.

Paloma – Cada uma das ações traz um tipo de potência diferente e isso foi uma escolha, não um acaso. A primeira ação diz muito sobre o métier da dança, revela quem faz dança, como faz dança e tenta evidenciar os atravessamentos que há nessa forma de arte. A potência está nesse jogo. Na ação dois trabalhamos muito sobre o espaço escolhido, a Ponta do Coral. Deixamos que o lugar “falasse” sobre o que poderíamos fazer ali, acho que a potência está na maneira que escolhemos de evidenciar aquele espaço. Na terceira ação, a potência está no encontro com os transeuntes e a ativação de uma memória muitas vezes esquecida do mar que não está mais lá. Não é uma ação para ser assistida pelo público, mas vivida no encontro. Os dois solos têm muito da potência das duas artistas: Diana e Sandra.  Uma potência imanente. E na última ação, a proposição, a potência se evidencia também do jogo com o espaço, mas dessa vez, tentamos manusear o espaço o menos possível, tentamos deixar a agência na mão de quem vai lá para estar conosco.  Esse trabalho foi feito com muito amor, muito desejo, muita verdade e muito, muito, muito trabalho e envolvimento da equipe toda: nós quatro, Gabriel [Campos], nosso anjo produtor, e Alice [Assal], nossa fada figurinista. Talvez seja por isso essa repercussão que você aponta.

Foto: Néri PedrosoFoto: Néri Pedroso

Dança Coral, intervenção urbana que estabelece articulações entre dança e política

Clique para ampliar

   Conectedance – Pelo inesperado e pela beleza, ganhou repercussão a ação 2 Dança Coral realizada na Ponta do Coral, onde a paisagem, o mar, se incorporam ao trabalho de um modo nunca visto. A intenção inicial era aproximar dança e política?

Milene – A Ponta do Coral me provocou muitos deslocamentos. Sempre tive medo de entrar naquele ambiente por diferentes motivos, porque há uma placa alertando que é propriedade privada; porque sou mulher, por ser um local inóspito para uma exploração solitária; porque é poluído; porque não gosto de entrar em mata fechada; enfim, tinha muitas razões para aceitar esse desafio. Fomos em grupo (quatro mulheres), falamos com os pescadores e moradores do local, conhecemos sua história e contradições e nos perguntamos: como fazer dança nesse lugar de modo a escutá-lo? A repercussão do trabalho foi efeito da tentativa de uma escuta atenta, não impositiva do ambiente (estudei isso no mestrado, orientado pela própria Sandra). Não queríamos apresentar uma dança “bonita” que Sandra e Diana podem realizar, mas uma dança possível na relação estreita com as contradições daquele lugar. Nosso bailarino não poderia ser outro que não o Maicon Floripa, órfão do abrigo incendiado ali próximo, e ainda habitante daquele lugar. Não queríamos transformar o espaço em local para nossa apresentação, mas apresentar esse local por meio de nossa ação nele/com ele, em um ato composicional e não interventivo. A aproximação entre dança e política poderia ser lida pelo fato de ocuparmos um espaço polêmico para a população, devido a questões da especulação imobiliária, à evidência de sua poluição e no contraste entre sua beleza e sujeira. Particularmente, me interessa pensar o lugar da dança e do artista na sociedade, e nesse sentido talvez a questão política esteja mais evidente na problematização da dança, nos seus modos de criação, colocando em xeque o que sabemos (ou achamos que sabemos) fazer. Eu não sabia o que encontraria na Ponta do Coral, atravessei o mato, os medos, e me senti obrigada a dançar com aquele lugar.

