Temporadas Internacionais

Flamand alcança dimensão poética com os irmãos Campana

Foto: G. Pipitone
Frederic Flammand
Frederic Flammand

Frédéric Flammand, o criador de Métamorphoses, espetáculo que o Ballet Nacional de Marselha está apresentando no Brasil neste mês de outubro dentro das comemorações do Ano França-Brasil, é um coreógrafo que também se destaca como diretor cênico. Suas engenhosas concepções costumam associar dança, teatro, artes plásticas, arquitetura, música e recursos audiovisuais para lançar questões como o poder da tecnologia, da realidade virtual e da velocidade de comunicação do mundo contemporâneo.

“Hoje não há mais distância, a comunicação é instantânea. A internet, que nos coloca no mundo inteiro em um segundo, eliminou o trajeto, fazendo com que a partida e a chegada ocorram quase ao mesmo tempo”, comenta Flamand. Estimulado pelas proposições da arquitetura, já trabalhou com arquitetos de renome internacional, como os norte-americanos Diller e Scofidio, a iraquiana Zaha Hadid, o francês Jean Nouvel. Para realizar Métamorphoses, convidou os designers brasileiros Humberto e Fernando Campana (este último também arquiteto), que conceberam a cenografia e os figurinos do espetáculo.

Se com os arquitetos anteriores Flamand produziu espetáculos complexos, de alta tecnologia, instigantes em suas propostas mas por vezes imbuídos de uma frieza que dificultava o envolvimento do espectador, com os irmãos Campana o coreógrafo alcança uma dimensão poética singular em seu repertório. Mantendo o grau de inteligência e sofisticação de suas criações, Flamand obtém, junto aos Campana, um refinamento estético que banha as 11 cenas que se formam e se decompõem, com fluência e precisão, durante os 75 minutos contínuos de Métamorphoses.

Ao som de uma trilha sonora criada pelo compositor e violinista belga George Van Dam, que articulou as próprias músicas a composições de Stravinsky, Prokofiev, Ravel, Biosphere, Corelli, entre outros, o espetáculo baseia-se em uma obra literária monumental: As Metamorfoses, do poeta italiano Ovídio. Escrita em latim, foi publicada entre os anos 1 e 2 d.C. em 15 livros que continham 246 narrativas distribuídas em 12 mil versos. A ambição de Ovídio era escrever uma história do mundo e mostrar que não existia real diferença entre os reinos animal, vegetal, mineral, humano e mesmo divino. Em entrevista ao Conectedance, Flamand fala de Métamorphoses, de sua parceria com os irmãos Campana e do papel da dança no mundo contemporâneo.

Nascido em Bruxelas (Bélgica) em 1949, Flamand começou a se destacar em 1973, quando fundou o Plan K, grupo que marcou época por explorar o cruzamento da dança com outras disciplinas, principalmente as artes plásticas. Mais tarde, quando assumiu a direção do Ballet Royal de Wallonie, a companhia passou a chamar-se Charleroi/Danses-Plan K. Durante sua profícua carreira, Flamand também foi diretor artístico do primeiro festival internacional de dança contemporânea da Bienal de Veneza.

Em setembro de 2004 ele mudou-se para a França, quando aceitou o convite para dirigir o Ballet Nacional e a Escola Nacional Superior de Dança de Marselha. Nessa tradicional instituição francesa, Flamand promoveu uma transformação ao abrir seu repertório para a criação contemporânea.

A seguir, sua entrevista:

Conectedance – Por que você escolheu a obra de Ovídio para desenvolver o espetáculo Métamorphoses?

