Reportagem / Entrevista

A dança está nas ruas de São Paulo

Foto: Divulgação
Cena do festival Visões Urbanas
Cena do festival Visões Urbanas

Em lugares diferentes, como Páteo do Colégio, Estação da Luz, estação Brás do metrô, performances de dança estão interferindo na rotina da metrópole paulistana. Por iniciativa de Mirtes Calheiros e Éderson Lopes, do grupo Artesãos do Corpo, o festival Visões Urbanas chegou à sua quinta edição para fazer do espaço urbano o ponto de partida de criações coreográficas integradas à arquitetura. Com proposta semelhante, o grupo Damas em Trânsito e os Bucaneiros, dirigido por Alex Ratton, tem marcado presença em locais públicos de São Paulo com apresentações de Duas Memórias, cujo ponto de partida é a música de Chiquinha Gonzaga.

Além do grupo Artesãos do Corpo e Damas em Trânsito e os Bucaneiros, São Paulo também conta com o grupo GRUA (Gentlemen de Rua), formado pelos bailarinos e coreógrafos Jorge Garcia, Lau Delgado, Gleidson Vigne, Osmar Zampieri, Alexandre Magno e Willy Helm, que vez ou outra também surpreendem, com suas performances, os cidadãos apressados de São Paulo.

Para a bailarina, professora e socióloga Mirtes Calheiros, que fundou o Artesãos do Corpo em 1999, a dança em paisagens urbanas é uma manifestação artística de resistência e de coragem. “A dança é primordial para o desenvolvimento crítico de uma sociedade. Se não pensarmos em intervalos poéticos em meio à loucura urbana de São Paulo, vamos sucumbir”, diz Mirtes.

A seguir, Mirtes Calheiros e Alex Ratton falam ao Conectedance sobre a dança em espaços públicos. 

Conectedance – Por que uma dança em locais públicos? O que esse diferencial traz para o público e para os artistas?
Alex Ratton – A opção por locais públicos e abertos reflete um desejo da Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros de alterar, por meio de uma manifestação artística, um espaço que já tem um código preestabelecido de uso. Alteramos a imagem desse espaço e com isso modificamos as percepções dos olhares já cristalizados dos transeuntes em relação àquele lugar. Alguém que por acaso está passando pelo local da apresentação e é surpreendido com algo não usual no seu cotidiano tem aquela imagem retida, às vezes por um minuto e às vezes por um longo tempo em sua vida. Apresentações nas ruas fazem com que sejamos vistos por um público muito heterogêneo e que na sua maioria talvez nunca fosse ao teatro para nos assistir. Para os artistas essa proximidade é um alimento muito rico, que ao mesmo tempo nos mantém alertas para os imprevistos e reações inusitadas das pessoas.

Conectedance – No caso da Cia. Artesãos do Corpo chegou-se à ousadia e coragem de se realizar um evento exclusivamente voltado para as danças em locais públicos, o Visões Urbanas. Qual a proposta desse festival?
Mirtes Calheiros – O festival Visões Urbanas leva a dança às ruas da cidade de São Paulo para proporcionar um intercâmbio entre artistas nacionais e internacionais, para questionar, criticar e investigar várias maneiras de realizar o que se convencionou chamar dança e sua relação com o meio urbano. O evento propõe a interdisciplinaridade, uma vez que os trabalhos apresentados em paisagens urbanas muitas vezes se valem da performance, das artes plásticas, do circo, de bonecos e de outras linguagens cênicas. Dialoga com o público diretamente e propicia momentos de poesia e surpresa em uma cidade tão dura como São Paulo.

Conectedance – Por que realizar um evento de danças em locais públicos?
Mirtes – Como professora sempre considerei essencial o desenvolvimento de investigações fora da proteção do chão liso de uma sala de aula. Desenvolvi programas que proporcionavam aos alunos experiências na rua, uma vez que é nesse ambiente que está a vida, a poesia cotidiana, o fato social. Com minha companhia, a Artesãos do Corpo, não foi diferente. Desde sua criação, em 1999, estávamos nós lá embaixo do vão livre do MASP (Museu de Arte de São Paulo) observando, experimentando ideias e movimentos integrados ao espaço, à atmosfera percebida no local. Lá se vão dez anos e não abrimos mão da pesquisa na rua, até mesmo para as criações de palco. Com relação ao Visões Urbanas, a ideia de realizá-lo surgiu quando nos apresentamos em Lisboa, no festival Lugar à Dança, evento ligado à Rede Cidades que Dançam, em 2005. Na ocasião, nos perguntamos por que São Paulo não fazia parte da rede CQD. A partir de então criamos o Festival Visões Urbanas e passamos a pleitear o ingresso da cidade de São Paulo na rede internacional de Cidades que Dançam.

