Quem Faz Diferença

Lia Rodrigues: arte aliada a desenvolvimento humano

Foto: Daniel Eugé
Lia Rodrigues
Lia Rodrigues

Lia Rodrigues começou sua carreira em São Paulo, onde nasceu. Em 1991, já morando no Rio de Janeiro, estreou o espetáculo Gineceu, que marca o início de sua trajetória como coreógrafa à frente da Lia Rodrigues Companhia de Dança, que em 2010 está completando 20 anos. Para marcar essas duas décadas de bem-sucedida atuação, inclusive na Europa, onde Lia e seu grupo se apresentam regularmente, o SESC de São Paulo programou uma série de apresentações na capital paulista e em vários municípios. O evento incluiu a estreia de Pororoca, novo espetáculo de Lia, concebido inteiramente no centro de artes da favela da Maré, onde o grupo está sediado desde 2007. Antes de se instalar na Maré, Lia dirigiu durante 14 anos o festival Panorama de Dança do Rio, por ela concebido para promover espetáculos nacionais e estrangeiros, intercâmbio entre artistas, debates e encontros relacionados à produção da dança contemporânea.

Nesta entrevista concedida em seu apartamento no Rio, Lia fala sobre a experiência no Centro de Artes da Maré, sobre o processo de trabalho à frente de sua companhia, sobre as condições para se exercer a arte da dança no Brasil. 

Conectedance – Como você entrou em contato com a comunidade da Maré?

Lia Rodrigues –  Em 2003 a Sílvia Soter [crítica de dança e professora], que trabalha com a companhia desde 2002 como dramaturga, me falou de um projeto na Maré, no qual o Ivaldo Bertazzo [coreógrafo e educador corporal] havia trabalhado por três anos, com mais ou menos 70 meninos, com verba da Petrobrás. Quando a subvenção acabou, aqueles meninos ficaram lá sem ter como continuar e a Sílvia então me perguntou se eu poderia fazer alguma coisa. Eu disse sim, é claro. Explico: desde a primeira vez que a minha companhia recebeu dinheiro público para suas atividades, eu tenho separado uma pequena parte para outros criadores que não têm nenhum subsídio. Mesmo que fosse um montante simbólico, isso permitiu que os criadores pudessem pagar uma ajuda de custo, aluguel de sala de ensaio etc. Quando soube da situação na Maré, eu disse que dispunha desse pequeno recurso, que era o que eu poderia oferecer naquele momento, para que eles pudessem contratar uma professora capaz de continuar trabalhando com aqueles meninos.

Conectedance – Como a sua companhia de dança começou a se envolver com a comunidade da comunidade da Maré?

Lia – Naquele período a Sílvia estava coordenando o projeto de uma escola de dança num galpão do Timbaú [uma das comunidades que integra o Complexo da Maré] e ela me perguntou se eu gostaria de fazer alguma coisa ali. Propus uma “residência resistência”, que consistiria em mudar minha companhia para lá, criar um espaço para a dança, com aulas para aqueles jovens que tinham trabalhado com o Ivaldo, e ao mesmo tempo tentar absorver alguns deles, que quisessem se profissionalizar na companhia. O bailarino Allyson Amaral fez parte desse projeto da companhia e está conosco há sete anos. Entrou como estagiário, recebia para isso uma ajuda de custo, e a Sílvia conseguiu uma bolsa de estudos na Angel Vianna Universidade Escola, onde ele se graduou em dança. Hoje são quatro bailarinos vindos da comunidade da Maré. Os outros três vieram com bolsa da UniverCidade. Todos se formaram e estão na companhia. E tudo foi pensado junto: como podemos transformar uma ideia como esta em ação, sem ter que ficar esperando pela subvenção? Acredito que a ação torna muito mais possível o surgimento de um subsídio.

Conectedance – Ao fazer da Maré o novo endereço da Lia Rodrigues Companhia de Dança você deu início a um novo processo de compartilhamento artístico. Como isso se deu e quais os resultados já obtidos?

Lia – Em 2007 a REDES, ou Redes de Desenvolvimento da Maré, instalada em Nova Holanda [outra comunidade do Complexo da Maré), me convidou para sermos parceiros. A REDES é uma OSCIP [Organização da Sociedade Civil de Interesse Público], criada e dirigida por moradores e ex-moradores da Maré, que tem como principal foco a realização de projetos dedicados a interferir na trajetória socioeducacional e cultural dos moradores de espaços populares, em especial da Maré. A comunidade de Nova Holanda tem 22 mil habitantes e não há nenhum equipamento de cultura, não existe cinema, teatro, nada. Não existe isso na prática cotidiana das pessoas. Assim, a proposta da REDES para a companhia era a criação em parceria de um espaço para as artes. Foi quando nasceu a idéia do Centro de Artes da Maré. Nesses anos de convívio com a REDES, criamos uma relação muito mais engajada, muito mais fértil e criativa. Hoje temos um lugar de partilha, convivência e troca de saberes, direcionado para a formação, criação, difusão e produção das artes.

