Reportagem / Entrevista

Núcleo OMSTRAB: 20 anos

Foto: Gal Oppido
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Fernando Lee em cena de Montestoria
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Fernando Lee

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  O Núcleo OMSTRAB, de Fernando Lee, está completando 20 anos em 2016. Uma das primeiras companhias independentes da cidade de São Paulo a explorar a condição urbana associada às manifestações da cultura popular brasileira, o OMSTRAB associou seu nome a seu primeiro espetáculo: Omstrab (com maiúscula somente na primeira letra, para diferenciar da denominação da companhia, escrita em caixa alta).

O termo “homens trabalhando”, que indica atividade onde há edifícios em construção, acabou virando “Omstrab”, já que o espetáculo, ambientado na construção civil, explora as sonoridades e movimentos de trabalhadores e suas ferramentas. Desta comunidade e sua comunicação oral, também foram aproveitadas as onomatopeias, que se somaram à musicalidade e à temática geral da obra.

Nascido em Campinas (SP), Fernando Lee era estudante de arquitetura quando resolveu se dedicar à dança. “Eu era da geração discoteca, gostava de dançar. Na faculdade tinha dois colegas que faziam dança, fiquei curioso, fui fazer aula e não parei mais. Passei a frequentar o grupo de Augusto Pompeu, onde era possível fazer uma diversidade de aulas, como capoeira, dança do ventre, jazz, expressão corporal. Logo em seguida, fui estudar balé clássico com Lina Penteado”, observa Lee, sobre seus primeiros passos na dança.

Quando mudou-se para São Paulo, ele logo entrou no Ballet Stagium, em fevereiro de 1982. Na capital, aproveitou mais ainda as possibilidades de formação. “Fazia aulas com J.C.Violla, Lennie Dale, Sônia Mota, Alina Biernacka, entre outros”, conta. Não demorou muito, já estava no elenco do Balé da Cidade de São Paulo, que vivia um momento de transformação e revitalização, sob a direção artística de Klauss Vianna. À companhia paulista, Klauss associou na época um grupo experimental, que absorveu bailarinos como Fernando Lee. “Em julho de 1982 eu estreava no Balé da Cidade em Bolero”, ele recorda, referindo ao apoteótico espetáculo concebido por Klauss, com coreografia de Lia Robato e direção de Emilie Chamie.

Fernando Lee ficou no Balé da Cidade de São Paulo até maio de 1985, quando a companhia já era dirigida por Julia Ziviani.

Em 1985, quando se preparava para formar seu próprio grupo, ele já fazia da música uma expressão que lhe é tão cara quanto a dança. “Sou músico intuitivo, só fiz cursos particulares”, diz, referindo-se à habilidade para usar a voz e tocar instrumentos como flauta, saxofone, percussão e mais recentemente o clarinete. Marcante em seus espetáculos, a música ao vivo, segundo ele, é tratada como expressão autossuficiente – “assim como a dança” – em um ambiente de integração de linguagens.

Ao longo de 20 anos, muitos artistas – entre músicos, atores, dançarinos, artistas circenses, videomakers, B-Boys, arquitetos – passaram pelo Núcleo Omstrab. Entre os nomes da dança incluem-se Luis Ferron, Marcio Greyk, Marcelo Bucoff, Sérgio Rocha, Paulo Goulart Filho. Apresentações fora do Brasil também marcam a carreira do grupo, cuja estreia internacional aconteceu em 1996, na Bienal da Dança de Lyon (França).

Com 11 obras em seu repertório, o Núcleo OMSTRAB remontou duas delas – Omstrab e Montestória – para a comemoração de 20 anos do grupo. No segundo semestre de 2016, o grupo deve estrear Fluxo Invisível, fruto de uma pesquisa sobre os rios soterrados de São Paulo e a problemática hídrica. “É um espetáculo sobre fluxos, sobre os rios de nosso próprio corpo, sobre a relação do homem com a água”.

A seguir, uma breve entrevista com Fernando Lee:

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Fernando Lee

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  Na história e no repertório da companhia, o que significam estas duas obras escolhidas para assinalar os 20 anos do grupo – Omstrab e Montestória?

