Ponto de Vista

Múltiplas escritas: reinventando a pertinência crítica
Texto de Anderson do Carmo: A dança é uma epistemologia
 

Foto: Clara Meirelles
Foto: Clara Meirelles
Nosotros estamos aquí, de Olga Gutiérrez

O texto a seguir, do artista e pesquisador Anderson do Carmo, integra a plataforma Múltiplas escritas: reinventando a pertinência crítica, coordenada pelo autor (saiba mais clicando ao lado).

Em 2016, o Conectedance passa a publicar os textos do Múltiplas escritas, produzidos durante o Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, dirigido em Florianópolis (SC) por Marta Cesar. Esta conexão cria pontes entre artistas, pensadores e todos os que contribuem para a produção e o fomento à dança no Brasil, com a perspectiva de gerar reflexões, intercâmbios, estímulos à criação e ao fazer cultural.

 

A dança é uma epistemologia

Por Anderson do Carmo

  

Cinco desafios preliminares:

1) Deixar de explicar peças de dança a partir de um território intelectual, que se procura defender mesmo tendo sua aderência já gasta;

2) Responder perguntas que peças de dança fazem e assim instaurar uma deriva reflexiva, capaz de demolir e reerguer conceitos em função das obras;

3) Estar avisado de que deixar um território que se habita ser invadido, ocupado e reformado não é fácil;

4) Estar ciente de que nenhuma resposta será definitiva, nem mesmo a que diz que nenhuma resposta será definitiva;

5) Reinventar a pertinência da crítica. 

Uma escrita que é vestígio de um corpo

   A dança contemporânea – não aquela compreendida como estilo, mas sim a que se questiona sobre os próprios modos produtivos e passa a criar novos modos de existência – assumiu com considerável eficácia a função crítica. Dizer isso é dizer que – em determinados contextos – a crítica deixou de ser uma opinião especializada expressa depois da apresentação de uma obra, para ser uma prerrogativa de criação de obras.

O que restaria então ao crítico? Se em algum nível o artista assumiu a produção de críticas dançadas, ao crítico poderia calhar bem assumir a produção estética, a produção – ou a chamada de atenção para a experiência de sensações. A proposição pode parecer ingênua num primeiro olhar. E talvez até o seja.  

No entanto, se a interpretação de sentidos foi substituída por uma criação de sentidos partilhada entre artistas e espectadores, o crítico, sendo espectador (supostamente) especializado, teria (ou deveria ter) ação desbravadora ao apresentar, analisar e atravessar sensações e sentidos nele – em seu corpo – operantes. A questão seria, portanto, colocar o corpo no texto, dar carne à escrita, fazer de uma crítica vestígio da experiência do corpo ao fruir a dança. Fazer da crítica versão em outra materialidade – a do texto – da dança.

A partir da hipótese de que um texto crítico tem a possibilidade de fazer uma obra voltar a acontecer mesmo depois de encerrada a sessão, os próximos fragmentos de pensamento se propõem a dar a ver os modos de produzir conhecimento articulados por algumas das peças apresentadas no 9º Festival Internacional Múltipla Dança. Conforme proposto por Ines Saber no texto anterior dessa mesma série, a dança contemporânea é uma epistemologia, um modo de conhecer e – principalmente – um modo de conhecer conhecimento(s). O que as epistemologias a seguir visitadas propõem para o momento-lugar em que nos encontramos?

 A beira-mar, o centro antigo, o parque do continente: qual é o lugar da dança na cidade? 

Foto: Clara MeirellesFoto: Clara Meirelles

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O gesto que singulariza o Múltipla Dança de 2016 é o de intervir na urbanidade. São quatro danças que decidem não ocupar espaços convencionais para instaurarem suas mobilidades e, dentre elas, Dança Coral (Diana Gilardenghi + Sandra Meyer + Milene Duenha + Paloma Bianchi), Movimento Público (Olga Gutiérrez + artistas de Florianópolis) e Parquear (Dorothé Depeauw + Karina Collaço + Margo Assis + Thembi Rosa) não usam a cidade como palco para sua dança, mas usam sua dança como ato de reinvenção da relação com a cidade.