Conectedance – Uma organização como a REDES, voltada para o desenvolvimento da favela, deve ter lhe trazido questões importantes…

Lia – Me interessam as questões que a REDES coloca sobre as favelas brasileiras, sobre a sua invisibilidade, sobre como trazer cidadania a esses espaços, como superar a falta de investimento do poder público e como lidar com a questão de segurança pública. Ao mesmo tempo a favela me traz a possibilidade de interagir com culturas e modos de ser muito ricos e diferentes. É muito instigante conviver nesse ambiente. Há muito o que fazer e aprender lá dentro, sobre como funciona e se organiza uma comunidade como essa, além da possibilidade de ir-se ao encontro de um público muito afastado da arte contemporânea. Como é que você forma esse público? Como se mostra um trabalho de arte contemporânea nesse lugar? Que diálogo é possível entre a arte contemporânea e um projeto social? De que forma eles podem se encontrar ou não? São questões muito legais para as quais não tenho respostas. A resposta está nessa prática de negociação do espaço, tanto físico quanto de formas de atuação e parceria. O espaço que estamos ocupando agora, o Centro de Artes da Maré, é muito grande, e muitas pessoas me diziam para dividir, criando vários pequenos espaços, e eu  discordo. Estar num espaço tão amplo [1.200 m2 e pé direito de 15 m] é uma experiência corporal muito poderosa. Um espaço sem nada dentro, com paredes brancas, estimula a imaginação, algo que precisamos usar cada vez mais. 

Conectedance – Como se processa a comunicação entre a sua companhia de dança e a comunidade da Maré?

Lia – A aproximação está sendo construída. Uma das estratégias são as aulas gratuitas para a comunidade, de consciência corporal, dança contemporânea e dança para as crianças. É um jeito de sensibilizar os participantes para a dança. Esse é um dos encontros e neste ano [abril de 2010], pela primeira vez, abrimos as portas do Centro de Artes para fazer uma temporada e apresentar nossos espetáculos. O interessante deste lugar é que, além de ser um espaço de arte, também serve para as ações da comunidade: lá se realizam reuniões da comissão de segurança pública, das associações de moradores, festas juninas. Sendo um espaço que promove diferentes tipos de contatos, acho que há, nisso, um processo de troca que vai se construindo no longo prazo, um passo após o outro.  

Conectedance – Essa confluência entre diferentes informações culturais interferiu no trabalho artístico de sua companhia?

Lia – Deve ter modificado muitas coisas… As criações que fizemos desde então estão carregadas de tudo o que a gente vive lá na Maré.

Conectedance – Ter como sede um espaço situado dentro de uma favela implica em conviver com problemas cotidianos de segurança. Isso não lhe trouxe temor?

Lia – O medo é produto da ignorância. Se você conhece, se você entende sua posição política como cidadão, você muda esse medo. Senão é melhor ficar trancado em sua casa, porque as questões da violência estão em todos os lugares. Leitura, conversa, estudo, podem dominar o medo de uma realidade social como essa.

Conectedance – Vamos falar agora sobre o trabalho na Lia Rodrigues Companhia de Dança. O que o trabalho no grupo exige dos dançarinos?

Lia – Os artistas que dançam na companhia precisam ter muito desejo, inquietação, empenho para se envolverem com a pesquisa artística. Também precisam estar abertos para a convivência em grupo, que é sempre intensa, com suas delícias e dificuldades. Trabalhamos de segunda a sexta, das 9 às 16 h. Ao final desse período alguns dos artistas da companhia dão aulas gratuitas, abertas à comunidade, todos os dias, no projeto Dança para Todos.

Conectedance – O que instiga e pontua as produções artísticas da companhia?

Lia – A própria pulsação do dia a dia. Cada trabalho traz questões novas, que nascem das criações anteriores, que permanecem, que ficam sempre presentes. Mas, ao mesmo tempo, cada um trata de assuntos específicos. E isto é muito bom: a cada trabalho poder investigar coisas novas. Quando o trabalho nasce de uma necessidade de criação da companhia, levamos muito tempo até entender sobre o que queremos falar, qual é o foco, em torno do qual as coisas vão se organizando. Às vezes essas definições demoram para acontecer, pois cada trabalho forma um universo próprio, que alimenta a criação.

