Reportagem / Entrevista

Wagner Schwartz: um corpo em trânsito entre a dança e a literatura

Por: Rafael Ventuna

Foto: Jônia Guimarães
Foto: Jônia Guimarães
Wagner Schwartz em Piranha

Wagner Schwartz – destaque na Bienal Sesc de Dança 2015 – remonta ao Conectedance o seu percurso artístico. Na entrevista, narra como foi seu ingresso na dança e a busca pela descoberta de seu próprio corpo – físico e poético.

Ele fala sobre a influência exercida pela religião e também sobre os trabalhos apresentados em Campinas, nova cidade-sede da Bienal a partir deste ano. Schwartz foi o artista escolhido pelo evento para realizar uma “ocupação” que, ao apresentar um conjunto de criações, procura proporcionar uma perspectiva mais ampla sobre a obra do artista.

Ao todo, quatro solos foram apresentados na Ocupação Wagner Schwartz na programação da Bienal: Transobjeto (2004), La Bête (2005), Piranha (2009-2012) e Mal Secreto (2014).

Em outubro, de 9 a 11, Schwartz apresenta três de suas peças na capital paulista, na Ocupação Nunca Juntos, na qual se junta a Ronaldo Entler, Massimo Canevacci e Fernanda Carlos Borges para apresentações no Sesc Ipiranga. E, em novembro, La Bête estará na Galeria Olido, na programação do Festival Contemporâneo de Dança.

Sem fronteiras 

Wagner Schwartz nasceu em Volta Redonda, no Estado do Rio de Janeiro. Depois de completar 18 anos mudou-se para Uberlândia (MG), onde cursou a faculdade de Letras. Morou no Triângulo Mineiro por dez anos. Foi neste período que teve seu contato inicial e profundo com a dança, antes de seguir rumo a São Paulo e Paris, cidades onde mantém residências atualmente.

Na infância, ele chegou a estudar músicas populares e teatro. Mas, confessa que nunca havia imaginado que faria das artes sua profissão. Queria ser engenheiro, segundo ele, por uma questão de sobrevivência. Mas, as dificuldades com as ciências exatas abriram uma brecha para sua entrada no campo literário.

A incomum pesquisa de Schwartz traz a literatura como ponto de partida e a dança como ponto de chegada. Sozinho em cena, o artista diz se expressar melhor e conseguir conectar suas referências estéticas, que incluem Oswald de Andrade, Machado de Assis, Vilém Flusser, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Wally Salomão e Jards Macalé. Na dança, elege a dançarina e coreógrafa espanhola La Ribot como grande inspiração. 

Aos 42 anos, ele registra a parceria com Vanilton Lakka, na década de 1990, como um dos momentos mais marcantes de seus 20 anos de atuação. Foi neste período que surgiu a sua percepção da existência do corpo na rua e na dança. Um turning point no processo criativo de Schwartz – levando-o a criar o seu Transobjeto. A apresentação deste solo no Festival Panorama de Dança do Rio de Janeiro despertou a atenção do coreógrafo francês Rachid Ouramdane, rendendo-lhe um convite para trabalhar na França.

Abaixo, entrevista concedida durante a Bienal Sesc de Dança.

De onde você é afinal?

Wagner Schwartz – Já me definiram como mineiro-franco-fluminense. Nasci em Volta Redonda. Fui para Uberlândia. Desde 2005 vivo entre São Paulo e Paris.

Como foi parar em Uberlândia?

Schwartz – Não entendia a vida como possibilidade de ser inventada. Para mim, estava pronta. Era necessário somente entrar na rotina. Quando descobri que dá para inventar, decidi cursar Letras. Minha família nunca teve condições financeiras para me mandar estudar fora. Meu irmão tinha conseguido um emprego em Uberlândia e pensei: “lá o Walber pode me ajudar”.

Em Uberlândia foi onde você entrou em contato com a dança?

Schwartz –  Sim, paralelamente à faculdade. Faltava outra coisa mais importante que a leitura e a escrita: o corpo. Na escrita, invento uma imagem do corpo. Isso não era suficiente. Precisei trabalhá-lo, experenciá-lo, vivê-lo. Este corpo foi criado depois que comecei a dançar.

Frequentou algum curso?

Schwartz –  Em 1994, encontrei o Vanilton Lakka, que trabalha com dança urbana. Lembro dele muito jovem. Eu tinha 20 ou 21 anos. Ele, uns 16. E era meu professor! A academia onde dava aulas faliu e ele me levou para dançar com as pessoas na rua. Fiquei apavorado. Mas, confiei nele. Durante 19 anos frequentei a igreja protestante, onde o corpo é inexistente. Foi um estímulo para eu me distanciar deste núcleo coercitivo e perverso.

Você faz um paralelo deste “corpo inexistente” com a “ausência do corpo na escrita”?