Fernando Lee – A escolha destas duas obras se pautou em primeiro lugar pela questão cronológica. Omstrab, o espetáculo, é nossa primeira montagem, mais visceral, deu nome ao grupo e ainda norteia nossa atuação. Montestória, de dez anos depois, traz uma visão quase onírica dos contos de Monteiro Lobato, desenvolvendo um requinte de cenografia, figurinos e de toda a criação, que se confronta com o despojamento do primeiro espetáculo.

Qual a origem do nome Omstrab?

Fernando Lee – O universo do Omstrab, espetáculo, é um canteiro de obras. Em cena, os trabalhadores se comunicam por meio de onomatopeias – como se captadas à distância, pelo transeunte que do outro lado da rua ouve os gritos dos ‘peões de obra’. O termo ‘homens trabalhando’ se transformou em Omstrab.

Você começou sua carreira em dança como bailarino do Ballet Stagium, na década de 1980. Quais eram os seus desejos, as suas pretensões, quando deixou de dançar em companhias como o Stagium e o Balé da Cidade de São Paulo, para fundar um grupo com linguagem própria?

Fernando Lee – A intenção sempre foi conseguir me expressar com todas as potencialidades que um corpo cênico tem: dançar, cantar, interpretar, tocar um instrumento – não nos moldes dos musicais norte-americanos, mas dentro de um ambiente contemporâneo.

O que tem sido marcante, para o OMSTRAB, nestes 20 anos?

Fernando Lee – Toda apresentação é especial quando fazemos intervenções em espaços públicos e temos a resposta espontânea do público adulto e infantil. Isto é muito especial! Para mim, sem dúvida as pesquisas no Nordeste do Brasil e no estado de São Paulo junto a comunidades de cultura popular, que inspiram todo nosso trabalho. E também foram momentos especialmente marcantes as viagens internacionais, com apresentações na França, Japão e Estados Unidos.

O que permaneceu e o que mudou na linguagem, no repertório da companhia nestes 20 anos – desde Omstrab até criações mais recentes, como Cidade, de 2011, sobre os sons e movimentos da metrópole, e Fluxo Invisível, que deve estrear no segundo semestre de 2016?

Fernando Lee – A cada nova produção procuro descobrir novas formas de compor coreografias e músicas. O universo de cada espetáculo traz uma nova problemática, um novo desafio de inventar e desenvolver métodos de criação e de inter-relação das linguagens da dança, música e teatro.

A condição urbana está sempre presente em seus trabalhos. Por quê?

Fernando Lee – Moro em São Paulo e a vivência da cidade me faz representar o que vivo. Não abstraio esta condição. E realmente ela está sempre presente, seja em contraponto à questão rural, como em Omstrab, ou foco principal, como em Cidade.

Quais os desafios para manter uma companhia de dança contemporânea independente durante 20 anos? Hoje está mais fácil trabalhar com dança?

Fernando Lee – Hoje, sem dúvida, com editais como a Lei de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo, conquistada pela classe, temos chances significativas de desenvolver com decência uma pesquisa, num horizonte a médio prazo. Há 20 anos, quando o grupo começou, ou há 32, quando comecei a desenvolver minha linguagem, tínhamos que nos dedicar a trabalhos paralelos para ter uma fonte de renda. Eu, por exemplo, trabalhei como ator e bailarino em publicidade, como fotógrafo ou dando aulas. Mas também guardo experiências muito legais das mostras de dança promovidas pela Ruth Rachou, da mostra Masculino na Dança, organizada por Marcos Bragato no Centro Cultural São Paulo, e de intercâmbios de artistas, como o SP em Surto, que abria espaço no extinto Teatro Mambembe para artistas cariocas, ao mesmo tempo em que nós, de São Paulo, nos apresentávamos no Circo Voador do Rio de Janeiro.

Diria que o desafio para manter um grupo de dança por 20 anos é fruto de persistência, somada a teimosia.

Foto: Gal OppidoFoto: Gal Oppido

Núcleo Omstrab, de Fernando Lee, no espetáculo Montestória.

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Foto: Fernando LeeFoto: Fernando Lee

Núcleo OMSTRAB em Omstrab, primeiro espetáculo da companhia, que deu nome ao grupo.

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