Conectedance – O seu repertório de criações inclui peças encomendadas, como Contra aqueles difíceis de agradar  [de 2005, a partir de encomenda da instituição francesa La Petite Fabrique, sobre um conto de La Fontaine] e Hymnem [de 2007, feita para o Ballet de Lorraine]. Como se processa a criação a partir da demanda de alguém?

Lia – O que é criação? Entre outras coisas, é trabalhar com algumas restrições. Assim, trabalhar com obras encomendadas é apenas mais uma restrição. E ela me intriga, pois como é que eu vou dialogar, por exemplo, com o universo de La Fontaine? É uma restrição grande, que me obriga a estudar esse universo, a mergulhar e isso é muito bacana. Claro que depende da encomenda, as que eu aceito é porque têm algo que eu possa de fato trabalhar. Todas as que fiz até agora são muito diferentes porque cada uma aborda questões muito específicas.

Conectedance – Como uma companhia independente como a sua lida com as dificuldades de suporte às artes no Brasil?

Lia – É uma situação que exige atitudes alternativas. Assim como meus colegas, diretores e coreógrafos de companhias independentes, eu já passei por tudo. Como já tive uma companhia nos anos 1970, me percebo falando as mesmas coisas até hoje. O que é recorrente parece ser a falta de um projeto consistente para a cultura e o despreparo de muitas das pessoas que ocupam cargos públicos relativos à cultura. E eu acho que nós, artistas, temos sido, muitas vezes, muito passivos em relação a isso. Acho incrível porque nos preparamos tanto para nossas profissões… Para ser bailarino nos preparamos, para ser médico há que se preparar da mesma forma, mas para ocupar um cargo público parece que não precisa, pois a quantidade de pessoas que encontrei na minha vida, completamente despreparadas para o cargo que ocupam… Estou com 54 anos, fiz escola de dança por 11 anos, estudei muito e continuo estudando, porque a gente não para de se formar. Dentro desta situação ainda temos a grave distorção da Lei Rouanet, que permite que o dinheiro público seja utilizado pelas empresas para fazerem seu marketing. E isso com “dinheiro ruim”, como é vulgarmente chamado o dinheiro via Lei Rouanet dentro de algumas empresas. O nome “dinheiro bom” é associado ao dinheiro usado nas ações de marketing via investimento direto, com recursos da área de publicidade ou outros que não utilizem a lei de incentivo e renúncia fiscal. Há também a questão do jornalismo cultural: nos jornais há cada vez menos espaço para artigos consistentes, reflexões, críticas. Dessa forma, o que eu tenho feito é malabarismo, como todos os meus colegas de profissão.

Conectedance – Certamente, ao longo de sua trajetória, você viabilizou seu trabalho das mais diferentes formas…

Lia – Eu já tive “paitrocínio”, já trabalhei sem dinheiro, ganhei um prêmio, depois um financiamento… Fiquei um tempo sem entrar em nenhum edital e minha companhia quase acabou, então inscrevi um projeto no programa cultural Petrobras, de manutenção por dois anos de companhias de dança e fui uma das contempladas [de março de 2008 a março de 2010]. Isso permitiu uma estabilidade inédita para a companhia. Fizemos a pesquisa e a criação do Pororoca. Dentro dessa condição, sempre tive em mente que estávamos usando dinheiro público. Por isso, por exemplo, nossas apresentações são gratuitas, assim como as ações que implementamos na Maré. Estabilidade de dois anos… E agora, novamente sem patrocínio, estamos mais uma vez naquela situação de tentar manter a cabeça fora d’água… E deve continuar assim enquanto não se tem um verdadeiro programa de cultura dos governos federal, estadual e municipal, integrados, a longo prazo e com regras claras. Agora alguns estão respirando e outros tentando não desaparecer… Na verdade, são aplicadas regras de funcionamento de um mercado que não existe para a dança.

Conectedance – Como você vê o momento atual?

Lia –  O momento é de ação. Não adianta mais fazer encontro sobre o que é necessário para a dança. Todos já sabemos há muito tempo. É necessário que os editais sejam uma ferramenta para implementar um programa de políticas públicas, com uma lei de destinação orçamentária do governo, do estado e do município. Agora mesmo é preciso muita atenção e posicionamento quanto à utilização do Fundo Nacional de Cultura. É uma luta constante, e isso dá trabalho. Em meio a tudo, acredito que é possível encontrar formas diferentes de continuar a fazer dança. Para criar condições de sobrevivência é preciso ser criativa, estar sempre atenta e perseverar muito.