Quem Faz Diferença

Entre o teatro e a dança, uma nova linguagem

Foto: Otávio Dantas

Ela poderia se dedicar exclusivamente ao teatro, área na qual começou sua carreira e conquistou reconhecimento. Mas, a paulistana Cristiane Paoli Quito preferiu associar-se à dança, não apenas para dirigir espetáculos, mas para se aventurar em pesquisas e construir uma nova linguagem, consumada com a parceria de Tica Lemos, bailarina e mestra na técnica de contato improvisação.

“A dança me trouxe uma grande liberdade”, avalia Quito, como costuma ser chamada. “É um privilégio transitar entre várias linguagens, buscando a amplitude das artes”. À frente da Cia. Nova Dança 4, de São Paulo, ela colabora decisivamente para um repertório cuja solidez começou a se construir em 1999, quando o grupo estreou Acordei Pensando em Bombas. Nesta criação, além de dirigir, ela também participava como DJ que interagia na movimentação dos bailarinos, por meio de uma sonoridade que incluía relatos de noticiário da política e do cotidiano brasileiros. Bem-sucedida, a obra ficou longo tempo em cartaz, com temporadas inclusive em Lisboa e Miami. Sobretudo, mostrou que os recursos dramatúrgicos de Quito acrescentavam resultados cênicos especiais à base da companhia – ou seja, a técnica de improvisação.

Para Tica Lemos, a presença de Quito na Nova Dança 4 traz um significado maior ao trabalho do grupo. “Ela nos trouxe os elementos teatrais que nos permitiram criar cumplicidade com o público, expandir nossa comunicação”, diz Tica, que também tem papel decisivo na companhia graças ao seu domínio da técnica de improvisação de contato.

O Beijo, novo espetáculo da Nova Dança 4 que estreou no primeiro semestre de 2009 em São Paulo e continua circulando por outras cidades, é uma bela amostra da evolução artística da companhia. Tendo o cinema, o teatro e a literatura como fontes de inspiração, a nova criação surgiu a partir do estudo de obras do cineasta François Truffaut, dos escritores Edgar Alan Poe e Samuel Beckett e principalmente de duas peças do dramaturgo Nelson Rodrigues: Vestido de Noiva e Beijo no Asfalto. Esta última tornou-se o eixo de uma releitura subjetiva, delineada no universo da dança de improvisação, segundo Quito.
Tal fio condutor gerou as pesquisas de movimentos, criando para os bailarinos o desafio de construir, por meio dos próprios corpos, uma nova narrativa, próxima de uma dança teatralizada e evitando o risco de se fazer um “teatro dançado”. Para tanto, as contribuições individuais foram fundamentais. “A técnica de dança utilizada por um intérprete que trabalha para a Quito não tem nome, pois cada um é estimulado a criar a sua própria”, diz Diogo Granato, que há 13 anos integra o elenco da Nova Dança 4.

Granato explica: “Na Nova Dança 4, alguns intérpretes podem misturar improvisação de contato com dança contemporânea. Outros podem combinar a técnica do palhaço com ‘new dance’, ou ainda técnicas de Martha Graham e balé clássico. Junto com Tica Lemos, Quito não criou uma técnica de movimentos de dança, mas uma técnica de trabalho cênico na dança improvisada, que aceita quaisquer movimentos que o intérprete deseja incluir. Ao colocar em foco a importância do indivídio, Quito nos proporcionou uma pesquisa cênica que liberta o dançarino, para que ele possa seguir seu próprio caminho corporal.”

Na trajetória de Quito, a dança surgiu 20 anos após seu envolvimento com o teatro, que começou em 1977, aos 17 anos. Depois de experiências como o Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, onde ficou por quatro meses, foi estudar direito. Formada, durante quatro anos chegou a exercer a profissão que, depois, acabou lhe dando desenvoltura para lidar com os meandros da produção de espetáculos. Em 1986 estreou na direção de teatro, com a peça Escorial, de Michel de Ghelderode. Em 1989 viajou para a Europa, para estudar técnicas teatrais na França e Inglaterra, onde foi aluna de Philippe Gaulier, mestre na arte do palhaço.

De volta ao Brasil, sua carreira no teatro foi se expandindo. Em 1991, graças ao trabalho com a Troupe de Atmosfera Nômade, foi indicada ao prêmio Shell, pela direção de Uma Rapsódia de Personagens Extravagantes. Dois anos depois, destacou-se novamente ao dirigir Prometeu Acorrentado, solo do ator Rodrigo Matheus, que utilizava técnicas de circo para uma representação em que ele ficava pendurado em um grande guindaste. Na época já aprofundava seu contato com as técnicas de dança e consciência corporal de Klauss Vianna, em trabalhos com Neide Neves.

Várias outras realizações teatrais se sucederam, entre outras O Rei de Copas, que marcou sua parceria com o dramaturgo Rubens Rewald. Em 1995, durante um perído sabático na Europa, assistiu ao espetáculo Cravos, da coreógrafa alemã Pina Bausch, que “desencadeou” o seu desejo de explorar a dança como possibilidade de linguagem cênica. Ao retornar ao Brasil, o encontro com Tica Lemos rendeu um intercâmbio fértil, que resultou na fundação da companhia Nova Dança 4, em 1996. “Foi a oportunidade de promover uma interseção de linguagens, de buscar uma nova codificação do que eu conhecia até então.”

Paralelamente ao trabalho com a Nova Dança 4, Quito manteve sua atuação no teatro, já aplicando, porém, o que a dança havia lhe revelado. Em 2005, a peça Aldeotas, de Gero Camillo, lhe rendeu o prêmio Shell de melhor direção. “Dirigi aquele espetáculo quase como uma dança e acho que consegui uma síntese entre movimento e imagem”, afirma. Hoje, disputada pelo teatro e pela dança, alarga suas perspectivas artísticas ao cultivar a confluência entre as duas linguagens.

Na EAD (Escola de Arte Dramática da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), continua suas atividades como professora. Nos palcos, também o público infanto-juvenil tem estado no rol de sua produção. Neste ano, além de Lúdico, feito em parceria com a bailarina e coreógrafa Mirian Druwe, também estreou Coppelias?!, peça que tem sido apresentada no circuito de teatros do Sesc. “São espetáculos para crianças de todas as idades”, diz Quito, disposta a irradiar seu talento para várias direções.