Ponto de Vista

Múltiplas escritas: reinventando a pertinência crítica

Foto: Divulgação
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Cena do espetáculo Flightless, do bailarino e coreógrafo espanhol Elías Aguirre, que participa do Múltipla Dança 2016.
Foto: Karin SerafinFoto: Karin Serafin

Anderson do Carmo

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  Em 2016, o Conectedance realiza uma parceria importante e inédita com o Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, dirigido em Florianópolis (SC) por Marta Cesar, que neste ano chega à sua nona edição.

Esta conexão acontece por intermédio de uma instigante e inovadora plataforma de textos críticos: Múltiplas escritas: reinventando a pertinência crítica, concebida e coordenada pelo artista e pesquisador Anderson do Carmo (foto). Após o encerramento do festival Múltipla Dança, em 29 de maio, o Conectedance publicará todos os textos produzidos a partir da programação do evento – de autoria de Anderson, Jussara Belchior, Everton Lampe e Ines Saber (leia abaixo as biografias dos autores).

A plataforma de textos Múltiplas escritas foi pensada em formato experimental, com o objetivo de deslocar o protagonismo da opinião do autor para o acontecimento crítico em si. Tal proposta é guiada pela percepção de uma perigosa tendência nas estruturas acadêmicas e jornalísticas da reflexão, segundo Anderson do Carmo: “fazer uso das obras de dança para dar a ver ideários previamente instituídos que – concretamente – não pensam arte, mas parasitam suas discussões para delas servirem-se”.

Apresentação do Múltiplas escritas: reinventando a pertinência crítica. Por Anderson do Carmo

A plataforma de produção de textos críticos Múltiplas Escritas retorna em 2016 ao Festival Múltipla Dança, intensificando sua proposta dialógica: entendida como telefone-sem-fio conceitual, busca desencadear uma rede de escritas a partir de um texto inaugural.

Na primeira edição da plataforma, em 2014, o desencadeador do projeto foi um texto crítico de Anderson do Carmo em torno da apresentação veiculada no programa impresso do festival, com redação assinada pelas curadoras Jussara Xavier e Marta Cesar.

Em 2016, uma residência toma lugar antes do início do evento, reunindo participantes para formar uma equipe coordenadora e condutora, responsável pelas chamadas, convites e orientações dos textos, que serão redigidos por aqueles que desejarem escrever sobre alguma das atividades da programação do Múltipla Dança. A proposição desta estrutura aposta na necessidade de diálogo e debate para uma produção crítica, focando na construção de sentidos coletivizados a serem partilhados, em lugar da reprodução de opiniões previamente estruturadas. 

A parceria estabelecida em 2014 entre o Festival Internacional Múltipla Dança e o artista e pesquisador Anderson do Carmo, é retomada em 2016 na plataforma crítica Múltiplas Escritas. O formato do projeto é próximo do funcionamento da brincadeira de telefone sem fio: o texto curatorial é tomado como o primeiro “cochicho” dado em uma das pontas da linha formada pelos autores; o discurso aí identificado é criticado pelo coordenador do projeto num segundo texto enviado a outros escritores, cada um deles responsável por iniciar as reflexões críticas em um dos eixos constituintes da programação (espetáculos, intervenções, oficinas, diálogos, vídeos, publicações); esta segunda leva de escritos é enviada a novos autores e o mesmo procedimento se repete até o final da programação, quando os últimos textos de cada um dos eixos voltam para os autores iniciais para a escritura coletiva de um fechamento.

Essa volta, no entanto, não pretende verificar quais dos questionamentos iniciais se mantém até o final do percurso, mas perceber quais intensidades críticas se articulam entre os textos, em seus espaços de proximidade e distância, nos pontos de polifonia e não de falas hegemônicas, nos modos pelos quais se tratam as divergências de entendimento.

O formato experimental da plataforma Múltiplas Escritas é pensado no sentido de deslocar o protagonismo da opinião do autor para o acontecimento crítico. Procura-se, assim, estabelecer uma produção crítica tutelada pelas questões NAS obras de dança percebidas e DAS obras de dança emergentes, por se perceber nas estruturas acadêmicas e jornalísticas da reflexão uma perigosa tendência: fazer uso das obras de dança para dar a ver ideários previamente instituídos que – concretamente – não pensam arte, mas parasitam suas discussões para delas servirem-se.

Múltiplas Escritas quer, mais que tudo, criticar as próprias ferramentas críticas.

Anderson do Carmo propõe uma inversão epistemológica: não reflete as obras de dança a partir dos parâmetros críticos, mas sobre o fazer crítico a partir dos parâmetros das obras de dança. A exploração poética contida nesta inversão procura perfurar e atravessar o discurso político estabelecido na fruição de dança, alargando as possibilidades da reflexão escrita: se a arte se tornou crítica, talvez seja proveitoso que a crítica se estetize.

Parceria Conectedance: Depois do sucedido ao longo do evento, os autores são convidados a sintetizar suas experiências em um novo texto reflexivo, não mais focado em um evento específico, mas em eixos temáticos transversais, abordados em quatro textos.

 

Biografias dos autores

 

 Anderson do Carmo é artista e pesquisador da dança. Licenciado e Bacharel em Teatro e mestrando do PPGT-UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), integra entre 2010 e 2016 o elenco do Grupo Cena 11 Cia de Dança. Trabalha também com o coletivo Génos, Milton de Andrade e Marcela Reichelt. Dirige A saudade é como líquido que transborda, ou, para Teresa (Prêmio Funarte Klauss Vianna 2011) e assiste Sandra Meyer na direção do documentário Limiares: Anderson João Gonçalves (Prêmio Catarinense e Municipal de Cinema). Desde 2012 se dedica à escrita sobre processos e obras artísticas contemporâneas em formatos de crítica, artigos acadêmicos e ensaios. Atualmente se dedica à direção do projeto solo Sobre anseios e vontades, de Letícia de Souza (Prêmio Funarte Klauss Vianna 2014), e à dramaturgia do solo Peso Bruto, de Jussara Belchior (Programa Rumos Itaú Cultural 2016). Escreve mensalmente para o Jornal Notícias do Dia.

Jussara Belchior é bailarina do Grupo Cena 11 e mestranda no PPGT-UDESC (Universidade Estadual de Santa Catarina). Procura refletir sobre as dimensões formativas e pedagógicas, referentes ao treino no campo da dança contemporânea, mirando as oficinas da programação do Múltipla Dança: como recriar as compreensões de rigor técnico sem alienar os corpos que dançam? Como intensificar – a partir dos encontros – as reconstruções e atualizações inevitavelmente operantes nos corpos artistas?

Everton Lampe é artista em rede e pesquisador interessado em práticas transversais – atentas aos processos de subjetivação e aos modos colaborativos possíveis no campo da dança, mapeando discursos e articulações que constituem a dança como campo de conhecimento. O caráter político das interferências detonadas pela arte é de especial interesse em suas propostas.

Ines Saber é artista integrante do coletivo Mapas e Hipertextos e acadêmica de formação e ação ramificada entre dança, letras, vídeo e teatro. Propõe uma mirada sobre a noção de linguagem e faz uso de seus variados interesses para atravessá-la com questionamentos em relação ao seu encerramentos em códigos. Como uma linguagem – a dança – recria seus modos de existir ao atritar-se e fazer-se porosa ao contexto em que se dá?