Ponto de Vista

Vamos segurar essa marimba

Foto: Cinthya Araujo
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Por Anderson do Carmo*

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    A dança foi a linguagem escolhida para abrir oficialmente a sexta edição do Estéticas da Periferia**, no último 23 de agosto. A escolha não poderia ser mais potente, ainda mais quando se leva em conta a imponência do palco escolhido para o evento: o Auditório Ibirapuera. A exuberância da arquitetura de Oscar Niemeyer e o arrebatamento da onda escarlate de Tomie Ohtake são invadidos, ocupados e resignificados pelos pulsantes corpos que põem Dos tambores ao tamborzão em movimento, sob a direção geral generosa de Gal Martins.

O tambor é aí apresentado como reincidência tanto nas danças que se sucedem antes da diáspora, nos muitos reinos que se convencionou de modo generalista a se chamar de África, quanto nas danças pós-diáspora, que os corpos negros fazem resistir e reexistir nas periferias brasileiras. Apesar de robusta e qualificada, a apresentação de distintos estilos de danças oriundos dos encontros e atravessamentos operantes nos últimos cinco séculos, nem é a dimensão de destaque do espetáculo. Este posto é ocupado pelas relações que, em cena, se estabelecem entre tais estilos.

Jongo, capoeira, dança mandingue, dancehall, funk, soulfunk, samba, pagode baiano, ragga, as danças de terreiro, vogue, passinho e tantas outras cujos nomes a ignorância deste que escreve desconhece, se apresentam na maioria das vezes em performances virtuosas, mas também como vestígios de arte na vida e como rastros de vida na arte. Num primeiro olhar, a dramaturgia tal como apresentada esboça uma ideia de panorama, mas passa longe de a isso se limitar. Consegue articular uma concreta poética da vitalidade em função de uma política de invisibilização histórica, uma estética do gozo em virtude de uma ética oficial de saberes seletivos, uma crença no festejo em resposta a uma suposta crítica contemporânea que se olvida dos contextos em favor de formalismos.

Mariama Camara, Félix Pimenta, Grupo Zomb.Boys, Cia. Sansacroma, Chemical Funk e Cia. Batekooniana, bem como todos os músicos que também performam ao vivo, põem no centro da programação uma arte periférica, uma arte que na maioria das vezes não é acolhida nos espaços oficiais da arte e em outras tantas mais sequer é compreendida como tal. Esta relação periferia-centro é a primeira a ser mais detidamente observada: a qualidade técnica destes artistas periféricos é equivalente ao dos dito centro, mas há sem dúvida alguma uma pequena e vital diferença. As danças pertencentes ao dito centro estético e intelectual são obras que guardam estreita relação com o impulso das vanguardas modernas e pós-modernas e que tendem a flertar com um formalismo hermético, no qual o fim do fazer artístico tende a ser “apenas” um fazer artístico renovado. Dentro do campo oficial das artes entendidas como contemporâneas isso não é pouca coisa. As danças periféricas (assim designadas quando postas em relação ao suposto centro), no entanto, são também barrocas, robustamente formais e elaboradas, mas nelas o fazer artístico parece não ser um fim e sim um meio do qual se faz uso para instaurar novas possibilidades.

Pouco depois de assistir Dos tambores ao tamborzão assisti de uma só vez aos seis episódios da primeira parte da série The Get Down, dirigida por Baz Luhrmann para o serviço de streaming Netflix. O título do primeiro episódio foi então poderoso para dar nome à sensação que permeou a percepção da obra: Onde há ruína, há esperança de um tesouro. A importância da presença da arte das periferias, portanto a presença de corpos postos à margem, enquanto protagonistas de um discurso estético em um espaço notadamente burguês como o Auditório do Ibirapuera, é sintetizada na relação entre a ruína e o tesouro: olhar para as periferias e consequentemente para os corpos que elas produzem e por elas são produzidos desde a metáfora “ruina: promessa de tesouro” é inverter uma lógica que se desenha quase como ontologia, onde a história do povo preto se inicia com a escravidão.  Esta inversão afirma – sem pedido de licença ou desculpas por perturbar certezas históricas – que esta escravidão é o que interrompe a história deste povo, não o que a ela dá início.

Se a história desse povo é posta em ruína em função do sequestro, tráfico e escravidão operados pelos europeus – principalmente nas Américas – o tesouro em questão não é apenas um regaste de um passado perdido. O Anjo da História, de Walter Benjamin, não veria aí nada perdido para ter de ser resgatado. O tesouro em questão está absolutamente vivo nos corpos dos jovens e cada vez que eles se põem a dançar é seu brilho que resplandece. O tesouro em questão é conseguir viver e não apenas sobreviver apesar de tudo. O tesouro é o porvir: consiste em criar novos modos de existir.