Frédéric Flamand – O texto de Ovídio reflete intensamente o mundo atual. Ele fala de um mundo em transformação contínua e hoje nós também vivemos num mundo em mutação, em mudança permanente. Ao mesmo tempo, toda a mitologia abordada por Ovídio tem relação com nossos fantasmas contemporâneos. Que tipo de mitologia nos cerca hoje? Convivemos por exemplo com os mitos da tecnologia, da imagem, do corpo. São mitologias que encontramos tanto em Ovídio quanto no mundo contemporâneo. Em Ovídio, há a contiguidade de todos os elementos, o mineral, o humano, a fauna, a flora, todos em transformação contínua, em uma espécie de reciclagem permanente. Essa noção de reciclagem é extremamente importante hoje em dia, falamos sobre isso o tempo todo, sobre desenvolvimento sustentável diante dos recursos do planeta, numa época em que tudo se torna cada vez mais raro.

Conectedance – Quais os mitos da obra de Ovídio que você relacionou ao mundo contemporâneo?

Flamand – Nas Metamorfoses de Ovídio temos o homem que se transforma em pedra, em lágrimas etc. Para montar o espetáculo nós analisamos os mitos que interrogavam, de fato, o status do corpo hoje em dia. Por exemplo: trabalhamos o mito de Narciso, aquele que se apaixona por sua própria imagem e que nos permite um olhar para nós mesmos, para a dimensão narcísica da sociedade atual. Hoje vivemos em uma sociedade muito narcísica.

Também levamos em conta o mito de Perseu, que matou a Medusa sem olhá-la de frente, guiado apenas pelo reflexo dela em seu escudo. Hoje podemos dizer que vivemos muitas vezes em um mundo onde a imagem é mais importante que o real. Vivemos e olhamos o mundo através dos reflexos das coisas.

Outro mito que nos interessou e que tem relação com o olhar foi Acteon – o voyeur, aquele que foi surpreendido quando olhava a deusa Diana durante o banho. Por isso, Acteon foi punido, transformado em cervo e devorado por seus próprios cães. Ovídio descreve tudo isso com muita velocidade. Aliás, há um ritmo muito cinematográfico nos textos de Ovídio. No mito de Acteon, além do voyeur, encontramos relações com a vigilância, a fragmentação do corpo, que são conceitos extremamente contemporâneos também.

Fomos ainda influenciados pelo mito da deusa Palas, que transforma Aracne em aranha, obrigando-a a tecer eternamente a sua rede. Atualmente essa tessitura eterna é a internet. Podemos dizer que estamos eternamente condenados a tecer redes na internet. É muito irônico mas é a realidade. Somos todos aracnídeos diante da internet.

O mito de Medéia foi outra referência para o espetáculo. Medéia, aquela que prepara os filtros capazes de restituir a juventude eterna. Isso também remete ao atual sonho cotidiano da remodelagem do corpo. Graças aos benefícios da ciência, acha-se possível transformar o corpo e com isso a própria a vida. Creio que esse é um dos conceitos mais importantes da sociedade contemporânea em todo o mundo, veiculado constantemente por publicidade, televisão, revistas, produtos de beleza, cosméticos. A genética, por exemplo, gera o sonho de transformação do corpo, um exemplo perfeito da metamorfose contemporânea. Nunca falamos tanto do corpo como hoje em dia e por isso, no final do espetáculo, fazemos alusões à genética por meio de projeções sobre as cadeias de DNA.

Conectedance – Por que você escolheu os irmãos Campana para criar a cenografia e os figurinos de Métamorphoses?