A sutil diferença é de vigoroso efeito. Na ordem que foram fruídas por este que escreve – ordem, portanto, proposta pela curadoria de Marta Cesar e Jussara Xavier – o que sucede é um movimento de marcha da terra mar adentro.

O Parquear da Dança Multiplex sucedeu no Parque de Coqueiros, bairro que anuncia a chegada da ilha aos que pela estrada visitam Florianópolis. Parquear, como bem propôs Everton Lampe nas Múltiplas Escritas [1], faz o espaço virar verbo: transformar o parque e transformar-se ao estar no parque. A potência não é o parque – o lugar a que se vai – mas o habitar deste parque: o lugar que se constrói. Parquear chama atenção para a relação co-fundante que travamos com o lugar que habitamos: na mesma medida em que construímos a cidade, esta cidade nos constitui. Estabelecer relação com a cidade seria estabelecer relação conosco mesmos. Que relação queremos ter com nós mesmos?

Tal proposição poética evoca a questão política que nas últimas décadas espetaculariza o urbano ao opor labor e lazer, no que se refere ao espaço público – não por acaso – progressivamente privatizado. Em uma cidade como Florianópolis, que tem muito recentemente a volta de uma ocupação festiva de seu centro, a chamada de atenção para essa co-fundação acaba tocando também na especulação imobiliária inconsequente, incendiária (segundo conta a lenda urbana que explica o incêndio do abrigo de menores sediado na Beira-Mar)  e quase incontrolável. O “quase” tem lugar político – lugar que se constrói, como há pouco se falou –, poetizado por uma performance de uma forma que este que escreve não julgava mais ser possível.

A Ponta do Coral vira lar místico e mundano para o qual sereias muito conhecidas dos ilhéus os atraíram. A Dança coral macula a higienização tão corriqueira que passa quase desapercebida em Florianópolis. O ato de macular principia na ausência de ilusão e no convite ao engajamento em uma performance. Não é uma obra que se frui calmamente com a bunda relaxada na cadeira estofada. Existem regras, etapas, caminhadas mato adentro, instruções a serem seguidas, cheiro de merda, terrenos não seguros no qual se pisa: coautoria.

Diana e Sandra se confundem com o limo que cobre as pedras que emergem do mar/fossa, onde se diluem os dejetos da burguesia que vive à beira-mar. A beira/coral da qual as observamos num delicado butô tectônico é terreno de disputas entre os interessados em construir um resort vertical de luxo e os que querem revitalizar o degradado lar de remanescentes pescadores num parque.

Na experiência das Múltiplas Escritas, Jussara Belchior fala em atrações bizarras para um deleite descabidamente elitizado. A disponibilidade das dançarinas em aceitar o desafio feito pelas articuladoras Milene e Paloma toca na dimensão ética da estética: sem a força das presenças construídas ao longo de décadas teríamos só carne, superfície rija e imponente; sem a iconoclastia das proposições teríamos apenas o esqueleto sólido e estabelecido; nesta parceria o corpo dessa dança ganha vísceras, tem sangue, tem baba, dejetos e pulsões. Arte e vida amalgamadas de uma maneira tal que não pode ser ensinada, mas a qual se pode engajar na descoberta.

Foto: Clara MeirellesFoto: Clara Meirelles

Movimento Público

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   Dança visceral é também aquela que Olga Gutiérrez revela como operante na cidade. O Movimento público que a artista mexicana leva a cabo em parceria com os artistas de Florianópolis é potente não pelo que faz, mas como faz o que faz. Ao colocar uma lente de aumento nas lógicas invisíveis que sucedem na urbanidade, a intervenção em questão faz dos corpos maquetes da cidade. Nessa ação – a de dar a ver lógicas invisíveis em um corpo-maquete – o cortejo de maracatu do Arrasta Ilha parece planejado como interferência. Mas não foi. A lógica invisível que aí se dá a ver é a não relação entre o acadêmico e o popular, o “cada macaco no seu galho” silenciosamente acordado pelos ilhéus. E o epicentro desse tremor foi a OcupaMincSC, movimento encabeçado pelos trabalhadores da cultura que ocupam o antigo casarão da Alfândega.

