Reportagem / Entrevista

Isadora vive. Na Bahia

Foto: Miro Ito
Lori Belilove em Revolutionary, de Isadora Duncan.

A norte-americana Isadora Duncan (1877-1927) esteve em turnê pelo Brasil em 1916 e se apresentou em Salvador (BA), no extinto Teatro São João. O que mais lhe chamou atenção foi o fato de um negro e uma branca dividirem a mesma mesa de bar. Se fosse viva, talvez se surpreendesse também com os desdobramentos que seu trabalho tem tido na capital baiana.

Túnicas esvoaçantes, cabelos ao vento, pés descalços na areia e uma dança ao ritmo das ondas do mar. A cena remete aos experimentos realizados por Isadora no início do século 20, mas também descreve os encontros organizados pela artista e professora Fátima Suarez na praia de Busca Vida, litoral norte baiano.

Dançarina moderna com formação na London Contemporary Dance School, e cursos no Laban Centre for Movement and DanceMarta Graham Dance School Merce Cunningham Dance Foundation, Fátima buscava uma alternativa para o ensino de dança para crianças quando, em 1992, conheceu a bailarina Lori Belilove (foto), fundadora da Isadora Duncan Dance Foundation(IDDF), em Nova York.

“A inspiração para as vivências naturais em Busca Vida vem de Isadora, mas isso tem sido ampliado. Pensamos na experiência como uma maneira de socializar as crianças novas, de estimular a improvisação e ainda de trabalhar algumas dificuldades, como o medo de subir em árvore ou de entrar no mar. As crianças gostam”, diz Fátima.

Na época, não havia um programa específico para os pequenos no IDDF, mas Fátima pensou que poderia ser uma combinação interessante e investiu nisso com a parceria de Lori. Desde então, a Escola Contemporânea de Dança, dirigida por Fátima em Salvador, passou a ser uma das únicas do Brasil a ter como foco o ensino da técnica de dança moderna desenvolvida por Duncan. E hoje oferece, junto com o IDDF, um programa de certificação na técnica.

Além das vivências e das aulas regulares, Fátima realiza mostras de repertório com sua companhia – a Contemporânea Ensemble – e coordena, em média a cada três anos, a Jornada de Dança da Bahia, reunindo profissionais e amadores em torno do legado da artista que se tornou um ícone da dança moderna. De 21 a 26 de março, o evento teve sua terceira edição e contou mais uma vez com a participação de Lori Belilove.

Isadorável Neta

Para se entender a ligação entre Lori e Isadora é preciso voltar ao passado.

Aos doze anos de idade, em viagem com a família por Atenas, Lori ouviu de um homem mais velho o vaticínio: você vai ser a próxima Isadora Duncan. O homem se chamava Vassos Kanellos e havia convivido e estudado com Isadora na Grécia. Ao completar 16 anos, Lori deixou os Estados Unidos rumo à Grécia para ter aulas de dança com o autor da profecia. Depois disso, ganhou o mundo em busca de aprofundamento nas ideias dessa artista revolucionária, o que chamou de sua missão de vida. Hoje ela é parte da terceira geração de descendentes artísticos de Isadora.

Logo após visitar a exposição Auguste Rodin: homem e gênio, no Palacete das Artes Rodin Bahia, espaço em que gostaria de montar uma perfomance, Lori bateu um papo com oConectedance. Entre xícaras de café com leite, a americana deixou claro que nunca quis ser uma cópia de Isadora. “Eu não quero ser Isadora, sou Lori, gosto da minha vida. As ideias dela sobre o amor, a arte e a mulher são muito bonitas, perfeitas para mim. Então provo delas e me deixo inspirar. Danço a minha própria dança e compartilho o que conheço sobre Isadora pelo mundo”, disse.

Lori dançou com artistas da segunda geração e teve aulas com Anna e Irma Duncan, duas das seis “isadoráveis”. Assim eram chamadas as alunas que foram adotadas por Isadora, após serem barradas em um aeroporto nos Estados Unidos, durante a 1ª Guerra Mundial, por conta de sua nacionalidade alemã. “Anna era um pouco triste e ressentida, não era gentil. Ela dizia ‘faça isso, faça aquilo’, não foi uma boa experiência para mim. Era uma ótima artista, mas não uma professora. Já Irma era forte, amava ensinar. Ela era muito clara e eu sentia que gostava muito de mim. Foi maravilhoso. As duas já morreram, assim como as outras ‘isadoráveis’”.