Flamand – Como o espetáculo lida com ideias de transformação, de reciclagem, pensei nos irmãos Campana como parceiros porque seus trabalhos possuem esses conceitos. A partir de materiais corriqueiros, como mangueiras e tubos de plástico, eles criam objetos magníficos, preciosos. Fazem um trabalho formidável porque também se baseiam em uma lei de economia: suas obras vêm de materiais pobres, encontrados nas usinas, nas ruas, nos supermercados. No trabalho deles há uma certa ironia e uma poesia do inacabado. Por tudo isso, concluí que os Campana seriam artistas perfeitos para abordar o que eu queria. Em vez de criar uma cenografia portentosa, preferiram algo muito subjetivo. Com relação aos figurinos, por exemplo, há uma cena de inspiração barroca ao final do espetáculo, em que os bailarinos aparecem com roupas pretas. Cria-se uma atmosfera muito bonita nesse momento. Só que os figurinos, que poderiam estar num desfile da grife Prada em Tóquio, na verdade são feitos com tiras de velcro, as quais são arrancadas pelos bailarinos, produzindo uma reconstituição a cada apresentação. Tudo o que o elenco veste é feito de materiais muito simples, que não despertam atenção no cotidiano, mas que os Campana conseguiram transformar em roupas extravagantes, magníficas.

Conectedance – Você tem trabalhado com arquitetos que têm criado cenografias complexas para seus espetáculos. Com os irmãos Campana foi diferente?

Flamand – Sim, eles fizeram algo muito menos pesado. Desenvolveram elementos que podem lembrar obras da grande coreógrafa americana Martha Graham, quando ela trabalhava com o escultor japonês Isamu Noguchi, o qual desenhava elementos cenográficos que ficavam suspensos no ar, de maneira aleatória mas que liberavam a dança, a mobilidade dos bailarinos. Os Campana foram por esse caminho ao criar uma cenografia extremamente simples, rigorosa, que ao mesmo tempo permite todo o desenvolvimento coreográfico. Fizeram um trabalho com grandes aros metálicos, que se movem no espaço e remetem às órbitas dos planetas.

Conectedance – Quando e como você conheceu os irmãos Campana?

Flamand – Eu os encontrei 20 anos atrás no Brasil, no início da carreira deles. Eles foram ver um espetáculo da companhia que eu dirigia na época, a Plan K, que estava em temporada no Brasil. Gostaram muito do espetáculo, vieram conversar conosco depois da apresentação, nos convidaram para visitar o apartamento deles, onde mostraram a primeira cadeira que fizeram em ferro e me lembro que essa peça me impressionou [trata-se do par de cadeiras “Positivo-Negativo”, da série “Des-confortáveis”]. Depois nos convidaram para ir à praia, ao Rio de Janeiro e nos tornamos um pouco amigos. Passei a acompanhar a carreira deles, mais tarde vi tudo o que haviam feito de extraordinário no Museu de Arte Moderna de Nova York.

Conectedance – A parceria com arquitetos é constante em sua carreira. O que a arquitetura lhe proporciona?

Flamand – Por meio da arquitetura envereda-se pela utopia de expandir o espaço, de transcender a dimensão estreita do palco italiano, de ir além da cena habitual. Arquitetos são especialistas nesse tipo de coisa. Ao mesmo tempo, me interessa trabalhar com artistas de uma disciplina diferente da minha. É bom sair do próprio gueto, se confrontar com pontos de vista diferentes e novas interrogações sobre o espetáculo ao vivo. Cada arquiteto me proporciona uma experiência diferente, uma maneira diversa de interrogar o estado do corpo dentro da sociedade contemporânea. Dominique Perrault por exemplo, com quem fiz La Cité Radieuse em 2005, me permitiu explorar o conceito de “não-lugar”, advindo de espaços como os aeroportos e shopping centers, que tornam todas as cidades iguais.

Conectedance – Quais suas exigências com relação aos bailarinos?

