Ponto de Vista

Múltiplas escritas: reinventando a pertinência crítica
Texto de Everton Lampe: Múltiplas danças, políticas variadas

Foto: Clara Meirelles
Foto: Clara Meirelles
Cena de intervenção urbana Dança Coral, com Diana Gilardenghi e Sandra Meyer, na Ponta do Coral (Florianópolis), que integrou a programação do Múltipla Dança 2016.

O texto a seguir, de Everton Lampe, integra a plataforma Múltiplas escritas: reinventando a pertinência crítica, coordenada pelo artista e pesquisador Anderson do Carmo (saiba mais clicando ao lado).

Em 2016, o Conectedance passa a publicar os textos do Múltiplas escritas, produzidos durante o Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, dirigido em Florianópolis (SC) por Marta Cesar. Esta conexão cria pontes entre artistas, pensadores e todos os que contribuem para a produção e o fomento à dança no Brasil, com a perspectiva de gerar reflexões, intercâmbios, estímulos à criação e ao fazer cultural. 

 

MÚLTIPLAS DANÇAS, POLÍTICAS VARIADAS

Por Everton Lampe

O Múltipla Dança, festival internacional de dança contemporânea que acontece em Florianópolis e teve sua nona edição em 2016, se apresenta como importante evento para a difusão de trabalhos e ações formativas na área de dança no Estado de Santa Catarina.

Não é de hoje que a dança se inscreve na história catarinense como importante área de investigação, que apresenta problemáticas acerca de como esta demanda é entendida em sua capital, Florianópolis. Na cidade, não há um curso superior ou técnico na área de dança e mesmo atividades menos acadêmicas como oficinas culturais de importante formação e interesse popular. Não há propostas municipais até o momento para atender tais necessidades, além dos problemas de políticas públicas estaduais e municipais que se perdem diante de uma realidade conservadora e pouco transparente.

Tudo isso é importante para poder voltar ao evento, buscando identificar lugares entre política e dança, a fim de suscitar a discussão de como a interface entre dança e estruturas sociais é inseparável e necessita ser encarada com mais vigor.

Sendo do interesse de muitos artistas defender o lugar da dança como realidade estética, é possível continuar tal discussão reafirmando que o espaço estético não se inscreve fora da realidade social – logo, dos problemas que o acompanham. Identificar na curadoria do Múltipla Dança de 2016 a presença majoritária de trabalhos solos não tem a ver com uma opção estética – tal escolha se encaminha tanto para uma realidade econômica do próprio evento quanto dos artistas, que cada vez menos podem permanecer em grandes companhias, pelas mesmas razões acerca das condições de trabalho da maioria dos artista da dança no Brasil.

Isto porque não tendo um Plano Nacional de Cultura ativo, o Brasil não cria parâmetros de discussão nacional, de modo que cabe a cada Estado e também município criar suas políticas públicas. Neste sentido, Santa Catarina mostra-se atrasada nas discussões nacionais por não existir no contexto estadual uma secretaria de cultura e sim a Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo. Já em âmbito municipal o problema se amplia com a falta de repasse do Fundo Municipal de Cultura, que impossibilita o fomento à produção artística municipal. Ao mesmo tempo, não há uma política clara de pautas públicas nos teatros para trabalhos municipais, sendo estes espaços tomados prioritariamente por peças voltadas ao entretenimento, produtoras de eventos e também atividades não culturais como convenções e palestras.

O público do Múltipla Dança  é restrito, menos pelas condições do evento, que tem toda a programação gratuita, e mais por não haver uma política de formação de espectadores e de grupos fomentados por iniciativas públicas.

Quanto à criação artística, é possível ressaltar a dificuldade de trabalho em colaboração, o que faz com que muitos grupos atuem com vozes centralizadoras no processo criativo, impossibilitando produções plurais nos níveis de concepção e permanência. Talvez a herança da forte influência das academias e competições que regeram os modos operantes da dança no Estado e a atual perspectiva ainda voltada ao entretenimento, não possibilitam aos teatros serem percebidos amplamente como espaços de elaboração e reflexão social. Outro fator para tanto, seria a anestesia televisiva, mesclada ao velho interesse de afirmar a presença de figuras sociais em espaços públicos, próximos das Casas de Ópera do século 18.

Porém, esta realidade não parece ser um problema para a estrutura do Múltipla Dança, que se mantém a partir da pequena parcela de interessados, fazendo com que – desta forma – um impasse dialético se inscreva na realidade do evento como possibilidade de contradição.

Há um grupo de artistas e espectadores carentes de iniciativas e intercâmbios com outros artistas e o evento, embora longe das condições ideais, garante cinco ou seis dias de programação que visivelmente torna-se um modo de resistência. Porém, ao reconhecer a necessidade de ganhar força para a importância da dança e dos eventos da área, a partir da reivindicação popular na cidade, é importante assegurar o compromisso, por parte do poder público, de apoiar eventos como o Múltipla Dança. Ao menos aparentemente, mostra-se mínima a ação dos artistas da dança contemporânea catarinense em adentrar novos espaços e se relacionar com público não especializado, a fim de partilhar suas práticas em ambientes estigmatizados e periféricos.

Percebe-se atualmente no Brasil a necessidade de compreender a coletividade como ponta de lança para a ocupação de espaços de fala e atuação popular, nos quais a adesão de diferentes grupos garante maiores mobilizações e consequências para as pautas de conhecimento comum.

As provocações em torno do coletivo não anulam o individuo, assim como não há uma única maneira de tratar destas questões. Mas, antes, é preciso que se pergunte: quem está nesta luta? Como interferir na antiga lógica de festivais competitivos de dança em Santa Catarina, que chegam a mais de 70? Como ampliar o sentido das práticas de academias de dança para maior envolvimento na cidade? É possível provocar o lugar de alienação em que muitas vezes a dança é colocada socialmente?  Tratar enfim da importância social da dança?

O evento apresentou a proposta de conversas sobre políticas públicas e modos de reflexão sobre a produção de dança/pensamento que – mais uma vez – teve público escasso. Ao problematizar lugares que não são alcançados pelo evento, assim como a possibilidade de se discutir o formato de tais atividades, fica claro o reconhecimento de tentativas dos envolvidos em impulsionar o movimento da dança contemporânea em Florianópolis, assim como a responsabilidade que é conceber eventos como este.

Ao perceber as limitações de cada iniciativa, fica o desafio de lançar-se neste movimento de modo mais politizado, para identificar problemas como público escasso, responsabilização do apoio governamental para o evento, maior atenção ao seu caráter educativo e de formação e estratégias para trocas com outros grupos sociais. Isto deve ser tão potente como o desejo de transformá-lo – a partir, por exemplo, de uma estrutura com maior diálogo com profissionais da arte educação; viabilidade para a participação local; criação de rede entre grupos da cidade; ampliação da perspectiva do que está sendo a produção contemporânea em dança e suas diferentes matrizes de concepção.