Ponto de Vista

Viva a multiplicidade
* Por Jussara Xavier

Foto: Cristiano Prim
Foto: Cristiano Prim
Cena do espetáculo Protocolo Elefante, do Grupo Cena 11, que integra a programação do Múltipla Dança 2017.

Em 2006, a gestora e bailarina Marta Cesar me convidou para, em parceria, pensar um festival com periodicidade anual e abrangência internacional, dedicado à dança contemporânea, com ocorrência na cidade de Florianópolis. Certas de que uma ação duradoura requer pensamento consistente, elegemos algumas premissas, úteis para guiar o desenvolvimento da nova proposição. Os termos iniciais e básicos conectam-se a características que são próprias da dança contemporânea, como a valorização da diferença, a heterogeneidade e a interdisciplinaridade artística e conceitual.

Nossa concepção da dança como área de conhecimento e oportunidade de transformação, determinou eleger um critério fundamental de escolha dos profissionais convidados para compor a programação: a atitude de disposição ao diálogo e a recusa de posturas de autossuficiência e isolamento. A proposta, desde o primeiro momento, busca exaltar encontros interpessoais, valorizar o coletivo, o colaborativo, a criação de redes de contatos, ideias e participações. Por isso, desenhamos um festival para ocorrer no tempo de cinco a sete dias, com profissionais convidados a permanecer durante todo o período de realização e participar de mais de uma de suas ações. Ou seja, além de exibir seu espetáculo, o artista é chamado a ministrar uma aula, participar de um diálogo etc. Deste modo, há uma oportunidade real de aproximação e troca com o profissional convidado, com seus modos de pensar e produzir dança.

Não é uma escolha banal, pois demonstra o interesse em compor um festival não como um evento encerrado em si mesmo e incapaz de deixar resíduos, mas como ação cultural efetiva, capaz de construir pontes entre dança e realidade social. Por esse motivo, o programa do Múltipla Dança pauta-se em ações de complementaridade entre criação, difusão e reflexão. Ainda, uma outra premissa: a necessidade de consolidação da memória e disseminação de informações de importância histórica no campo da dança. Sendo assim, determinamos o compromisso em homenagear personalidades e movimentos de valor histórico para a dança de Santa Catarina e do Brasil, a cada edição. Diante da constatação de que os ditos livros de história da dança brasileira não dedicam ou dedicam pouquíssimas e equivocadas linhas sobre a dança produzida no Estado, mantemos o foco das homenagens na dança local.

Somente após demarcar o festival, surgiu seu nome: Múltipla Dança. Em seus eixos de realização, uma lista de “multiplicidades”. Em primeiro lugar, a multiplicidade artística: um festival como tempo-espaço para manifestação da diferença e pluralidade criativa. Diversidade de corpos, pensamentos e formas de organização da dança. Variedade de métodos, contextos e interesses movedores do dançar. Em segundo, a multiplicidade de oportunidades: estudo, criação, exposição, circulação, intercâmbio e contato com realizadores e realizações de dança que transitam na contemporaneidade. Três, a multiplicidade de ações: oferta de oficinas, cursos, diálogos, palestras, debates, performances, lançamento de livros e vídeos, mostra de videodança, ensaios abertos, homenagens, espetáculos e outras atividades. Quatro, a multiplicidade territorial e temporal: uma programação distribuída ao longo de aproximadamente uma semana, em diferentes horários, espaços e bairros de Florianópolis. Por fim, a multiplicidade de público: participação de artistas e companhias de diversas localidades provenientes do Brasil e do mundo; realização de programas específicos para estudantes, profissionais e leigos, bem como, para a plateia infantil, juvenil e adulta; ações ofertadas de modo gratuito.

Inaugurado em 2006, hoje o festival Múltipla Dança alcança sua décima edição. Infelizmente, face à dificuldades operacionais e financeiras, não ocorreu em 2011 e 2012. Contudo, o encontro firmou-se no calendário cultural da cidade e recebeu, inclusive, o Prêmio Cultura 2008, oferecido pela Prefeitura Municipal de Florianópolis e Fundação Franklin Cascaes para projetos de destaque na área cultural. Vale notar que dados estatísticos mostram que Florianópolis está longe de se tornar um centro cultural, tal qual Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, entre outras tantas capitais de destaque. Tais localidades são polos de distribuição de grandes espetáculos de dança nacionais e internacionais, funcionando como centros formativos essenciais ao desenvolvimento das artes cênicas brasileiras. Neste panorama, frequentemente estudantes e profissionais catarinenses optam pela realização de viagens para conhecimento e atualização. A intenção do Múltipla Dança é minimizar tal prejuízo, oferecer experiências e informações especializadas e de rara circulação. No papel de curadora e crítica, ciente das carências formativas e de intercâmbio que assolam o campo da dança, busco instituir espaços de troca de saberes, adequados para sensibilizar o público para a dança e a arte contemporânea, bem como, favorecer a profissionalização de artistas e gestores. Múltipla Dança vem aí, convidando-o a conviver com a dança. Curta. Compartilhe. A melhor forma de mudar uma situação é, sempre, agir.

 

* Jussara Xavier é crítica de dança. Compartilha a curadoria e coordenação do Festival Múltipla Dança, desde a primeira edição, com Marta Cesar. Pós-doutora em filosofia (UFSC), doutora em teatro (Udesc). mestre em artes, comunicação e semiótica (PUC/SP), especialista em dança cênica (Udesc).