Schwartz –  Exatamente. A ausência na escrita é definida por uma presença. É pensada e possível para o corpo existir. Não dá para fazer um paralelo com o corpo religioso – que é um não-corpo – maltratado e depreciado. A inexistência é não poder ter prazer e desejo. Pode-se apenas ser alguém condicionado a uma forma de ver o mundo que não é a sua própria. A rua acelerou meu processo de abandono. De repente, passei a entender o que é o gesto. Modificou a minha vida. Ganhei peso. Eu, que já tinha esta mesma altura [1,85m], era uns 20kg mais magro. A dança fez esta revolução e criou um corpo que pensa e escreve.

Para você o corpo da rua é diferente do corpo na dança? Em que eles dialogam?

Schwartz –  Não são diferentes. Dialogam muito. O corpo da rua é um corpo que dança em espaços privados e públicos. Está aberto às coisas que nele interferem. Porém, não acredito que na igreja seja dança. Porque é movimento feito pelo corpo para o olhar potente de Deus. Existe ali um jeito condicionado de existir. Falta singularidade. Aí, vira exercício.

Até quando durou a parceria com o Lakka?

Schwartz – 1999. Eduardo Lopes, do Grupo Strondum, foi nosso professor em seguida. Começamos a pensar a dança contemporânea. Criamos o Grupo Werther. Éramos muito curiosos. Naquela época, o Festival de Dança do Triângulo era grande e vimos muita coisa bacana lá. Foi quando entendi minhas possibilidades físicas e artísticas e a relação entre a literatura e a dança. Percebi que eu não pertencia mais a estes coletivos. Aí, fui embora.

Você percebeu que seria uma jornada solitária?

Schwartz –  Exatamente, pois conseguiria dar noção a esta dança. Como um escritor, precisei me isolar. É difícil escrever a várias mãos. Mas, assim como é possível escrever com apenas uma mão, é possível também dançar solo. Agora me vejo como um solista.

E como você percebe seu corpo na Europa?

Schwartz – Talvez isso tenha afirmado ou apresentado aquilo é a figura central no meu trabalho: o estrangeiro. Não é uma pesquisa autocentrada. Eu ficcionalizo tudo. Porque a literatura me permite sair de mim mesmo e pesquisar milhares de “eus” que existem. E existindo em relação ao outro eu posso começar a questionar.

Esses questionamentos geraram alguns destes trabalhos apresentados na sua Ocupação na Bienal?

Schwartz – Todos eles [risos]. Transobjeto foi a saída de Uberlândia e também o encontro com Paris. De onde eu pude ver o Brasil de longe, da Plâce de Clichy, como dizia Oswald de Andrade. “Entender o Brasil” é uma proposta gigantesca. Até mesmo porque “o” Brasil não existe.

Em qual dos trabalhos a literatura está mais presente?

Schwartz – Em Mal Secreto. A coreografia se constrói a partir das frases, da pontuação. É como se o texto coreografasse o gesto. Esse é um projeto literário que foi possível existir porque sou dançarino.

La Bête seria então uma escrita coletiva da dramaturgia?

Schwartz –  Absolutamente não. É tudo individual. Cada um cria sua própria escrita. É como o Facebook. Eu faço uma publicação para começar e as pessoas fazem os comentários delas.

E Piranha?

Schwartz – Nasce de um contexto difícil. Eu vivia entre Berlim e Paris e senti na pele a sensação da inexpressividade para o europeu mediano que vê o Brasil como uma coisa só. Passei a ser inexistente de novo por não me encaixar no padrão tropical. Represento uma falha de percurso. Piranha é a necessidade raivosa de dizer que não sou a pessoa que acreditam que eu seja. Por exemplo, meu nome é um problemaço para europeus entenderem. Acham impossível ser um nome de brasileiro. Então, eu viro uma impossibilidade.

É uma analogia com o Brasil que não representa a ideia que se tem do Brasil?

Schwartz –  Sim e talvez seja este o tema do meu próximo trabalho. O Brasil é gigantesco. Mas, o que se fala dele cabe em uma sala de 4m².

 

*Rafael Ventuna viajou à Campinas a convite da Bienal Sesc de Dança.

 

Programação:

Ocupação Nunca Juntos

Sesc Ipiranga (www.sescsp.org.br/ipiranga)

R$ 20

 

9 de outubro

19h – Poéticas do Acaso, de Ronaldo Entler

21h – Mal Secreto, de Wagner Schwartz

 

10 de outubro

19h – Multivíduo, de Massimo Canevacci

21h – Piranha, de Wagner Schwartz

 

11 de outubro

17h – A Filosofia do Jeito, de Fernanda Carlos Borges

18h – Transobjeto, de Wagner Schwartz

 

 

Festival Contemporâneo de Dança

Galeria Olido

Grátis

 

7 de novembro, às 20h

8 de novembro, às 19h
La Bête, de Wagner Schwartz

Foto: Maíra SpangheroFoto: Maíra Spanghero

Wagner Schwartz em La Bête.

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Foto: João Paulo MachadoFoto: João Paulo Machado

Schwartz em Mal Secreto

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