Além da técnica de Isadora, Lori estudou balé, ioga, técnicas experimentais e dança moderna. Ela chegou a fazer parte da companhia de Doris Humphrey (1895-1958). “Isadora foi a minha primeira grande paixão. Eu amo ensinar, amo dançar… Às vezes preciso de um descanso dela [risos], mas não tem jeito de parar, as pessoas me procuram, recebo convites para falar sobre ela, então continuo”.

Pioneira da Dança Moderna?

A curiosidade sobre Isadora, mesmo após 83 anos de sua morte, é natural. Proclamada aos quatro ventos como a pioneira da dança moderna, ela acaba ofuscando a contribuição de outros artistas que viveram no mesmo período que ela – como a dançarina norte-americana Loïe Fuller (1862-1928), que sem treinamento corporal clássico inovou ao investigar uma dança que nascia das relações entre figurino (considerado um prolongamento do próprio corpo), cenografia e iluminação (1).

Questionada sobre por que isso pode ter ocorrido, Lori elenca algumas razões, como o fato de Isadora ter sido além de dançarina, uma crítica da sociedade moderna, que lutou pelos direitos das mulheres: “Isadora teve uma vida fora dos padrões, era uma mulher selvagem. Ela teve muitos amantes, viajou por vários países, perdeu seus filhos ainda crianças [dois afogados em um acidente de carro e o terceiro morto logo depois do parto] e morreu de forma trágica. Mas a razão mais importante para ela ser tão notável, foi o fato de ter criado uma nova técnica para o corpo”.

Reflexões sobre a técnica de Isadora

Grande parte da técnica de Isadora foi transmitida de geração a geração, “corpo a corpo”, como brinca Lori. Ela procura organizar alguns registros, elaborando planos de aula, editando vídeos e trabalhando na formação de professores.

A reportagem assistiu a uma das aulas ministradas pela artista durante a 3ª Jornada de Dança da Bahia. Com o olhar de quem vive em 2011, é possível observar muitas similaridades entre a técnica de Isadora e a estrutura da dança clássica – como, por exemplo, o encadeamento da aula em uma sequência de exercícios na barra, no centro e a reverência final, e mesmo alguns passos e posições de pernas e braços. Mas isso não a faz menos revolucionária.

Naturalmente, Isadora estava imersa e contaminada pelo ambiente da dança produzida no período – inclusive chegou a estudar balé quando criança, mas não se identificou – o que traz reflexos ao seu trabalho. Em suas viagens pela Rússia, ela conviveu com grandes figuras da dança clássica, como Nijinski, Diaghilev, Fokine e Pavlova, que se tornaram influências no desenvolvimento de sua técnica.

Embora alguns passos guardem semelhanças com os do balé, na aula de Duncan há espaço para a criação e os movimentos não precisam estar rigorosamente vinculados à música. A grande diferença está em como são executados, envolvendo o tronco e deixando o gesto reverberar por todo o corpo. De preferência, de modo livre e selvagem, como fazia Isadora.

Saiba mais

Quem tem interesse em conhecer mais de perto as obras de Isadora pode acompanhar a produção da Lori Belilove & Company: The Art of Isadora Duncan, nos Estados Unidos, e da Contemporânea Ensemble, no Brasil. Ambas remontam obras do repertório, mas também criam trabalhos autorais.

Já para aqueles que ficaram com vontade de estudar sobre o assunto, a sede da Isadora Duncan Dance Foundation oferece certificação e workshops intensivos, além de uma biblioteca que pode ser visitada com agendamento prévio. Os arquivos pessoais de Isadora, entretanto, estão noLincoln Center for the Performing Arts – também em Nova York. Mais informações emwww.lincolncenter.org ou pelo email info@isadoraduncan.org.

Outra boa pedida é essa pequena lista de livros:

Minha Vida, de Isadora Duncan. Jose Olympio, 1989, 299 páginas.

Isadora: fragmentos autobiográficos, de Isadora Duncan. L&PM, 1997, 142 páginas.

Isadora, de Peter Kurth. Globo, 2004, 729 páginas.



(1) Em Dança da Serpente, seu corpo praticamente desaparecia dentro da estrutura de longas faixas de tecido fixas em hastes de madeira que ela manipulava com os braços, o que era inconcebível para a estética amplamente difundida no momento, que posicionava o solista de forma bem visível no centro do palco.

Texto gentilmente cedido pela autora. Publicado em versão reduzida no jornal A Tarde, de Salvador.