Conectedance – Qual o significado da dança em espaços públicos para você?
Mirtes – Entendo a dança em paisagens urbanas como uma manifestação artística de resistência e de coragem. Como disse Roger Garaudy no livro Dançar a Vida, que belo seria se dançássemos a vida em qualquer lugar e a qualquer hora, criando lugares da dança que não estão circunscritos à formalidade de uma sala. Um povo que dança ainda tem esperanças. Levar a dança às ruas é um trabalho de resistência, que busca provocar os olhares e ouvidos viciados, que busca o estranhamento, o convite para novas experiências. É um convite para parar e se deter em algo e não simplesmente correr de um lado para outro sem perceber sequer onde se está pisando.

Conectedance – Que relações a dança estabelece com o entorno público?
Mirtes – A dança nas ruas subverte o tempo, o espaço e destaca aspectos arquitetônicos antes banalizados pelo olhar cansado. Para isso não é preciso se pendurar em postes e monumentos. Basta realizar o movimento do artista. Além do mais, precisamos ocupar os espaços urbanos que estão sistematicamente sendo retirados de nós, cidadãos, pelos carros, pela poluição, pela violência e pelo concreto.

Conectedance – O Visões Urbanas chegou em 2010 à sua quinta edição, o que é uma vitória num país onde impera a descontinuidade de ações e eventos relacionados à cultura. O que tem contribuído para essa continuidade?
Mirtes – É uma vitória e um ato de loucura ao mesmo tempo. Apesar de contarmos com o apoio da Caixa Econômica Federal e do PROAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo) por dois anos consecutivos, 2009 e 2010, a continuidade é sempre uma incógnita. Precisamos ter a consciência do papel do festival para termos coragem de lançar um olhar para o futuro e pensar nas próximas edições, pois não dá para realizar um festival da noite para o dia. Já estamos estabelecendo parcerias visando a sexta edição, que irá acontecer em 2011 sem nenhuma garantia de apoio. A criação de editais para a realização de festivais é uma iniciativa louvável e se apresenta como uma luz no fim do túnel na questão da difusão das criações de artistas brasileiros e de intercâmbio cultural. A realização de parcerias como a que estamos realizando este ano com o Fórum de Dança de Rio Preto também nos mostra que não estamos sozinhos e que existem soluções de cooperação diante da burocracia e da barbárie.
Porém, o fator essencial para a continuidade é nossa convicção de que a arte tem que estar presente no cotidiano da cidade e que a dança é primordial para o desenvolvimento crítico de uma sociedade. Se não pensarmos em intervalos poéticos em meio à loucura urbana da cidade de São Paulo, vamos sucumbir. Torço para que nossos governantes lancem um olhar mais humano às cidades. O Visões Urbanas é o nosso depoimento contra esse caos.

Conectedance – Por que foi escolhido o Páteo do Colégio como palco do Visões Urbanas?
Mirtes – O Páteo do Colégio reúne condições favoráveis para a realização do festival. Possui um amplo espaço livre, é um marco histórico na cidade e permite que os passantes possam escolher parar ou continuar sua marcha sem serem incomodados, pois essa é uma das tônicas do festival – não criar mais transtornos para a cidade. Com isso evitamos som alto, não colocamos palco e não impedimos a passagem. A plateia se forma espontaneamente. As apresentações do festival acontecem em dois períodos, manhã e tarde, sempre antes e depois da missa. Existe uma parceria com a administração do Páteo muito interessante, pois eles entendem que a arte e a cultura têm que se fazer presentes no cotidiano da cidade e nos abrem as portas, o que não acontece em todos os lugares.

Conectedance – Já a Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros vem se apresentando em vários locais da cidade de São Paulo, como a Estação da Luz, o próprio Páteo do Colégio, a estação Brás do metrô. Qual a via de acesso para se sensibilizar o público em diferentes espaços urbanos?
Alex – Quem está na rua e parou para assistir a um espetáculo que não estava programado no seu itinerário, que não pagou ingresso, que não tem portas restringindo sua passagem, só fica para ver a apresentação se aquilo realmente o interessar. Esse espectador pode ser cativado pela curiosidade, pela sensibilização ou simplesmente pela diversão. Mas, uma coisa é certa: ele precisa ser tocado para ficar, para se deter diante da performance. Para o intérprete existe uma qualidade a ser trabalhada que é a porosidade. Como estamos em um espaço que é de todos e muito próximos às pessoas, não podemos ter uma postura arrogante ou impositiva. Ao mesmo tempo precisamos de muita expansão de energia e presença. É um equilíbrio difícil de conseguir mas essencial para esse tipo de trabalho.