Paloma – A dança sempre é política. Ela às vezes pode ser reacionária, alienada, mas sempre é política. Quando decidimos habitar a Ponta do Coral, optamos por trazer as questões políticas sem sermos panfletárias. Todo mundo, ou pelo menos uma grande parcela da população, sabe dos problemas políticos, econômicos, ecológicos e sociais da Ponta do Coral. Então criar um trabalho com tom de denúncia nos pareceu redundante e fora de nosso escopo de atuação, já que há grupos com um trabalho comprometido com ações específicas. Na ação 2, Dança Coral, trouxemos essas questões de forma enviesada, ao mesmo tempo clara. Optamos por manter aquele espaço como ele está, sem podas de mato, sem limpar os entulhos acumulados. Colocamos duas sereias mutantes dançando na parte em que a água é mais suja. Trouxemos a memória do abrigo de menores que havia lá e que foi incendiado, na década de 1980, por conta da especulação imobiliária, quando o artista de rua Maicon Floripa dança para o público. O Maicon foi um dos menores que morou no abrigo, e mesmo depois de incendiado, ele permaneceu morando lá em uma barraca que montou na Ponta do Coral. O barco usado é do pescador Olice Teotônio Carpes, que também foi o barqueiro naquele dia. Essa ação é política não só porque transitamos por lá e discutimos poeticamente as questões daquele lugar, porque fizemos questão de incluir a comunidade no trabalho. A ponta não serviu de cenário, ela, e tudo que há nela, que fez surgir a dança que propomos lá. Aquela dança só poderia ocorrer naquele lugar, com aquelas pessoas. Pra mim, isso é o político da nossa ação, e isso que o que mais me comove e emociona nesse trabalho.

Conectedance – Há um diferencial entre dois cenários de dança em Santa Catarina, pensando Joinville e Florianópolis. Enquanto o Norte do Estado aposta num modelo competitivo e de grande porte, o festival, Florianópolis tem iniciativas mais discretas mas que resultam num singular momento da dança contemporânea, com cerca de 15 grupos, incluindo aí companhias, coletivos e artistas em atividade solo. Em comparação, como analisam o panorama?

Paloma – Há diferenças, sim. Joinville está mais atrelada ao balé clássico, devido ao Bolshoi. Floripa, de modo geral, tem mais artistas da dança contemporânea. São modos diversos de pensar e de fazer dança, nenhum é melhor que outro, são só diferentes. Mais interessante pensarmos no que nos une do que daquilo que nos diferencia. Estamos em um Estado em que não há graduação em dança, em que quase não há incentivo público para esse tipo de arte. Não existe uma secretaria estadual exclusiva para a cultura! Não que uma secretaria de cultura iria resolver os problemas, mas deixa claro que relação o governo tem com a cultura. O esforço para existirmos como artistas, como classe artística, é imenso! Esse é o terreno comum que habitamos, um terreno árido que requer luta, persistência e resistência para que possamos continuar a fazer dança, a ensinar, e refletir sobre a dança. As diferenças são estimulantes, nos fazem mover, sair do lugar de conforto. O que há de comum são os nossos problemas e deficiências; isso pode nos unir como classe trabalhadora, no fazer em dança e no ensino de dança. Ao invés de nos contrapormos em relação aos estilos, devemos nos juntar na busca de uma ação política comum.

Milene – Minha resposta só pode ser: “Graduação em dança já!” O dançar e o pensamento sobre ele só podem ganhar expansão se houver meios para isso. Os festivais competitivos vão continuar sendo competitivos se seus moldes não forem questionados, se não tiver força de resistência, esclarecimento em relação ao seu papel no reforço a um modelo meritocrático de sociedade. Isso está totalmente ligado à questão pedagógica da dança. No passado, esses festivais se mostraram um espaço para o encontro entre os bailarinos e profissionais da dança, porém hoje há muitos outros meios de produção de festivais. O poder público que decide o tamanho da verba destinada aos eventos do Estado pode não ter essa consciência, mas se os artistas, produtores e organizadores o tiverem, outros modos de pensar um festival podem ser instaurados. Há muitos profissionais da dança interessantes em festivais competitivos, e que já os questionam, mas o problema econômico parece um fator que atravanca os processos. Percebo que aos poucos isso vem ganhando pauta, e acredito que teremos avanços se tivermos caminhos para conhecer modos de fazer/pensar arte que não somente os permitidos pelos jargões institucionais e financeiros. Não se trata de colocar em discussão um ou outro estilo de dança, medir a pertinência da dança clássica, da dança folclórica, da dança contemporânea, mas de pensarmos pedagogicamente seu papel e sua responsabilidade na formação do indivíduo, seja em uma escola de dança ligada ao governo, seja na academia perto de casa, seja na universidade. A universidade ainda nos falta.

*Néri Pedroso é jornalista.

Foto: Clara MeirellesFoto: Clara Meirelles

Narrativas entre Dois Corpos: afetos, memória, histórias de vida e de dança.

Clique para ampliar

Foto: Pedro AlípioFoto: Pedro Alípio

Greta, o solo de Diana Gilardenghi, numa casa abandonada no centro de Florianópolis

Clique para ampliar