O encontro não programado e inevitável entre arte popular e arte conceitual ameaçou – aos olhos de quem apenas assistia – virar embate real, mas acabou em ciranda, puxada pelos artistas populares e acatada pelos artistas conceituais. Essa imagem não é apenas descritiva, não é apenas metafórica, é questionadora: o “povo” e a “intelectualidade” não deveriam dar as mãos? E se pororocas de afeto como essa deixassem de se dar no acidente que escapa ao controle, mas na abertura REAL ao diálogo com o Outro?

Quem fomos? Quem estamos por ser?

No espaço entre estas duas perguntas se inscreve como resposta transitória a dança. Narrativas em dois corpos (Diana Gilardenghi + Sandra Meyer + Milene Duenha + Paloma Bianchi), e Nosotros estamos aqui (Olga Gutiérrez) são as obras que dão fôlego inicial e suspendem a última respiração da parcela da programação que dá a ver os enlaces inextinguíveis entre estética e ética. A dança como resposta transitória às perguntas deste subtítulo, neste caso, é ato de convocação dos corpos (das que estão no palco dançando e dos que estão na plateia assistindo) ao presente; este ato – importante dizer – é profundamente singular em cada um dos casos.

Foto: Clara MeirellesFoto: Clara Meirelles

Narrativas em dois corpos, de Diana Gilardenghi e Sandra Meyer.

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 Diana e Sandra, ao performarem seu currículo no Teatro da UBRO lotado, não colocam apenas seus corpos em movimento, mas o corpo de todos que ao longo de seus mais de quarenta anos de dedicação à dança, com elas partilharam sucessivos presentes. Lembrar de uma longa trajetória, neste caso, é fazê-la acontecer novamente de maneira virtual nos corpos todos que nela também estiveram engajados. Isso não é pouca coisa, principalmente quando o que não foi devidamente observado nessa trajetória se adensa e – olhando de onde viemos – nos faz pensar para onde estamos indo. Talvez sem nos dar conta. Enquanto fazia sua aula de barra na Buenos Aires dos anos 70 Diana escuta os tanques de guerra esmagando o asfalto. Não estaremos tapando os ouvidos para os barulhos que invadem nossos ensaios?

Em lugar do convite a pensar para onde vamos, Olga pergunta SE queremos ir pra algum lugar; SE iremos para algum lugar caso ninguém nos leve; SE sabemos como sair de onde estamos; SE sabemos onde estamos; SE; SE; SE. E se a peça jamais começasse? O público levantara de suas cadeiras e se colocaria a coreografar? Ou iriam – um pouco frustrados, bem verdade – tomar uma cerveja e falar da nova temporada de Game of Thrones, ou da novela, ou tanto faz? Quem governa e quem é governado em uma obra de dança?

A tecnologia milenar que se incrusta na carne do espectador é, em Nosotros estamos aqui, questionada com a mesma complexidade que as técnicas dos bailarinos vêm sendo esmigalhadas e reerguidas desde fins do século XIX. E se questionássemos o lugar da recepção e não o da produção? E se o centro das atenções deixasse de ser o ato criativo do artista em seu estúdio e passasse a ser o ato criativo do público em sua fruição das peças de dança? E se quem governasse a obra fosse quem a frui e não quem a produz?

Criando um plano de intensidades capaz de assemelhar a coreografia-situação de todos os vetores políticos que atravessam a América Latina na atual derrocada utópica da(s) esquerda(s), Olga Gutiérrez leva a ideia de dança e os pressupostos de técnica de dança a um nível outro de complexidade e atravessamento entre ficção e real. A arte pode escolher ser inofensiva no contexto em que se dá? Pode. Mas isso – quer se queira, quer não – já é se posicionar.

No Brasil de 2016 talvez estejamos de fato “presos” entre produzir arte inofensiva e arte engajada. Talvez – veja bem: talvez! – seja momento de, além de reinventar a pertinência crítica – reinventar também a pertinência artística.