Conectedance – Como vocês se relacionam com as reações das pessoas?
Alex – As reações dos espectadores são sempre um espetáculo à parte. Os que não gostam falam, xingam ou simplesmente vão embora. Os que gostam sorriem, comentam e até ousam pequenos movimentos com o corpo, o que não aconteceria num teatro, onde esse tipo de reação é mais reprimida. Há os casos daqueles que têm menos pudor em se expor, como as crianças, pessoas com mais idade, moradores de rua. Esses entram, participam, são mais espontâneos. Todas essas interferências são bem-vindas e somadas ao trabalho. No interior, quando fazemos em praças e ruas, contamos também com a participação especial dos cachorros, que ficam soltos pelas cidades. Sempre me divirto muito quando isso acontece. Os cachorros têm uma qualidade de presença, de curiosidade, de atenção e de abertura para o que está ao redor que acaba sendo sempre um aprendizado para mim.

Conectedance – O elenco do Damas em Trânsito e os Bucaneiros trabalha com improvisações, mas as apresentações devem ter uma estrutura prévia. Como isso se processa?
Alex – Sim, temos algumas estruturas como jogos de composição na dança e músicas preestabelecidas. Mas, só marcamos o começo e o final. O restante, o que acontece durante a apresentação, é improvisado. Como e quando as músicas e determinadas combinações vão entrar dependem do desenrolar da obra. Por isso a cumplicidade e a sintonia entre os intérpretes são fundamentais. Saber o que o outro está propondo e estar disponível para comprar a ideia sem trocar uma palavra é a regra do jogo e isso é algo que se constrói com o tempo e muito treino.

Conectedance – Qual a importância da música ao vivo, que é característica de suas performances?
Alex – Todos os integrantes do Damas em Trânsito e os Bucaneiros tocam e dançam e essa é uma das características desse grupo: o fluxo entre tocar um instrumento musical e dançar. Os instrumentos usados são piano, escaleta, violino e percussão. Apesar do trabalho danado em levar um piano até os locais das apresentações, afiná-lo com os outros instrumentos, amplificar e equalizar o som, o esforço vale a pena. O resultado é muito interessante, a música ao vivo confere outra qualidade ao espaço.

Conectedance – O que representou a escolha da música de Chiquinha Gonzaga para Duas Memórias?
Alex – A escolha da obra musical de Chiquinha Gonzaga caiu como uma luva. Na época, estávamos interessados em resgatar lugares históricos da cidade de São Paulo, que já tiveram seu apogeu e hoje estão esquecidos, passam despercebidos ou estão degradados. Procurávamos também por algum compositor nacional que tivesse tido forte influência na música brasileira e que quando ouvido nos remetesse a uma determinada época, ressaltando uma memória e nostalgia que, em comunhão com os espaços escolhidos, nos remetesse a outras imagens. Tudo isso fazendo uma ponte com a atualidade, por meio de um corpo com movimentos contemporâneos e na música que se desconstrói através da improvisação. Essas são as várias memórias que se cruzam, se alteram e se somam nessa criação.


Comentários

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3 Comentários para “A dança está nas ruas de São Paulo”

  1. EDERSON LOPES-

    Precisamos recuperar o espaço público e a dança é essencial para esse processo. A dança tem que estar presente no cotidiano das pessoas e incluir o corpo dançante na paisagem urbana é uma ação política antes de artística, se é que existe essa separação..Muito interessante a matéria. A dança em paisgagem urbana ou na rua precisa de espaços como esse para ampliar seu alcance e fomentar reflexões acerca desse tema.

  2. Leticia Sekito-

    Se colocar em situações de risco, instabilidade e porosidade é um ato de coragem e de criatividade. Sinto nas falas do Alex e da Mirtes uma generosidade e consciencia política, que fazem a diferença e mostram como é possível ter projetos que rasguem com ternura e por instantes um ritmo pesado, duro e violento de uma cidade tão complexa e rica como é São Paulo.Há saídas, há janelas e continuamos a passar por elas .

  3. Leticia Sekito-

    Se colocar em situações de risco, instabilidade e porosidade é um ato de coragem e de criatividade. Sinto nas falas do Alex e da Mirtes uma generosidade e consciencia política, que fazem a diferença e mostram como é possível ter projetos que rasguem com ternura e por instantes um ritmo pesado, duro e violento de uma cidade tão complexa e rica como é São Paulo.Há saídas, há janelas e continuamos a passar por elas .