Flamand – Quando cheguei em Marselha, quatro anos e meio atrás, encontrei uma companhia neoclássica em sua origem. Por isso, tentei criar um diálogo entre a dança contemporânea e a dança clássica. Não um clássico definido, como se diz, mas um clássico ao nível da memória da dança, pois estamos no século 21 e a revolução da dança moderna já está consumada. Guardamos do clássico a sua força técnica. Ao mesmo tempo, introduzi um trabalho de improvisação junto aos bailarinos que lá estavam. Isso porque acredito em bailarinos capazes de se tornar criadores, que não sejam meros executores dos fantasmas de um coreógrafo que lhes diz tudo o que deve ser feito. Ao contrário, prefiro construir um espetáculo em conjunto, ao longo de uma pesquisa em estúdio, que se desenvolve pouco a pouco. Forsythe [William Forsythe, coreógrafo norte-americano que vive na Alemanha] já falou isso: acabou-se o tempo do coreógrafo ditador. Agora cada bailarino traz colaborações para a criação. Creio que isso é extremamente importante, é dessa forma que formamos uma companhia também. Não sou do tipo que faz uma coreografia, depois outra e outra. Acredito que é muito mais importante construir um estilo, uma dinâmica por meio de pessoas que trabalham em conjunto durante anos, que constroem um estilo particular de trabalho.

Conectedance – Em um mundo tão virtual e informatizado como o atual, como você vê o papel das artes cênicas, que são representadas ao vivo, como a dança?

Flamand – Nós, da dança, fazemos parte de uma resistência artística. Nós falamos do corpo, trabalhamos com nossos corpos, mesmo quando utilizamos técnicas audiovisuais ou quando nos valemos da arquitetura ou da tecnologia. Em todas as situações, o aspecto artesanal prevalece. Somos artesanais com relação a um filme hollywoodiano, por exemplo, com relação ao que vemos na televisão todos os dias dentro desse bombardeio de imagens que existe. Representamos, portanto, um trabalho de resistência, de reapropriação do corpo, que me parece extremamente importante nos dias atuais. Esse é o papel mais forte da dança porque hoje em dia nosso corpo está em questão, não só o corpo dos artistas, mas o corpo de todo o mundo dentro da sociedade contemporânea.

Vivemos cada vez mais em uma sociedade de controle, onde o corpo deve ser performático, belo, jovem, sempre em forma, com o dever de trabalhar mais para ganhar mais. Há uma espécie de manipulação geral do corpo, tudo em função de um bem-estar, de um sonho que é uma utopia também. Sim, há um progresso social e científico, felizmente, com coisas muito positivas, extraordinárias e também perigosas. A dança como espetáculo vivo é um pouco a metáfora desse combate do homem dentro de uma sociedade nova, em mutação, onde todas as referências mudam a cada dia. Nesse panorama, a dança também representa uma reflexão crítica, pois o papel da arte é promover reflexões críticas sobre a sociedade em que vivemos.

Cada vez mais vivemos no plano virtual, em meio à tecnologia e tudo o que a ela se refere, o que cria um grande questionamento sobre as artes cênicas. Quando vemos o interesse da juventude, dos jovens de seis, oito, dez anos diante do computador, dos videogames, diante de todo esse mundo virtual e artificial, creio que é importante restituir o lugar do corpo – e a dança é um meio fantástico para falar do mundo porque o corpo é frágil, sensual, efêmero, ao contrário da máquina que é fria, perfeita. No meio disso, acho importante lembrar que é o nosso corpo que permanece como elemento principal, que diz respeito à nossa humanidade e à nossa presença na terra.

Conectedance – Você está desenvolvendo um novo espetáculo?

Flamand – Sim. Será em parceria com Ai Weiwei. É o mais importante artista chinês do momento. Foi ele que desenhou o grande estádio olímpico para os jogos de Pequim, o Ninho de Pássaros, realizado em coprodução com os arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron. Ai Weiwei deu a ideia inicial, colaborou com os dois. Eu descobri o trabalho dele na Bienal de Veneza. Ele tem 57 anos, é filho de um grande poeta chinês, expõe no mundo inteiro. É um artista visionário, audacioso e engajado, muito crítico e contestador com relação ao governo da China. Com ele, novamente estarei envolvido em paradoxos…

Conectedance – E quando será a estréia desse novo espetáculo?

Flamand – Será em fevereiro de 2010, em Luxemburgo. Espero que não demore para ser apresentado no Brasil.