 Para romper com tudo que obstrui a polifonia

Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

Dança em Foco: Disruptionsm de Ulrike Flämig e Felipe Frozza.

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   Na tentativa de concluir um texto que recém começou a fazer perguntas, a possibilidade de intensificar as proposições até agora feitas aparece de um lugar que definitivamente não se esperava. A Mostra de Videodanças do Festival Múltipla Dança acontece sempre em parceria com o festival Dança em Foco. Parte considerável da produção, apesar da inegável qualidade técnica tanto das gravações quanto das performances dos bailarinos, beira a alienação e não consegue ultrapassar o status de produção de beleza. Isso seria um problema?

A produção de beleza não, seu descolamento do contexto no qual emerge sim. Disruptions de Ulrike Flämig e Felipe Frozza abre a mostra de modo imponente. O tempo-lugar que registra e recria é a Palestina de 2014. Mais especificamente o muro pesadamente monitorado que aparta Palestina de Israel. Até a metade da obra seu desdobramento parece instalá-la num campo estrutural, do corpo projetando linhas e desencadeando mobilidades em consonância com as espacialidades

No muro vertical e composto por retângulos de distintas cores se mostra um corpo ágil, preciso, vestido de vermelho e sem rosto. No monte de escombros o corpo parece alternar entre micro-suspensões e micro-desmoronamentos. Intruso número um: crianças que rondam a gravação no monte de escombros balançam um rabo pendurado em frente à lente da câmera. Intruso número dois: quando a bailarina se deixa ver para o outro lado do muro e os soldados reagem.

“É um projeto de arte”. Se escuta em sua voz pouco antes da imagem se tornar um grande borrão produzido pela corrida com câmera pendurada, que os artistas precisam realizar para fugir de eventuais represálias. A lógica coreográfica é rompida pelo contingente político inseparável do lugar em que se dá a gravação. E a lógica coreográfica é reestabelecida por esse mesmo contingente. Ao incluir a incidência real da política sobre uma poética que fazia uso abstrato dela Disruptions, faz de sua fragilidade uma potência ao esclarecer seu lugar de fala.

Este esclarecimento sucede também em Re: Rosas realizado no CEDAP- Salvador, Bahia onde Nyrlin Seijas faz sua versão da icônica coreografia de Anne Teresa de Keermaeker. Novamente o que chama atenção na obra e a afasta do clichê de bailarinas-alongadas-improvisando-na-frente-da-câmera é a inclusão em sua tessitura do tecido social. A primeira frase que se formou na mente deste que escreve ao assistir os quatro minutos de vídeo foi: “Então é assim que essa coreografia fica executada por pessoas de verdade”!  O    “de verdade” a que se refere é o dos corpos não higienizados racialmente, não homogeneizados por um compreensão de gênero, corpos que não são máquinas fabulosas, nem templos inescrutáveis. Corpos-gambiarra, corpos-parangolé, corpos-Brasil.

A potência/pertinência da ação não é só a de gerar uma versão brasileira respondendo ao chamado da companhia belga na comemoração de seus trinta anos, mas a de dar a ver quantas certezas em nossa percepção estão instaladas sem despertar suspeitas.

Para terminar. Para começar.

A escrita de afetos aqui registrada (tanto do afeto-sentimento-carinho quanto afeto-afecção-spinosiano) é tentativa de uma escrita do que no meu corpo de espectador sucede ao fruir o que no corpo dos artistas sucede ao dançar. Escrita, grafia, coreografia de sensações e pensamentos.

A questão que mais inquieta nessa conclusão não é como continuar a produzir danças pertinentes para o nosso momento-lugar. Em relação a capacidade criativa dos artistas brasileiros e latinos não há duvida. O que este que escreve realmente não sabe por onde começar a responder é: como dialogar concretamente sobre todos esses assuntos com os muitos indivíduos que vêm se negando a qualquer tipo de conversa?

 

[1] Os textos aos quais se faz referência ao longo deste escrito estão disponíveis na página do Múltipla Dança no Facebook.