Há ainda a importante provocação a uma das constantes preocupações da arte contemporânea: a fronteira entre arte e vida. Os movimentos que dão corpo a Dos tambores ao tamborzão não têm sua origem na dança espetacular ensinada em academias e universidades e apresentada em teatros tradicionais; eles emergem das ruas, das festas, dos ritos. O asfalto, os centros urbanos e os morros vêm sendo seus palcos. Os sabedores de dança não têm acompanhado seus desdobramentos e consequentemente os mantêm no lugar de invisibilidade e silencio histórico.

Foto: Cinthya AraujoFoto: Cinthya Araujo

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   Deste ponto em diante do texto é importante notar que tanto se chama atenção para a importância de Dos tambores ao tamborzão para os artistas periféricos, no que se refere à representatividade e afirmação de saberes, dizeres e fazeres, quanto para os intelectuais, gestores e artistas que ocupam uma suposta centralidade. Sem rodeios, se poderia perguntar a críticos, pesquisadores e jornalistas habitualmente ocupados com a escrita relativa à dança, o que poderiam falar de iniciativas como a que abriu oficialmente o Estéticas da Periferia. Provavelmente pouco, uma vez que o capital intelectual firmado por mídia, academia e comunidade artística não se deteve nem esporádica e brevemente a mirar seus próprios privilégios econômicos, geográficos e sociais.

Dizer isso é afirmar que o pensamento em dança brasileiro é branco e burguês? Sim. É invalidar suas hipóteses e teses? Depende de quão concreta será a autocrítica que tal pensamento estaria disposto a dar início. Nesse âmbito, quedar-se em cima do muro é tomar o partido da invisibilização e silenciamento e simplesmente ignorar que se precisa agir diretamente na própria fala para instaurar novas narrativas históricas.

São especialmente poderosas, em Dos tambores ao tamborzão, duas outras dimensões: a do corpo feminino e a do corpo gay. Ação caleidoscópica que é, a coreografia tal como apresentada, apresenta sempre no plural os entendimentos relativos ao empoderamento: não há apenas um jeito de ser feminista, e nenhuma das muitas maneiras pode ser estática. A importância da visibilidade conquistada por artistas tais como Beyoncé, Carol Conka, Lupita Nyong’o Mc Carol, Chimamanda Ngozi Adichie e tantas outras – não esqueçamos Elza Soares, Nina Simone e demais precursoras – são reverberações perceptíveis.

No que concerne ao corpo gay já se deve começar com uma correção ao parágrafo anterior: é mais adequado falar em corpo-bicha. As corporeidades apresentadas não são comportadas, higienizadas, palatáveis. São perigosas na medida em que – sem abrir concessões – se mostram exuberantemente como modo de existir legítimo, estética de si radical, que põe em risco certezas demasiado estabelecidas sobre gênero, desejo e gozo. A crueza das performances deixa como provocação a dúvida: quão válido é buscar mecanismos de aceitação, tolerância e outros tantos sentimentos condescendentes?  Se os modelos dados não incluem existências novas, talvez o caso seja realmente propor novos modelos desde o próprio lugar de fala. Mama Rupaul e suas legendárias drag queens mandam lembranças e atestam a importância de rever o nariz a priori sempre torcido para a cultura de massa.

Para este que escreve resta ainda perguntar: como desencadear produções que orbitem em torno de questões como as de Dos tambores ao tamborzão em outros contextos? Como dar vazão no – ainda mais elitista – sul do Brasil a estéticas e éticas periféricas? E, principalmente, como agir de modo a dar protagonismo aos que são e dão origem às periferias sem – mais uma vez – capturar seus discursos?

Pista potente para logo adiante se seguir é olhar não apenas para o palco, mas também para a plateia: o público não apenas tinha a opinião em constante construção durante a performance, mas também a expressava. Aí não se pode identificar mero deleite oriundo de identificação – o que já seria muita coisa! – mas uma postura outra em relação à tutela da qualidade. Reações vivas, paradoxais e complexas emergem dos aí, muito diferente do típico assujeitamento das plateias esclarecidas, que aguardam a reação “de quem entende da coisa” para poder expressar a própria.

*Anderson do Carmo é artista da dança e mestrando em teatro na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina)

 

** O evento Estéticas da Periferia realizou sua 6ª edição em 2016. Idealizado pelo Ação Educativa, (http://www.acaoeducativa.org.br/), mobilizou inúmeros espaços no mês de agosto, em São Paulo, com uma programação construída colaborativamente por 33 coletivos culturais (http://esteticasdasperiferias.org.br/2016/).

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